domingo, 31 de agosto de 2008

FRAGMENTOS DO MEU NOVO LIVRO: ESCOLAS & HOSPÍCIOS - ENSAIO SOBRE A EDUCAÇÃO E A CONSTRUÇÃO DA LOUCURA


...E quanto a criança, o ponto central de todas as preocupações aqui descritas é absolutamente necessário se repensar todas as dimensões da educação formal. Incluindo as necessidades, desejos, angústias e sofrimentos da criança durante o acontecer educativo e os seus resultantes para toda a sua vida. Queremos enfocar aqui uma questão crucial que é a da liberdade na educação. A liberdade para aprender. E, sendo liberto, o indivíduo irá aprender a viver livre. Ao meu ver, a maior, a única grande meta da educação enquanto ciência e prática social viva e contextualizada.
O mais grave e constante dos problemas da educação, principalmente, em relação à criança que estuda é precisamente o de torná-la compatível com a liberdade a que tem direito toda pessoa humana. Segundo Mira Y López (l966), se deixássemos a criança fazer tudo quanto deseja e deixar de fazer tudo que deveria fazer, cresceria ela como um selvagenzinho, incapaz, bem cedo, de viver em sociedade. Se pelo contrário, a submetêssemos à nossa obediência e disciplina e a tornamos exatamente como desejamos que seja, cerceríamos sua iniciativa, sua autonomia, criatividade e individualidade e, até certo ponto, estaríamos cometendo um crime mental e moral.
Onde marcar o ponto de separação, a fronteira entre a disciplina, a obediência, a norma e a anarquia? Entre a submissão e a liberdade é a tarefa mais difícil que, a cada instante enfrentam todos os que têm a responsabilidade de ajudar as crianças e os adolescentes a serem bons jovens e adultos.
André Berge (l 965) nos diz que para as crianças não se pode aplicar as diversas acepções filosóficas que para o adulto representa a palavra liberdade. A criança é livre quando sente que é. E isso lhe ocorre sempre que possa comportar sem reprimendas e de modo espontâneo, respeitando apenas os seus próprios instintos de ação. Logo que o adulto intervém nesta espontaneidade, com advertências, conselhos, ordens e proibições, ou, simplesmente, com a sua presença de observador, juiz ou fiscal, a criança sente-se coibida e perde a sua liberdade, inclusive se o adulto a estimula ou a anima a comportar-se livremente.
Ainda segundo o mesmo autor é muito freqüente que a criança se retire com “cara de poucos amigos”, quando seus pais, para afastá-la um pouco, dizem-lhe: “vá brincar... e não nos atrapalhe”. Existe, não obstante, uma possibilidade de que qualquer criança se sinta livre na presença do adulto: isto ocorre quando a façamos esquecer desta nossa condição. Nós a deixamos tomar iniciativas e se incorporar como nossa auxiliar ou companheira em nossos jogos, atividades ou conversas. Então veremos, imediatamente, transformar o semblante da criança. Surgem nele uma alegria e um entusiasmo até então ignorados que irão aumentando ao passo em que o adulto se deixa levar pela vontade infantil. E não o contrário, como ainda hoje, mesmo sendo um absoluto horror, continua a acontecer.
Ainda para Berge (1 965), o sentimento de liberdade se assemelha ao sentimento de bem-estar. Pode-se dizer que é um dos seus elementos principais. No grau mais elevado corresponde ao real. Não diremos então que é uma impressão ilusória, mas sim, a consciência de uma harmonia, da combinação de diferentes partes e nós mesmos, primeiramente, entre elas e depois, com o mundo que as rodeia.
Enfim, a criança tem liberdade e deve sentir-se livre sempre de modo espontâneo, natural e unitário. Se souber o que quero, se quero isto e não vejo obstáculos para consegui-lo, então me sinto completamente livre e triunfante e a repetição desta sensação ao longo da vida é que irá demarcar o tipo de personalidade que, por sua vez, possibilitará conquistas pessoais e vitórias nas lutas da vida.
Mas, se dentro de mim lutam impulsos contraditórios – como os que as escolas geralmente impõem às crianças que as freqüentam – levando o que eu quero a parecer-me com objetivos inconciliáveis, ou se, finalmente, encontro e enfrento resistências, obstáculos e proibições; ordens ou vontades “superiores” que me coíbem, limitam ou me impedem de agir com eficiência ou naturalidade na obtenção dos meus objetivos, então acabou para mim, enquanto perdurar esta situação, o sentimento de liberdade.
O pior é que a cada repetição deste fenômeno, as marcas psicológicas vão se tornando mais densas e profundas. Alterando para sempre a personalidade da pessoa neste sentido. O que interfere diretamente na construção de opressores e oprimidos, de exploradores e explorados e constitui a marca dialética da história em todos os tempos e dimensões do mundo.
Referendando, assim, a dinâmica do poder e com ela, as simbologias e verdades da maldade humana. Maldade esta que se faz viva e presente em muitas das relações, formais ou informais. Mesmo naquelas que envolvem o calor, a intimidade, o carinho, a dedicação, o sentimento de família. E, na educação, é óbvio, que ela está politicamente forte e presente. Suscitando, assim, cuidados mais que especiais para enfrentá-la e vencê-la. Principalmente, quando lidamos com crianças incautas e indefesas.
A liberdade, para a criança, não consiste apenas em um “laissez-faire”absoluto, em virtude do qual sua evolução se efetue sob a desordenada pressão de seus impulsos instintivos, sem assegurar o desenvolvimento harmonioso de todas as suas potencialidades: instintivas, espirituais, práticas, estéticas, culturais, ecológicas, políticas, altruístas e egoístas como as de qualquer ser humano normal. Nesta análise, os educadores deverão renunciar a toda forma de coação mecânica ou moral. Quer dizer, da imposição das suas vontades, pelo simples fato de que são suas. Ou impostas por uma instituição iníqua e desconhecedora da sutileza psicológica humana e, principalmente, da criança. Nunca devemos obrigar a criança a fazer tal ou qual coisa “porque sim”. Ou porque assim o queremos e ponto final. Isto leva ao crime do abuso da autoridade que deixa implícita a sua perda em um muito curto espaço de tempo.
A criança deve, na escola, entender que a liberdade implica em responsabilidade. Para o quê, ela deve ser agente das decisões tomadas como solução de pequenos e grandes problemas. Ela não sabe, mas o instinto humano dita as regras quando o sentido político é desrespeitado. E a educação é um ato eminentemente político o tempo todo.
É preciso que a criança sinta e cumpra a necessidade de escolher, de optar e de ser orientada para arcar com as conseqüências. Embora amparada e assistida com amor, carinho, afeto, compreensão e mãos estendidas para que segure na hora certa. As chances – que são geralmente poucas – para se realizar e para aprender a ser feliz. Equando elas ocasionalmente acontecem, vem o adulto insensível e desinformado e a retira em nome da ordem, da disciplina dos "bons princípios".
À criança, igualmente, devem ser transmitidos o sentimento e a noção de solidariedade e interdependência. E não, vinculando a sua liberdade ao medo, à preguiça ou à hostilidade contra o direito de outras pessoas. É preciso legitimar esta mesma igualdade, de trocas, de diálogos, da possibilidade de dizer, conquistar, agir, questionar as coisas quando elas não a agradam por completo. É mais que necessário que a educação seja um ponto de articulação do mais absoluto bom-senso no exercício e na conquista da liberdade. Só construindo o ser livre em essência é que poderemos começar a pensar a constituir os elementos complementares da educação, da cultura, do conhecimento científico e sistematizado. Bem como, o seu uso e aplicação fundamentados na ética e na conquista política de uma melhor história de vida para o indivíduo, a sociedade e todo um mundo natural que o cerca (Smolka, 2000).
O estudante, se está desmotivado, sem vontade de fazer as coisas da escola, é indolente e tem dificuldades para cumprir suas obrigações escolares, em princípio, a culpa não é dele. Mas da escola ou do professor. Se você vai a um bom e caro restaurante, por exemplo, e não gosta do prato que foi servido. Porque apresentou muito ou pouco sal, não foi assado, frito ou cozido o suficiente e isto o aborrece, o deixa chateado ou o leva a reclamar? A culpa não é sua. Mas de quem gerencia e executa as funções culinárias. Pois bem, este mesmo princípio se aplica à criança, ou melhor, ainda, ao aluno na escola. Ele não é o profissional. Não foi preparado para isso. E, simplesmente, é o usuário dos serviços prestados e deveria recebê-los da melhor forma possível.
É da escola a obrigação de motivar o aluno. De assegurar sua presença e seu rendimento escolar e desenvolvimento humano, social e cultural como um todo. Ela e seus agentes é que devem ultimar providências e recursos para que o trabalho educativo tenha a melhor qualidade possível. Que seja atrativo, lúdico, interessante e, afinal de contas, produtivo.
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Antonio da Costa Neto - fragmentos do livro: Escolas & Hospícios - ensaio sobre a educação e a construção da loucura. Ed. Kelps, 2008 - Goiânia - Go.

Um comentário:

lena disse...

o artigo faz com que repensamos nossas pratica educativa...parabens pela escolha do artigo.muitissimo bom..