sexta-feira, 2 de novembro de 2007

CRÔNICA SOBRE O AMOR



Ninguém ama a outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário, os honestos, os simpáticos, os não-fumantes teriam sempre uma fila de pretendentes batendo à porta. O amor não é chegado a fazer contas, não obedece a razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar. Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referências. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.

Ama-se pelo tom da voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.

Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas e ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco. Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina o Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês combinam. Então?

Então que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado. O beijo dela é mais viiciante do que o LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.

Você ama aquele cafageste. Ele diz que vai e nem liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, ele está sempre duro e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado, e, ainda assim, você não consegue dispensá-lo.

Na quando a mão dele toca na sua nuca, você se derrete feito manteiga. Ele toca Gaita de boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este cara?

- Não me pergunte. Você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem o seu valor. É bonita. Seu cabelo nasceu pra ser sacudido num comercial de shampoo e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível. Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo.

Com um currículo desse, criatura, por que diabos está sem um amor? Há, o amor, esta raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemático: eu linda + você inteligente = a dois apaixonados. Não funciona assim. Amor não requer conhecimento prévio e nem consulta ao SPC, Serasa. Ama-se justamente pelo que o amor tem de indefinível. Honestos existem aos milhares, generosos tem às pencas, bons motoristas e ótimos pais de famílias tão assim, ó!

Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é!


Roberto Freire


Um comentário:

Carlos disse...

Taí porque para o amor não existe explicação...