quarta-feira, 21 de novembro de 2007

MEUS PAIS FORAM UNS MONSTROS


Eu fui sempre uma criança acuada. Vivia com um medo horrível, pois sempre desagradava meu pai ou minha mãe. Se falasse ou me calasse era considerado como desobediente, astuto, atrevido, mal-criado. Confuso, atordoado, nunca sabia o que e como deveria me comportar e me dava sempre mal. Sempre.
E não-raro apanhava muito. Não entendia nada e achava que a vida era assim mesmo. Minha vida era esperar a tarde para saber se tinha surra ou não. Fui até me acostumando com a idéia e estranhava se, por acaso, naquela tarde não tinha bronca nem surra, depois que o meu pai chegava do trabalho e minha mãe contava e aumentava tudo. Ela tinha um certo prazer mórbido em me ver apanhar - mesmo jurando, como o faz até hoje - "que mamãe te ama"...Ah! mentirosa! Mas até onde sei, ela também apanhou muito na infância do meu avô que era um bruto. Que certamente apanhou do seu pai...que apanhou do seu pai...indo parar a culpa em Adão e Eva...

Fui o primeiro filho depois de 10 anos de casamento. Meu pai não queria homem - e hoje entendo - por ciúme, para não haver competição naquele mesmo espaço onde ele reinava sozinho. E, por infelicidade - mais minha do que dele - nasceu um menino. E minha mãe muito covarde e subserviente como sempre, se dobrava às exigências incabíveis do pai em relação ao filho, exercendo uma total omissão durante toda a minha infância, o que deixou-me com seqüelas irrecuperáveis.

Para a criança ingênua e desavisada é muito sofrimento viver sob a mira do pai ou da mãe, sem saber se agiu errado ou não. Se vai levar surra ou não, ou ser ridiculariza em frente aos colegas e aos adultos, parentes ou amigos da casa. É um crime que se comete contra ela - e a pessoa só deveria procriar depois que soubesse disso e pudesse evitar esta barbaridade psicológica tremendamente horrível. E isto vai criando uma mágoa, um buraco por dentro, o que poderá resultar em conseqüências drásticas.

Hoje, com mais de 50 anos de idade, continuo aqui sofrendo os revezes desta conduta irresponsável que meus pais exerceram contra mim. E pior, nunca souberam disso. Papai e mamãe precisam ter um cuidado especial e singular em relação aos seus filhos, que não pediram para vir ao mundo e muito menos para pagarem pelas suas irresponsabilidades morais e afetivas. A dinâmica psicossocial que desencadeiam em cada um dos seus filhos, a forma como os repreendem, se for preciso e os mitos que criam na medida em que atuam desta ou daquela forma ou se omitem em fazê-lo. Tudo forma uma globalidade em que se embasam as estruturas psicológicas da pessoa, suas relações, e, por fim, a sociedade toda. E por conseqüência, os crimes, crises, horrores e sofrimentos.

Família é ótimo. Mas pode ser o foco de muitos problemas de ordem psicológica e de sofrimentos eternos para as pessoas que as compoem, as gerações futuras e aquelas com quem terão quaisquer contatos ao longo da vida. A família pode ser o túmulo da felicidade. Eu, especialmente, como professor a vida toda, imagino a série de injustiças que cometi. Os sofrimentos causados. As reprovações feitas, discussões, mal-entendidos, dores, lágrimas, sofrimentos.

Por via das dúvidas, já que o objetivo deste blog é mudar paradigmas, espero que os pais e mães, meus possíveis leitores, possam aprender e aplicar algumas lições com seus filhos, dentre as quais, destaco:

01 - Não estabeleça limites, mas discuta-os. Negocie sempre. A criança deve expor a sua vontade, sua opção, assumí-la e pagar o preço por ela. Sempre. Queremos criar cidadãos que facilitem a construção de um mundo melhor e isso só acontecerá se a criança vivenciar esta realidade na resolução de seus próprios problemas desde a mais tenra idade. Aliás, a criança que recebeu tudo pronto dentro de uma ordem impositiva, será sempre um ser bossal, um passivo frente às diversidades do mundo e da vida. Meu pai, por exemplo, já morreu há muitos anos. Eu continuo aqui pagando e sofrendo pelos atos impensados dele. Fruto da sua brutalidade, sua ignorância, sua falta de princípios, cuidados, educação, sensibilidade. Passando suas conseqüências para as pessoas com as quais convivo- inclusive agora, pra você que passa a comungar comigo estas idéias.

02 - Cuidado para não criar mitos e fantasias enganosas principalmente que reflitam sobre o prazer, o sexo, os desejos - como infelizmente, fizeram comigo. Não minta e nem esconda nada. Toda criança que pergunta tem o direito de saber a verdade. Ao modo dela, é claro. Não negligencie a informação. O preço a ser pago pode ser muito caro. Gera sofrimentos, dores, doenças, desgraças na família. Pois estas coisas não passam despercebidas aos olhos do sábio universo.

03 - Todos temos as nossas preferências. Papai e mamãe também têm as suas e não admitem. Me leve para a sua casa e em cinco minutos eu digo qual é o seu filho ou filha preferida. E coitado dos demais... mas na frente deles é preciso ter um superior cuidado e corrigir os atos, fatos e falhas neste sentido. Sempre que privilegiar o seu(a) prefirido(a), cuide de voltar atrás, acariciar, dar calor, sorrisos, carinho e atenção aos demais e sempre procurando contrabalanciar privilégios, benefícios, carinhos, elogios, presentinhos... troca, reciprocidade, barganha...

04 - Diálogo é sempre um bom remédio e sem dose balanceada. Pode exagerar. E se for de olho no olho é melhor ainda e dá resultados muito mais imediatos. Carinho, entendimento, empatia: coloque-se no lugar da criança e lembre-se que ela não tem o raciocínio objetivo do adulto. Se você fala pra criança: - "Não puxe o cabelo da sua irmã.". Ela vai entender: - " Não....PUXE O CALBELO DA SUA IRMÃ..." pois após a palavra não, a afirmação é muito maior, e, possivelmente ela vai entender que deve puxar. Se ela for bronquiada ou apanhar por isso, começa aí o processo de construção da loucura.

05 - Relativise sempre a sua posição com o seu pai e a sua mãe durante a sua infância e cuidado para não cometer injustiças graves e inconscientes com os meninos que representam o papai e as meninas que representam a mamãe. Eles não sabem, não eram vivos e não têm culpa de nada. Resolva os problemas com seus pais ou com os terapêutas...deixem as crianças em paz...

06 - Faça dos seus filhos, vencedores. Mime-os, mas não demasiadamente. Diga mais sim do que não, mas, na hora certa, com assertividade. A criança precisa assumir seus atos, omissões, palavras, desejos, mas nunca ser corrompida, humilhada ou sofrer quaisquer danos por isso. Dê à criança o direito de ser criança... Cada não que se diz é amutilação de um pedaço do cérebro da criança.

07 - Por via das dúvidas, use e abuse do amor, do carinho, da dedicação, do afeto. Colo, carícias, palavras doces, elogios, beijinhos - muitos, inclusive, selinhos na boca - são importantes e deliciosos. O amor é a base de tudo. E a falta dele é a responsável por todas as dores, sofrimentos e crises do mundo. E tudo começa com a família. Papai e mamãe são os grandes responsáveis pelo mundo que temos e o universo não costuma perdoar quem teve a chance de fazer o bem e não o fez. Você agora já sabe disso...e a sua responsabilidade se multiplica.
(Lembre-se de passar este texto para a frente. Colabore para que as crianças sofram menos e para que o mundo seja um pouco mais feliz).

Um comentário:

Clara Barreiro disse...

Antônio

Apesar de sua história de vida, você tornou-se amoroso, provocador e ansioso por profundas mudanças sociais.
Clara Barreiro