quinta-feira, 3 de julho de 2008

A MALDIÇÃO DO GERÚNDIO


























De uns tempos para cá passei a ouvir todos os dias um ruído desgraçadamente ensurdecedor. Suscitando o mais absurdo dos atrasos e da falta de sensibilidade, de nível, de cultura. O gerúndio, um resquício tupiniquin ditando que copiar os modos de falar dos inglêses ou dos norte-amercanos poderia significar elegância, evolução, algum tipo de mérito. Coisa típica das secretárias pouco preparadas, ingênuas e ávidas por mostrar serviços e beneficiar seus patrões. Mas não é um privilégio apenas delas.

Pobres de nós que temos que ouvir, especialmente dos agentes de telemarketing. Das insensíveis diretoras de escola, professores pouco-cultos, funcionários públicos; enfim, desta gente na maioria das vezes com muita escolaridade e com pouca sabedoria. Gente de uma categoria sem uma boa classificação e que diz: - "Amanhã o senhor vai estar ligando para nós..." - "Meu gerente vai estar tomando as providências que a senhora deseja..." - "Eu vou estar passando o senhor para a pessoa responsável... (como se as demais fossem irresponsáveis)". E por aí vai.

O uso das formas gerundiadas no cotidiano da língua portuguesa constitui um gravíssimo crime. Um assassinato da nossa comunicação, da língua e da nossa cultura. E é preciso, para isto, muita insensibilidade e bem pouca inteligência. Em síntese, o resultado de uma excessiva burrice. Não sei como as pessoas ainda conseguem fazer isso com a maior cara de pau? Será que elas não percebem, coitadas, a deselegância que é, a falta de nível e a deselegância que significa? Não sentem que é anti-estética esta pronúnica? E olha que eu já ouvi isto da boca de parlamentares, acadêmicos famosos, até de escritores e poetas... Poetas? Escritores?...

Mais uma vez as pessoas não perdem a chance de demonstrar o baixo nível, o atraso generalizado, o paupérrimo desenvolvimento cultural, humano, social e político das pessoas. Falar ou escrever desta forma constitui uma absoluta ignorância. É se rebaixar aos auspícios do poder comercial da língua inglesa, que por ser mais comercial, mais falada e escrita onde existem mais relações com dinheiro, com bens, com grandes capitais, se considera melhor e mais importante. E muitos de nós, brasileiros, caimos nesta onda e começamos a arremedar, a macaquiar esta forma de linguagem, de falar, de se comunicar.

E isto é absolutamente entristecedor. Denota nossa baixa cultura, nossa falta de elegância, de estilo, de nobreza em viver e nos comunicar. Se temos uma língua própria e absolutamente rica, porque esta forma impositiva? Pois o gerúndio em excesso, é um neutralizador da ação, da realidade natural dos fatos. Pois o "nós vamos estar providenciando", por exemplo, significa que estamos, que não estamos, que vamos, mas não vamos fazer. E no final, fica politicamente o dito pelo não dito. Não temos a quem cobrar e nem punir. Pois nenhuma afirmação e igualmente, afirmação alguma foi feita. Ninguém se comprometeu. Ninguem afirmou, então é uma forma política de neutralizar compromissos e fenômenos.

É por isso uma linguagem excelente para os políticos irresoponsáveis, pelos patrões sem escrúpulos e pelas senhoras sem cultura. Façamos então parte desta campanha voluntária de evitar o gerúndio em todos os momentos, falas, escritos e comunicações. Podemos e devemos também, e porque não? Corrigirmos aqueles que usam desta deselegância em nossa volta.

Vamos acabar com o gerundismo sem propósitos. Sejamos brasileiros, cultos, autênticos e sensíveis. Pois somos o que comunicamos. E, principalmente, como comunicamos. Vamos deixar de assinar este atestado de burrice. De subserviência e insensiblidade perante a língua e a cultura nacionais.
Abaixo o gerúndio. E de preferência, a qualquer custo.
PARTICIPE CONOSCO DESTA CAMPANHA VOLUNTÁRIA!
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Antonio da Costa Neto

2 comentários:

Eduardo C. Gomes disse...

mas eu posso dizer "eu estou escrevendo" ou "nós estamos chegando"? Qual seria o substituto para estes casos?

Eduardo C. Gomes disse...

mas eu posso dizer "eu estou escrevendo" ou "nós estamos chegando"? Qual seria o substituto para estes casos?