quarta-feira, 28 de abril de 2010

O POEMA DO MENINO JESUS, DE FERNANDO PESSOA - CODIFICADO COMO ALBERTO CAEIRO




Num meio-dia de fim de primavera

Eu tive um sonho como uma fotografia

Eu vi Jesus Cristo voltar à terra.

Veio pela encosta de um monte.

E era a eterna criança, o Deus que faltava.

Tornando-se outra vez menino,

A correr e a rolar pela relva

E a arrancar flores para deitar fora.

E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.

Era nosso demais para fingir desegunda pessoa da Trindade.

Um dia, que Deus estava dormindo

e que o Espírito Santo andava a voar

Ele foi até a caixa dos milagres e roubou três.

Com o primeiro, ele fez com que ninguém soubesse que ele tinha fugido.

Com o segundo, ele criou-se eternamente humano e menino.

E com o terceiro ele criou um Cristo
e o deixou pregado numa cruz que serve de modelo às outras.

Depois ele fugiu para o sol

e desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje ele vive comigo na minha aldeia

e mora na minha casa em meio ao outeiro.

É uma criança bonita, de riso e natural.

Atira pedra aos burros.

Rouba a fruta dos pomares.

E foge a chorar e a gritar com os cães.

Nem sequer o deixaram ter pai e mãe

como as outras crianças.

Seu pai eram duas pessoas: um velho carpinteiro

e uma pomba estúpida, a única pomba feia do mundo.

E sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher, era uma mala
em que ele tinha vindo do céu.

E queriam que justamente ele pregasse o amor e a justiça.

Ele é apenas humano,

limpa o nariz com o braço direito,

chapina as possas d'água;
colhe as flores, gosta delas,

esquece-as.

E porque sabe que elas não gostam
e que toda a gente acha graça,

ele corre atrás das raparigas
que carregam as bilhas na cabeça e levanta-lhes as sáias.

A mim, ele me ensinou tudo.

Ensinou-me a olhar para as coisas.

Aponta-me todas as belezas que há nas flores.

E mostra-me como as pedras são engraçadas

quando a gente as tem nas mãos e olha devagar para elas.

Ensinou-me a gostar dos reis e dos que não são reis.

E tem pena de ouvir falar das guerras e dos comércios.

Diz-me muito mal de Deus.

Diz que ele é um velho estúpido e doente.

Sempre a escarrar no chão e a dizer indecências.

E que a Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meias.

E o Espírito Santo coça-se com o bico;

empoleira nas cadeiras e suja-as.

Tudo no céu é tão estúpido como nas Igrejas.

Diz-me que Deus não percebe nada das coisas
que criou - do que duvido.

"Ele diz por exemplo que os seres cantam sua glória.

Mas os seres não cantam nada
se cantassem, seriam cantores.

Eles apenas existem e por isso são seres..."

Ele é o humano que é o natural.

Ele é o divino que sorri e que brinca.

E é por isso que eu sei com toda certeza que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E depois, cansado de dizer mal de Deus

ele adormece nos meus braços.

E eu o levo ao colo para minha casa.

Damo-nos tão bem na companhia de tudo

que nunca pensamos um no outro.

Mas vivemos juntos os dois

com um acordo íntimo,

como a mã0 direita e a esquerda.

Ao anoitecer, nós brincamos nas cinco pedrinhas do degrau da porta de casa.

Graves, como convêm a um deus e a um poeta.

É como se cada pedra fosse um universo

e fosse por isso um grande perigo deixá-la cair no chão.

Depois ele adormece.

E eu o deito na minha cama despindo-o lentamente

seguindo um ritual muito limpo, humano e materno até ele ficar nu.

E ele dorme dentro da minha alma.

Às vezes ele acorda de noite e brinca com os meus sonhos.

Vira uns de perna para o ar.

Põe uns encima dos outros.

E bate palmas sozinho sorrindo para o meu sono.

Quando eu morrer, filhinho, seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo.

E leva-me para dentro da tua casa.

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias, caso eu acorde, para eu tornar a adormecer.

E dá-me os sonhos teus para eu brincar...


(Alberto Caeiro)

10 comentários:

Gilberto Lacerda Santos disse...

Esse poema é uma das maiores obras da humanidade, não é mesmo?

Gilberto Lacerda Santos disse...

Esse poema é uma das maiores obras da humanidade, não é mesmo?

Anônimo disse...

ñ vi graça da maneira com aquaal ele se refere a DEUS!
Ao ESPÍRITO SANTO,
acho q ele deveria ter mais respeito com essas coisas.

Anônimo disse...

ñ vi graça da maneira com aquaal ele se refere a DEUS!
Ao ESPÍRITO SANTO,
acho q ele deveria ter mais respeito com essas coisas.

Mar Adentro disse...

O poema aqui está picotado, cortado, meio que dilacerado, o final real é ainda mais bonito e pasmem, fala sobre o amor ao menino Jesus, mas não tem nada a ver com religião. Por favor, poste o poema completo.

Mar Adentro disse...

O poema aqui está picotado, cortado, meio que dilacerado, o final real é ainda mais bonito e pasmem, fala sobre o amor ao menino Jesus, mas não tem nada a ver com religião. Por favor, poste o poema completo.

Jota Effe Esse disse...

Esse poema liberta, vale por uma seção complenta de psicanálise. José Fidelis da Silva.

Maggie disse...

O poema é belo e a forma como ele fala de Deus , da Santíssima Trindade em nada ofende a Igreja... As metáforas e figuras de estilo utilizadas estão geniais..Muito carinhosas, só uma alma pecaminosa vê algo de errado num poema tão bem escrito!!!!!!!!!

Odette Rosa disse...

É um belíssimo poema que fala de um amor terno e verdadeiro ppor um querido menino que so quis ser criança como todas as as outras. As referencias à Santissima Trindades são belíssimas metáforas e é lamentável que algumas pessoas não tenham se envolvido na beleza do poema! "Tudo vale a pena quando a alma não é pequena"

Odette Rosa disse...

É um belíssimo poema que fala de um amor terno e verdadeiro ppor um querido menino que so quis ser criança como todas as as outras. As referencias à Santissima Trindades são belíssimas metáforas e é lamentável que algumas pessoas não tenham se envolvido na beleza do poema! "Tudo vale a pena quando a alma não é pequena"