quarta-feira, 12 de março de 2008

BBB & GLOBO: PROCESSOS CONTÍNUOS DE MANIPULAÇÃO E DE PODER




Neste país a Rede Globo de Televisão é quem define tudo, desde concursos de miss, a ocupação dos grandes cargos, as taxas de juros, o valor dos salários (notadamente o mínimo), etc. etc. Lembro-me aqui da sensacional jogada de marketing para a eleição do Fernando Collor que foi a novela Que rei sou eu? Estrategicamente lançada pouco antes da campanha e que tinha como protagonista, Jean Pierre, belamente interpretado por Edson Celulari, que, reservava semelhanças físicas e morais com o então jovem e atlético candidato. O personagem também enfrentava lutas arraigadas pela justiça social, fazia jorrar sangue para defender aos mais pobres; condenava corruptos, enquanto o brasileiro expulsava marajás, fazia discursos eloqüentes, com gestos largos e fortes, conduzindo as massas ao riso ou ao pranto. Claro que tudo somou para a sua malfadada eleição e para a sua posterior retirada do poder - mais uma vez usando os cara-pintadas - depois de mergulhar a sociedade e a economia brasileiras em uma crise endêmica, mas tudo pareceu normal, regular e pronto. Aliás, como sempre.
Sabiamente a Rede Globo faz a sua manobra política, na medida em que se monta elencos e histórias de novelas, assassinam-se personagens, premia o bem e o mal, ao seu bel-prazer, o que podemos exemplificar com o assassinato do personagem de Antonio Fagundes, em Porto dos Milagres, quando na ficcção o mito baiano fazia ritimar a decantada e última crise política do Senador Antonio Carlos Magalhães e não seria bom colocar novamente no poder um homem com os pés na cova e já sem as condições profundamente maquiavélicas que garantiram seu poder por gerações inteiras.
No BBB acontece, é claro, exatamente a mesma coisa. Só vai para o paredão quem a emissora quer, e, apenas é excluído da casa como o mais votado, o participante que não mais interessa para o aumento dos pontos no Ibope, reduzindo assim as possiblidades dos ganhos imensos da TV Globo com o não menos famoso realitty show. É um processo meio mágico e aparentemente natural de usar as pessoas, de se fazer delas o que quer, numa ditadura horrenda, criminosa e desusada.
Depois que a emissora usou e se cansou das polêmicas criadas pelo futuro psiquiatra Marcelo, suas incoerências e conflitos, muitos deles gerados pela pressão psicológica do confinamento, uma experiência malígna para quem é vigiado e consumido diuturnamente por meses em seguida, num processo latente de tortura simbólica e fria; ela resolve, simplesmente, metralhar a sua imagem. Conclui então que já é hora de atirá-lo no lixo. Pouco se importando se com isso vai desmontar a sua carreira, causar depressão, sofrimentos futuros.
Assim as discussões, as arrogâncias - convenhamos - muitas delas inaceitáveis - em que o moço se envolveu foram repetidas várias vezes no dia da votação, inclusive com requintes de edição, cores, sons, closes cortes, etc. As charges e desenhos animados exibidos na ocasião não deixaram por menos e, ainda, a rotulação e o escárnio do apresentador do programa, Pedro Bial, que não poupava esforços para facilitar a aparência de normalidade para os interesses da Rede Globo. Fazendo a cabeça do público para deixar na casa o jovial Rafinha, tatuado, bonito, moderno, sensual e fazendo o papel do bom moço, o sorridente, o amigo, ganhador, bacana.
Mas o que me assusta não é a capacidade, o cinismo e a coragem da Globo de cometer estes crimes contra o ser humano, mas a passividade deles. A ignorância, a ingenuidade que ainda carregam em seus corpos e almas.
Nas ocasiões dos paredões do BBB são muitos milhões de votos, principalmente os oriundos das famílias mais pobres e desinformadas que preferem tirar o pão de seus filhos a deixarem de votar, para com isso enriquecerem com os acionistas da mais importante rede de TV particular do Brasil e uma das maiores do mundo. E as pessoas não conseguem acordar para isso. Não se convencem do mal que isto acarreta. Pois além de fazer com que gastem seu suado dinheirinho, ainda compra as suas consiciências, lava seus cérebros e retira, por meios psicológicos, sua autenticidade, sua autonomia, fazendo com que se tornem meras e utilizáveis peças do jogo. Em seres facilmente explorados pelo poder, pela arraigada dinâmica dos processos sociais iníquos, perturbadores e malétficos à vida.
Enquanto transcorre os dias, meses e anos do século XXI a população brasileira ainda continua com esta concepção utilitária, simplista, material, com que se aprazem os donos do poder, os senhores do povo que ainda governam com a chibata na mão e que a TV Globo, com o seu traço, suas cores e formas, suas caras bonitas, torsos e coxas sensuais, muito bem sabe impor, usando a sagrada arte para os fins absolutamente contrários àqueles ditados pela sua filosofia, sua história. E já passamos muito da hora de acordar; de ter uma educação que esclareça as pessoas, projetos culturais críticos e politicamente contextualizados às exigências do nosso tempo, possibilitando assim a construção de uma outra sociedade, de uma outra história.
Seria muito esperar que a Rede Globo parasse de exibir o BBB. Pois além de, com o prgrama, ganhar muito dinheiro ela repassa, cheia do lúdico e do onírico, seus valores, sua ideologia burguesa, materialista e doente, com a qual se nutre, vive e se engrandece enormemente, chegando a ser a potência - e o monstro - que é, num país de famintos, perdidos e desdentados. Mas que pelo menos que nas próximas edições não tenham votos. Mas um público consciente que possa rir de sua tendência exploradora e profundamente maldosa. Estou sonhando. Talvez daqui há mais dois mil e quatrocentos anos. Ou mais? Ou nunca? Quem sabe?

Antonio da Costa Neto

2 comentários:

Anônimo disse...

Ultimamente tenho pensado seriamente em jogar a TV no lixo. Serve apenas para diminuir o espaço físico de casa e entorpecer meus filhos. Não se aproveita nada nos programas. Raramente vê-se um Ariano Suassuna ou outros ilustres.
E tenho plena consciência do mal que a TV me fez, direta e indiretamente.
Recentemente reclamei por email à Globo (Jornal Hoje)sobre a apresentação das condições metereológicas: chuva significa para eles somente "tempo ruim"...
Mas seu blog está ótimo e continue plantando estas sementes.

Itamar

Itamar disse...

Prezado mestre!
Veja esta carta aberta ao Pedro Biau. Mais uma vez você acertou!!!

Sds.
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Prezado Senhor

Pedro Bial
Digníssimo Jornalista, apresentador da Rede Globo de Televisão.
Confesso Sr.Bial que não sou espectador do programa o qual o senhor apresenta. Talvez para felicidade da minha cultura e para infelicidade do índice de audiência, ao qual seu programa está atrelado. Mas, tive durante um dia desses, num dos raros casos fortuitos que o destino apresenta, a oportunidade de, por alguns minutos, apreciar o tão falado Big Brother Brasil, o BBB.
Para minha surpresa, durante uma ou duas vezes o senhor, ao chamar os participantes para aparecerem no vídeo o fez da seguinte maneira:
- Vamos agora falar com nossos heróis!
De imediato tive uma surpresa que me fez trepidar na cadeira.
Heróis????
O senhor chama aqueles que passam alguns dias aboletados numa confortável casa, participando de festas, alguns participando até de sessões de sexo sob os ededrons, falando palavras chulas e no fim podendo ganhar um milhão de reais, de heróis?
Pois bem Sr. Pedro Bial, eu trabalho numa Plataforma Marítima que se localiza a aproximadamente 180 km da costa brasileira e contribuimos,mesmo modestamente, para que o nosso País alcançasse a auto-suficiência em Petróleo e continuamos lutando, todos nós, para superar esse patamar.
Neste último dia 26 de Fevereiro presenciamos um acidente com um dos Helicópteros que faz nosso transporte entre a cidade de Campos e a Plataforma. As imagens que ficaram em nossa mente Sr. Bial, irão nos marcar para o resto das nossas vidas. Os seus 'heróis' Sr Bial, são meros coadjuvantes de filmes de segunda categoria comparados com os atos de nosssos companheiros naquele momento.
Certamente o Senhor como Jornalista que é, deve estar a par de todo o acontecido. Mas sei que os detalhes o Sr. desconhece.
Pois bem, perdemos alguns colegas. Colegas esses, Sr Bial, que estavam indo para casa após haver trabalhado 15 dias em regime de confinamento.
Não o confinamento a que estão sujeitos os seus 'heróis', pois eles têm toda uma parafernália de conforto, segurança e bem estar, que difere um pouco da nossa realidade. Durante esse período de quinze dias esses colegas falaram com a família apenas por telefone. Não tiveram oportunidade de abraçar seus filhos, de beijar suas esposas, de rever seus amigos e parentes... Logo após decolar desta Plataforma com destino a suas casas o Helicóptero caiu no mar ceifando suas vidas de modo trágico e desesperador.
E seus 'heróis' Sr Bial, a que tipo de risco eles estão expostos? Talvez aos paredões das terças-feiras, a rejeição do público, a não ganhar o premio milionário ou a não virar a celebridade da próxima novela das oito.
Os heróis daqui Sr Bial foram aqueles que desceram num bote de resgate, mesmo com o mar apresentando um suel desafiador. Nossos heróis Sr. Bial desceram numa baleeira, nossos heróis foram os mergulhadores, que de pronto se colocaram à disposição para ajudar, mesmo que isso colocasse suas vidas em risco. Nossos heróis Sr. Bial, não concorrem ao Premio de um Milhão de reais, não aparecem na mídia, nem mesmo os nomes deles são divulgados. Mas são heróis na verdadeira acepção da palavra. São de carne e osso e não meros personagens manipulados pelos índices de audiência. Nossos heróis convivem aqui no dia-a-dia, sem c âmeras, sem aparecerem no Faustão ou no Jô Soares.
Heróis, Sr Bial são todos aqueles que diariamente, saem das suas casas,nas diversas cidades brasileiras, chegam à Macaé ou Campos e embarcam com destino as Plataformas Marítimas, sem saber se regressarão as suas casas,se ainda verão seus familiares, ou voltarão ilesos, pois tudo pode acontecer: numa curva da estrada, num acidente de Helicóptero, no vôo comercial de regresso a sua cidade de origem....
Não tenho autoridade suficiente para convidá-lo a conhecer nosso local de trabalho e conseqüentemente esses nossos heróis, mas posso lhe garantir Senhor Bial, que caso o Sr estivesse presente nesta plataforma durante aquele fatídico acidente seu conceito de herói certamente seria outro.

Em memória dos colegas:
Durval Barros
Adinoelson Gomes
Guaraci Soares

Valério José Marins da Costa
Tel: (22) 8126-8667
(22) 2757-0171
(22) 2761-7581