segunda-feira, 4 de junho de 2018

IRMÃO - Poema lindo de José Godoy Garcia


Irmão

Eu não fiz uma revolução. 
Mas me fiz irmão de todas as revoluções. 
Eu fiquei irmão de muitas coisas no mundo. 
Irmão de uma certa camisa. 
Uma certa camisa que era de um gesto de céu 
e com certo carinho me vestia, como se me 
vestisse de árvore e de nuvens. 
Eu fiquei irmão de uma vaca, como se ela 
também sonhasse. Fiquei irmão de um vira-lata 
com o brio com que ele também me abraçava. 
Fiquei irmão de um riacho, que é nome 
de rio pequeno, um pequeno que cabe 
todo dentro de mim, me falando, 
me beijando, me lambendo, me lembrando. 
Brincava e me envolvia, certos dias eu 
girava em torno do redemoinho do cachorro 
e do riacho e da vaca, sem às vezes saber 
se estava beijando o riacho, o cachorro 
ou a vaca, com um grande céu 
me entornando, com um grande céu 
com a vaca no lombo e com o cão, 
com o riacho rindo de nós todos. 
Eu fiquei irmão de livros, de gentes. 
Eu fiquei irmão de uma certa montanha. 
Irmão de muitos rios. 
E fiquei irmão de uma certa idéia, 
e tive sorte, não me assassinaram 
como a milhares de meus irmãos, 
e provei a mim mesmo 
a minha fidelidade. 
Fiquei irmão de muito cidadão de nome certo. 
Fiquei irmão de uma certa bebida, 
uma certa bebida que se chama ceva orvalhada. 
Um ritual de estima: amigos, futebol, poesia, 
minha doce donzela de vestido amarelo 
e mais as outras tantas donzelas 
de vermelho, grená, cinza, branquelo, 
os vestidos mais belos e os mais singelos! 
Eu gosto de mim, de meu porte nem sei, 
de minha doce e embalante imaginação, 
de minha frágil e destemida poesia. 

domingo, 18 de fevereiro de 2018

INTERVENÇÃO NA SEGURANÇA PÚBLICA DO RIO DE JANEIRO - A SAÍDA POSSÍVEL "DAR DE COMER A QUEM TEM FOME... E DE BEBER A QUEM TEM SEDE..."



INTERVENÇÃO NA SEGURANÇA PÚBLICA DO RIO DE JANEIRO - A SAÍDA POSSÍVEL "DAR DE COMER A QUEM TEM FOME... E DE BEBER A QUEM TEM SEDE..."
Como professor de metodologia científica aprendi uma coisa importante para se tomar medidas assertivas é fazer, antes de mais nada, uma criteriosa análise processual do problema que se quer solucionar, identificando, a princípio, as causas, os efeitos, os processos e os resultados deste mesmo problema e o que faz com que ele se manifeste, cause as dores e os sofrimentos que se buscam superar com aquela medida, no caso, científica.
O que acontece, acontece como causa? Então é ela que temos que atacar, se é o efeito, o efeito e assim, por diante, mas, antes de mais nada é preciso ter um perfeito conhecimento dos múltiplos fatores que fazem com que tal problema se cristalize e apareça na prática cotidiana das pessoas. No caso da segurança pública no Rio de Janeiro - e em todas as dimensões do dito mundo civilizado - porque as pessoas matam, roubam, assaltam, assassinam? Particularmente, entendo que é porque elas não têm o que roubam e são cerceadas de ter estas mesmas coisas por meios legais, porque não têm dinheiro, trabalho, meios de aquisição. Então este é o problema, a causa da violência. Se é causa, como atacar o efeito, que é o roubo, o assassinato em si, colocando na rua o aparato policial, construindo presídios, acirrando as leis, as punições?
Algo está muito errado, pois o que temos que atacar é a causa, pois neste problema é nela que se manifestam o caos, as dores, os sofrimentos, a violência, as mortes, etc. Temos em metodologia científica a questão das causas primárias e secundárias. Ora, no caso, a falta de um aparato policial, a impunidade, também leva as pessoas a roubarem, assassinarem, violentarem. Sem dúvida. Mas esta é uma causa secundária, que está vinculada à causa primária, que esta, sim, que tem que ser priorizada e resolvida. E resolvida com soluções sistêmicas, ou seja, que resolvam uma parte do problema sem prejudicar outra e outras mais e assim por diante.
Se a causa primária é a falta dos bens, dos meios, dos recursos, que são, por sua vez incentivados e valorizados pelo capitalismo, a solução primária - para a causa primária é providenciar estes mesmos bens, para que, em princípio, a pessoa tendo, não roube, não mate, não assalte, não faça arrastão, etc.
Então é preciso que as pessoas satisfaçam, antes de mais nada, as suas necessidades básicas: comida, habitação, higiene, lazer, saúde, saneamento, água, paz, serenidade, cidadania. Agora, com a intervenção federal o governo faz o contrário: não dá, tira das pessoas os direitos, os meios de vida e aceleram a punição, o cerceamento, o castigo, e, claro que isto funciona, mas funciona parcialmente e até a um certo ponto, ponto este que já deu mais do que provas inequívocas de saturação.
Se uma criança chora porque tem fome, a única solução será dar a ela comida, bebida, ou seja, satisfazer a sua necessidade que leva àquele choro, àquele desconforto. Punir a criança, cerceá-la para que não chore pode funcionar, tangencialmente, e por um tempo, mas a solução definitiva será a alimentação, sem sombra de dúvidas. E é o que acontece com a violência, com as pessoas do morro, os pobres, aqueles que a sociedade rejeitou, que o país não quis e que agora pune, castra, prende, mata.
Não se soluciona um problema secular como este com medidas paliativas e imediatas. É preciso que as pessoas comam, morem bem, tenham dignidade, saúde, trabalho, religiosidade, espiritualidade, etc. Para isto é preciso meter a mão no bolso da elite o que o governo Temer faz é o contrário com esta reforma da previdência, a reforma trabalhista, a intervenção no Rio, etc. etc.
Voltamos aqui aos princípios que tudo norteiam: "dai de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede", e claro, isto é simbólico, pois é só a ponta do iceberg e temos que pensar em muito mais coisas bem mais complexas, pertinentes e diárias. Enfim, aquele princípio básico: "o amai-vos uns aos outros não é mais apenas uma passagem bíblica. É a única saída."

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

PARABÉNS SILVÂNIA PELOS 243 ANINHOS...UM BEBÊ ENGATINHANDO PELA VIDA...

PARABÉNS, SILVÂNIA!!! NOS SEUS 243 ANINHOS DE VIDA. UM BEBÉ A ENGATINHAR PELA VIDA...



Todo mundo tem uma paixão secreta, acredito! Seja ela qual for. Mas sei também que todo mundo tem uma paixão explicita. E aqui venho deixar escancarada e clara uma das minhas. Cinco de outubro pode ser para muita gente uma data comum. Um dia sem nenhum brilho especial. Uma ou outra pessoa pode até puxar pela memória e ser pega de surpresa ao lembrar, ainda que de maneira atrasada, o aniversário de alguém. De um acontecimento marcante, um amor, um beijo, alguma coisa feliz, gratificante.
Eu, porém, vou mais longe, se me permitem. Vou voltar no tempo e arriscar algumas emoções. Pois, 05 de outubro é a data de aniversário da minha cidade natal. A minha amada Silvânia, a antiga e inesquecível Bonfim, de todos nós. "Terra que ensinou Goiás a ler, a ter cultura, sendo sua Atenas". Cidade que viveu tempos memoráveis do cinema. Onde olhos curiosos acompanhavam ansiosos o mundo que se descortinava frente às enormes telas do Cine Teatro Municipal e do Cinema do Seu Aurelino, na rua do Neves de Siqueira. Ou do teatro das freiras salesianas e da arte suprema e inesquecível de D. Nair Damásio.
Ali, muitos se conheceram e, possivelmente, se apaixonaram. Apertaram as mãos às escondidas, trocaram o primeiro beijo, a primeira carícia carregada de suspiro como se a vida quisesse imitar a arte. E conseguisse. Cidade que tem às margens a telúrica Estação Ferroviária, um por do sol poético. Cheiro do eucalipto, as águas do Rio Vermelho, as velhas histórias de Zé Caetano, Josito, D. Maria Teresa. Silvânia do saudoso Manezão, das figuras humanas tão suas, tão próprias: Hermínio Cotrim, Urbano Caetano, D. Fleuza Corrêa, Chico da Altina, Sinhô.
Silvânia, fragmentos de poemas, sempre inacabados. A voz da Salete encantando multidões. Gracinha do Acrísio, um misto de beleza, carisma, inteligência. Maria Érika, sua arte, sua força. Carmita, seu sorriso, sua máquina de costura, sua batalha incansável, por anos, até hoje, até sempre. Silvânia do Inácio, o anjo sem asas. Do Astrogildo, homem bom, sensível, bem-humorado, uma pessoa maravilhosa. Fazendo par com a sua Cota e ciranda com seus filhos e netos. Silvânia dos Damásios, de D. Darvina, minha eterna professora, com quem muito aprendi. Dos jardins paradisíacos de D. Inácia Leite. As fazendihas com suas porteiras rangendo, suas vacas, galinhas, hortas, flores ao vento. E, logicamente, dos Silva, que lhe deram o nome, a graça, o encantamento da simplicidade que tudo dignifica.
Que tem os famosos colégios Anchieta, Nossa Senhora Auxiliadora e o Aprendizado Padre Lancísio. Além do José Paschoal, o campus da Universidade de Goiás, de educação rigorosa, desdobrando as tradições da clássica pedagogia, dos ensinamentos igualmente especiais e profundos como os suspiros, as saudades, a bondade no coração do seu povo. A Catedral Nossa Senhora do Rosário e a Igreja Matriz do Senhor do Bonfim, com sua pracinha de cidade de interior. Um coreto melancólico e solitário, que nos faz voltar no tempo. Terra de gente católica, que tem como símbolo da fé um Cristo de braços abertos em cruz lá no alto, abençoando a tudo e a todos.
Silvânia deve estar em festa. Antes estaria. E era festa das grandes. Os desfiles em comemoração a sua fundação, eram verdadeiros motivos de grandes expectativas. Os ensaios das "bandas" de cada escola se sucediam cansativos, mas cheios de entusiasmos. Cada um queria render sua homenagem e cada uma maior que a outra. Numa das principais avenidas da cidade os dobrados emocionavam o público. Um amontoado de gente formava um verdadeiro corredor humano para ver o desfile passar. Alguns nem respiravam. Cada centímetro era disputadíssimo. E a cidade lá, acolhendo cada nota como prêmio de uma segura gratidão. Silvânia dos festivais, dos encontros de juventude, das marchas da amizade, das serenatas do Lico, da viola do Zé Luiz, da voz doce da Lalá. E também, dos cursilhos de cristandade, das festas dos ex-alunos. Dos espetáculos, das semanas de retiro, dos jogos escolares. Os uniformes de gala, as gincanas. O mel do seu Brenner, os salgados de D. Almira, biscoitos de Ana Rogéria, presépios de D. Babita. Rezas, benzimentos, crenças, muita fé.
As excursões para Aparecida, D. Rilza sorridente e amorosa. Dr. Helvécio, nsosso dentista atendendo as pessoas no seu casarão da Praça. Os ciprestes do quintal de D. Quetinha. A livraria da Nenzita, Vivin, Maria Preta fazendo graças. Conversas afiadas, rodas, brincadeiras da rapaziada, quadrilha ju8nina marcada pelo Toín da D. Elpídia e Amelinha. Não se sabia o que era mais belo, se a dança, as roupas, a alegria dos casais ou a voz melodiosa de seus marcadores.Alguém lembra como era lindo? Hum! que saudade...
As pamonhadas, a feira ao lado do Céssi. Os pomares de jabuticabeiras, o rádio de D. Nestina sempre no último volume. Os anúncios do Ditão no alto-falante da igreja.O repicar dos sinos, os sermãos do Pe. Polly. A visita da imagem do Divino Pai Eterno e toda gente animada decorando suas portas, iluminando a graça das toalhas brancas e bordadas ao calor das mãos humanas, calejadas, sofridas, mas, nem por isso, deixando de fazer as alegrias do povo.
A cidade que tem como um dos cartões postais a Praça do Rosário. Famosa por sua fonte luminosa onde todos se encontram durante o final de semana e ainda vivem ali os grandes carnavais, os shows que encantas, as feiras, as mostras de arte, só alegrias. Os bailes do Clube Recreativo, as festas religiosas e profanas. A Avenida, o Bar Patropi, o saudoso Tôen do Clóvis...
A casa deliciosa de Seu Cipriano, onde íamos estudar entre paredes de adobo, terreiro de margaridas, cortinas de chitão, estampadas ao vento. E aquele portão lá na rua, longe da casa onde a gente batia e ficava esperando a pessoa e o sorriso. Os meninos do Seu João de Oliveira, com quem eu até não me encontrava muito, mas até hoje, quando encontro qualquer um deles é uma festa tão grande, a demonstração de uma alegria tão imensa, que fico sem graça, emocionado e sem ar. Os filhos do Soguim e D. Laudicena. As nossas idas em sua casa para colher as uvas-do-Pará, uma delícia como poucas. Como não sentir a falta de todas estas delícias.
Silvânia dos Clubes Atenas e das Pedrinhas, do queridíssimo Padre Januário. Da AABB. E como não poderia deixar de lembrar aqui, Silvânia das galerias enormes do Anchieta, das festas juninas, da quadra de vôlei no meio da praça. . Do relógio acertado pelo Tãozinho, do Zequita, D. Luiza Mestre, a Julina do Asilo, D. Preta do Hermelindo, Ivani, Antonio da Laura, Maria do Zé Leão, D. Carlota, Nigrinha, Sinhana de Sá Rosa, Maria Tanásia, Neném do Nego, Vó Cândida e inúmeros outros amores profundos e inesquecíveis. Impagáveis.
Silvânia de D. Inhazica, encantadora. Do Zé Caixeta, um grande prefeito, seguido de Zé Denisson, Zé Tavares, Milton, Adonias do Prado, Augusto Siqueira e tantos outros. Silvânia das festas maravilhosas de São Sebastião, do Divino, das comemorações da Paixão de Cristo, do Natal. O mês de maio, inteirinho dedicado à Maria. Silvânia de D. Josefina Batista, D. Nina. Lôpo Ramos, Tim, Moisés Umbelino, Pe. Pedro Celestino. D. Miçana, Seu Clarido, Begê, Moisés Português, Seu Oscar, Bendita de Eva, Nigrinha do João Alfaiate... Das plantações de marmelo mais cheirosas dos que as noivas e o seu perfume invadia toda a pequena cidade durante as noites inteiras. E a gente acordava se deliciando e dando graças a Deus por aquele presente: motivo pra sorrir e agradecer sempre.
Silvânia do sorriso doce de D. Isaura, o mais eficaz dos remédios do hospital. Além das mãos mágicas do Dr. Thiago, um outro santo da nossa terra. As procissões bonitas, iluminadas, as músicas, as rezas de D. Tina Guimarães. A elegância de D. Didi Félix, a doçura de D. Teresinha Lobo. A poesia, a pureza, as madrugadas silenciosas e repletas de bênçãos para os dias que sempre chegavam radiantes, vindos das mãos de Deus. Os pedaços da cidade que adolesciam com a sua juventude a cada final de manhã, a cada nova primavera. Silvânia de tantas outras lembranças. Silvânia, minha paixão ensolarada, repleta de luz, de sonhos e poesias. Cheia da sutileza que transforma os homens em santos, as mulheres em anjos. Levando, enfim, todas as suas almas para o céu. Pois de gente assim que é feito o encantamento do paraíso, da casa de Deus.

domingo, 17 de setembro de 2017

GESTÃO ESTRATÉGICA DE PESSOAS PARA O SERVIÇO PÚBLICO

GESTÃO ESTRATÉGICADE PESSOAS:
DIFICULDADES, ESTAGNAÇÃO, MUDANÇAS
 COM FOCO NO SERVIÇO PÚBLICO

Antonio da Costa Neto 


GESTÃO ESTRATÉGICADE PESSOAS:
DIFICULDADES, ESTAGNAÇÃO, MUDANÇAS
COM FOCO NO SERVIÇO PÚBLICO


Muito se discute modernamente a questão de se gerir estrategicamente pessoas, equipes, grupos de trabalho no intuito de se atender o mais plenamente possível os objetivos e metas de nossas empresas, organizações e afins. Neste caso, são previstas muitas mudanças vez que a realidade do mundo se transforma a cada momento e não podemos sob pena de um espetacular fracasso, ficar presos a estratégias ultrapassadas e que atendiam a outras especificidades em outros momentos históricos.
Um dos aspectos a considerar é, justamente, a questão da terminologia. Para começar, o termo “estratégia” é uma palavra de origem grega e que define “liderança dos exércitos”, o que, por si advoga a ideia militarista definitivamente ultrapassada para um mundo plural e com problemas bem mais complexos e que requerem soluções eficazes e mais urgentes. A outra, é a questão dos recursos. Claro que podemos falar em recursos técnicos, tecnológicos, materiais, comerciais, econômicos, financeiros, etc. mas quanto às pessoas, entendemos ser esta uma denominação superada, pois o ser humano coopera, ajuda, faz, realiza, consome.
É com quem e para quem se trabalha, estando, por isso mesmo, muito além da mera condição de recurso, como os demais, daí a tendência em abandonar esta estreita e dicotômica denominação e tratarmos, sim, de gerir pessoas, talentos, valores, ou até mesmo, seres humanos, expressão já utilizada por algumas organizações mais modernas, de vanguarda e com uma prática cotidiana mais complexa, plural e evolutiva.
Da mesma forma o termo treinamento precisa ser substituído por qualificação, formação, educação profissional e desenvolvimento, o que, melhor satisfaz – estratégias – de se personalizar o tratamento, começando, desta forma, ainda que não, suficiente, a gestão de pessoas para melhor cumprir objetivos e metas de cada organização, empresa, entidade, ou órgão público, do qual aqui tratamos mais especificamente, embora também entendendo que a gestão de pessoas atende a processos proximamente semelhantes, havendo de vigorar o diferencial de pequenos detalhes dos quais trataremos a seguir no presente documento.
Xavier (2007) é quem nos afirma que a gestão estratégica de pessoas é o trabalho desempenhado pelos gestores de negócios nas empresas e também em outras áreas específicas. Assim, no serviço público, por exemplo, é necessário que isto seja feito, mas considerando o seu sentido político em seus aspectos mais amplos frente à absoluta complexidade dos problemas que são enfrentados. Deve-se, além do conhecimento, desenvolver a vontade política de seus servidores, a vertente ideológica e a razão crítica sobre o que é feito e o que se deve fazer, implementando, estratégias e práticas que atendam de fato, às metas e objetivos da ação, da gestão, seus processos e resultados.
É apenas uma questão de ótica e ética, conforme trata Bohlander (2003) quando retrata a diferença das condições em se priorizar estratégias entre os setores público e privado. E complementa, “parece, no entanto, que nossos gestores públicos ainda não compreenderam que priorizam estratégias internas e que relativizam as externas que seriam, pelo espírito das organizações, as principais, e, portanto, de maior importância dentro do contexto das pessoas, para o que elas são contratadas e o que fazem enquanto trabalham, daí a necessidade de se repensar, também, o aspecto comportamental, mas dentro de uma visão mais apurada." Por isso, internamente, parece que o setor público vai muito bem, obrigado. Os salários são lautos e pagos. A qualidade de vida e a garantia do emprego ainda são preservadas, enquanto o público em geral, a sociedade ainda não colhe os bons frutos destas sucessivas transformações tão faladas, discutidas e pouco reconhecidas na prática e no cotidiano das pessoas que constituem a sociedade em si, aquela que deveria ser prontamente atendida e priorizados seus desejos, necessidades e conquistas - pois, pelo menos em termos ideias e dentro dos discursos também "estratégicos" é para isto, justamente, que a gestão pública existe.
Mais do que estrutura e recursos é preciso se repensar toda uma conjuntura ética e filosófica do porque de todas as coisas. Os fatídicos recursos humanos negam com veemência isto, mas é preciso se rever a ideologia da organização, especialmente, a pública, para, só então, definir as políticas de gestão de pessoas, suas técnicas, " estratégias" e outras mais. É aí que está o nó do gargalo que tanto dificulta novas performances e outros avanços.
Macêdo (2005)nos fala da necessidade de ainda referendar este conjunto de aspectos e da urgência em se remanejar a linha de planejamento, partindo, é claro, da questão das pessoas e do poder de decisão delas que é, em última análise, o que define o que se faz, o que se deixa de fazer e sua consonância nas práticas internas e externas de todas as organizações. Assim, podemos também, complementar nossa linha de raciocínio refletindo sobre a seguinte concepção:
"O que emperra e dificulta a dimensão da pessoa e do trabalho é o absoluto simplismo das exigências conceituais na admissão e no desenvolvimento profissional do indivíduo e da equipe para o exercício de suas atividades de trabalho. No geral estas coisas são tratadas fragmentariamente, sem continuidade e faltando um profundo repensar conjunto, de no mínimo, as causas e consequências. E isto se deve ao raso e extremamente objetivo modo de pensar dos técnicos e especialistas da área, pois as concepções, as políticas e diretrizes vêm de momentos outros, de lugares distantes e atendem a premissas que não as nossas. É esta, justamente, a visão crítica que precisa ser desdobrada tanto na teoria, quanto na prática e tudo em larga escala" (Knapik, 2011).
Nisto podemos ver, mesmo como leigos nesta prática que o setor privado recebe privilégios naturais e vivenciais neste sentido que acabam por beneficiar e muito estas áreas em termos de mercado, eficiência nos seus serviços e na eficácia de sua ação em termos de compra, venda, produção industrial ou prestação de serviços. Faz parte da nossa cultura o jogo natural pela sobrevivência, a aquisição e o consumo, assim, de certa forma, todas as pessoas já estão meio que preparadas para o exercício de tais funções.
Mas no serviço público, isto nem sempre acontece. Não faz parte de nossa vivência cotidiana o entendimento de tais processos, nuances e táticas e, assim, quem trabalha no serviço público deveria – em tese – ser muito melhor preparado para tais funções, o que nem sempre acontece e, talvez, daí, deveríamos começar o plano estratégico de gestão das pessoas para o eficiente exercício de tais atividades. Especificamente falando, no âmbito da sociedade brasileira, muito embora, este parece ser um fato bem mais comum do que se possa parecer em todas as dimensões do dito mundo contemporâneo.
Parece-me no entanto, que um dos grandes males, talvez a maior das falhas do serviço público em termos de gestão das pessoas que nele atuam é copiar modelos que sirvam ao atendimento de técnicas e estratégias do cômputo comercial e do atendimento comum e padronizado a todas as pessoas, o que tende a generalizar e não entender especificidades outras. É o que, de alguma forma podemos identificar quando refletimos a respeito de segmentos gerais neste sentido, conforme segue:
A gestão estratégica das pessoas não é, em definitivo, algo que se possa ficar retido à restrita agenda da área dos recursos humanos, mas, cada vez mais deve ser compreendida como uma responsabilidade não só de todos os líderes, mas, também, de todos os agentes de cada empresa ou organização, tendo, cada um a visão profunda, plena, crítica e operacional do que se faz e o que se deve fazer, e, em especial, para quem se faz (De Gregori, 2003).
Assim, gerir estrategicamente pessoas não é só gerenciá-las, mas saber também ser gerenciado, exercer lideranças, cumprir tarefas e atender ao moderno tripé dos segmentos estratégicos da modernidade: eficiência, eficácia, efetividade. Ou seja, incluindo, em sua plenitude, processos, resultados e contextos, gerindo, melhorias, satisfações de todos os direta ou indiretamente envolvidos. Buscando, enfim, e, se possível, alcançando o que podemos denominar por processos de excelência, ou, o estado da arte daquilo que se faz e do como se faz, dentro da perfeição que se deseja em termos do ambiente, das pessoas e de todas as complexidades envolvidas e que se ampliam, como temos visto, a cada dia.
Frente a esta complexidade, é, ainda, Moraes (2009) que nos explicita que a gestão estratégica de pessoas é o oxigênio para se manter viva a viabilização, por sua vez, também "estratégica" de cada organização e o alcance do que podemos chamar de suas metas maiores. Isto parece ter evoluído de alguma forma, mas, paradoxalmente, mostra também ter se esbarrado em algum obstáculo meio que intransponível a partir do início dos anos 1 990, em especial, no serviço público, área em que transparece não termos visto nada de novo acontecer. A última avalanche realmente, maior e válida podem em termos mais gerais ter sido o planejamento estratégico, que, aplicado ao serviço público já dá mostra de algumas fragilidades, vez que o mesmo obedece ainda a critérios militares, rígidos, frios e mecanicistas e que nos tempos de hoje não mais respondem com eficiência aos seus apelos.
No sentido dos seres humanos o Estado, sobretudo, o brasileiro, parece ter adotado uma abordagem autocentrada em demasia em que o Estado só serve mesmo aos interesses de quem o opera, com regras e normas fundadas no princípio de perpetuação e ampliação da zona de conforto apenas de seus agentes; quanto aos usuários, restam a eles as migalhas, assim só vêm com desencanto as coisas piorarem, ficarem mais raras e mais difíceis no tocante a todos os aspectos, a começar pelo econômico, no que parece ser o mesmo serviço público cético e cego, não entendendo na profundidade merecida que se exerce uma atividade política numa sociedade capitalista – ainda periférica e atrasada – onde o ter é que define o como funciona e os resultados e metas que se define.
Enquanto as empresas privadas, de maneira geral, mas ainda numa dimensão bastante diminuta em termos absolutos parecem estar melhor percebendo o valor do seu capital humano em relação a outros bens tangíveis, a administração pública ainda nem separa uns dos outros. Assim, pessoas e equipamentos, técnicas e recursos são treinados e aprimorados do mesmo modo, o que facilita a definição estratégica das principais linhas de governo, bem como a intervenção unicamente técnica apenas para beneficiar seus agentes, o que já era bem típico da Idade Média e que precisa ser suplantado o mais rápido possível e em todos os segmentos.
É sobre o que nos fala Gonçalves (2007) quando trata dos fundamentos desta mesma gestão humana dentro da nova, poderíamos dizer, moderna gestão do Estado brasileiro. A possibilidade de se ter e manter o que, tradicionalmente, se poderia chamar de vantagem competitiva – que hoje melhor chamaríamos de estratégica – seja ela no mercado de primeiro, segundo e terceiro setor – no nosso caso, o serviço público – não dependerá, unicamente, de estratégias baseadas em princípios tecnológicos, mas, fundamentalmente, nas condições, na performance e nos valores humanos. Estes sim, são, na verdade, os estrategicamente fundamentais e indispensáveis.
O setor privado, dificilmente admite alguém que tenha sido, apenas aprovado em uma provinha teórica e sem expressão, se prendendo a esta pessoa, especialmente, em termos econômicos por toda uma vida, como o faz a área pública, com o complicador da estabilidade funcional, o que, muitas vezes não se enquadra com o perfil da pessoa e a eficiência que dela se espera. Sendo isto um vertedouro de meios e recursos que pode muito mais prejudicar, do que, propriamente, ajudar, gerando o caos e a crise que agora vivenciamos e que, por sua vez, passa a redimensionar todo um conjunto de falhas, carências, necessidades e meios que, a cada dia ficam mais difíceis de ser superados. Passando a correr o risco de se sucumbir ao caos, não, não ao que vivemos, mas ao definitivo, gigantesco e insuperável, que, infelizmente, sem as mudanças necessárias, se avizinha e nos sucumbirá a todos como vítimas.
Isto não pode ser identificado como uma competência técnica na gestão de pessoas. Antes, é uma irresponsabilidade singular de quem gere o Estado, sendo o responsável pelas questões vivenciais porque passam os cidadãos. E, pior que isto, as perspectivas futuras de gerações e gerações, aí incluindo as condições mínimas e meios vivenciais, cuja garantia e qualidade, seria, sim, o grande objetivo e a meta do serviço público o que vimos estar a cada dia mais longe com a generalização e o gigantismo da crise, o que é absolutamente, preocupante.
Daí surge a mais que óbvia necessidade de se dar um tratamento de excelência estratégica à gestão de pessoas em todos os campos e áreas, e, em especial, como vimos, dentro do serviço público. É preciso buscar uma valorização contínua dos processos, dos valores, das habilidades, dificuldades, tendências, consagrando os vários fatores motivacionais que são, sem sombra de dúvida um dos elementos mais que necessários para a melhoria da produção, da produtividade e dos serviços prestados. Entender que o ser humano é diversificado, subjetivo, atende a ciclos de vida e não se separa dos seus ciclos de problemas vivenciais e pessoais, sendo necessário, portanto que a administração que o rege seja mais aberta, fluida, plural e intersubjetiva.
Quando se trata de gente tudo muda, de forma não esperada e faz-se necessário que sejam priorizadas as vontades, os desejos, os planos e as metas e que estes caminhem par e passo com os mesmos sistemas da organização na qual este indivíduo se dedica, ainda mais, em tempo integral como o é a absoluta maioria dos casos brasileiros em todos os sentidos.
Num novo processo de gestão estratégica é preciso fazer a migração do capital e da máquina para o homem, o que, em última análise, é uma decorrência da nova demanda tecnológica, esta sim, a nova ordem da gestão de pessoas, que na ausência de uma expressão que melhor a define, ainda podemos chamá-la de gestão estratégica - em especial, no serviço público.
Precisamos rever o conceito de estratégia para além do seu sentido primário que era a liderança do exército, como, aliás, já foi dito. Ora, não podemos mais administrar o mundo com a força da arma ou com o advento objetivo das palavras de ordem secas e determinadas. É preciso, sem dúvida, uma inversão deste quadro e que cada um diga, explicite o que quer, como quer, onde dói, quais suas necessidades, o que pode e o que quer fazer. O mundo e o mercado são sim, múltiplos e diversificados. Problemas de base subjetiva exigem, para sua solução, esquemas que vão além disto e que abarquem todas as áreas, causas e efeitos.
O ciclo é outro, muito maior e mais evolutivo. Ele não suporta os velhos e enxaguados esquemas frios e objetivos em demasia. Precisamos sim de estratégias que atendam a objetivos cada vez mais amplos e abrangentes, e não, apenas para dar continuidade a zonas de conforto das classes secularmente privilegiadas que é o que temos visto em todas as dimensões.
A nova gestão estratégica de pessoas deverá ser planejada considerando, além da eficiência técnica e do compromisso político, as possibilidades de mudanças também ambientais e culturais, englobando outras funções, o que podemos identificar como um núcleo de estratégias novas. Ou um planejamento estratégico das pessoas e para as pessoas em nível global, tendo como foco as dimensões e necessidades do serviço público. Enfim, como retrato num projeto (2015), um planejamento que atenda à dimensão sistêmica do mundo das pessoas, e, ao mesmo tempo, as contingências mais imediatas com o que se trabalha e o que delas se espera no sentido macro da ação e do termo. Entendendo, finalmente, este, um processo de servir ao público. Com eficiência, efetividade qualitativa, dentro de uma nova dimensão que atinja e garanta uma outra dignidade e que preste, enfim, um outro serviço.

Referências Bibliográficas:
BOHLANDER, George. Repensando a gestão de pessoas para o setor público. São Paulo, Ed. Tompson, 2003.
COSTA NETO, Antonio da. Metodologia do planejamento sistêmico-contingencial: o estado da arte para as organizações do séc. XXI. Brasília DF: Humanizar, 2015.
DE GREGORI, Valdemar. Administração sistêmica: potencial humano para que e para quem. Porto Alegre: Ed. Medical, 2003.
GONÇALVES, Nelson Evaristo. Gestão estratégica de pessoas: Estado, empresas e outras organizações. Belo Horizonte: Ler Editora, 2007
MACÊDO, Ivanildo Izaias. Recursos humanos ou gestão de pessoas: eis a questão. São Paulo: Ed. FGV, 2005.
MORAES, Frederico de Sousa. Recursos, valores ou potencial humano? Pappirrus: Campinas-SP,2009
KNAPIK, Janete. Gestão de pessoas e talentos. São Paulo: Ipex Editora, 2011.
XAVIER, Clayton Fernando. A importância da gestão estratégica de pessoas: um enfoque do serviço público brasileiro do Séc. XXI. São Paulo: Perspectiva, 2007.

sábado, 8 de julho de 2017

DISCURSO DE J.K. ROWLING - AUTORA DE HARRY POTER - NUMA FORMATURA DE HARWARD - 2008



Confiram a tradução na íntegra em notícia completa! O vídeo pode ser visto clicando aqui, e ainda temos outros dois; o primeiro dos comentaristas falando sobre Jo, e o segundo da presidente de Harvard agradecendo a sua presença.
Vejam também algumas fotos da cerimônia clicando aqui, e nesse link novas imagens da autora recebendo o grau honorário da Universidade.
JK ROWLING
Discurso da autora na formatura da Classe 2008 de Harvard

Harvard Magazine ~ JK Rowling
05 de junho de 2008
Tradução: Daniel Mählmann
Revisão: Fabianne de Freitas
Presidente Faust, membros da Corporação Harvard e do Conselho de Administradores, membros do corpo docente, pais orgulhosos e, acima de tudo, formandos.
A primeira coisa que eu gostaria de dizer é ‘muito obrigado’. Não somente Harvard me deu uma honra extraordinária, mas as semanas de medo e náusea que eu tenho vivenciado ao pensar em fazer um discurso nesta cerimônia de formatura me fez perder peso. Uma situação em que só ganhei! Agora tudo o que eu tenho a fazer é respirar fundo, dar uma olhada nas bandeiras vermelhas e enganar a mim mesma, acreditando que estou na mais bem educada convenção Potter do mundo.
Fazer um discurso em uma cerimônia de formatura é uma grande responsabilidade; ou assim eu pensava até eu relembrar a minha própria formatura. O orador da cerimônia daquele dia foi a distinta filósofa britânica Baronesa Mary Warnock. Refletir sobre o seu discurso me ajudou enormemente a escrever esse aqui, porque percebi que eu não conseguia lembrar de uma única palavra que ela dissera. Essa descoberta libertadora me possibilitou continuar sem qualquer receio de que eu poderia influenciar vocês a inadvertidamente abandonar suas carreiras promissoras nos negócios, na justiça ou política para as delícias vertiginosas de se tornar um bruxo gay.
Estão vendo? Se tudo o que vocês se lembrarem nos próximos anos for a piada do “bruxo gay”, eu ainda saí à frente da Baronesa Mary Warnock. Objetivos alcançáveis: o primeiro passo para o aperfeiçoamento pessoal.
Na verdade, eu tenho procurado em minha mente e meu coração o que eu deveria dizer hoje a vocês. Perguntei a mim mesma, o que gostaria de ter sabido em minha própria formatura, e quais lições importantes eu aprendi nos 21 anos que se passaram entre aquele dia e este.
Surgiram-me duas respostas. Neste dia maravilhoso, quando estamos todos reunidos para celebrar vosso sucesso acadêmico, eu decidi falar com vocês sobre os benefícios do fracasso. E, como vocês estão no limite do que muitas vezes é chamado de ‘vida real’, eu quero exaltar a importância crucial da imaginação.
Essas escolhas podem parecer idealistas ou paradoxais, mas por favor me ouçam.
Olhando para trás, aos 21 anos de idade que eu tinha na formatura, é uma experiência um pouco desconfortável para a mulher de 42 anos a qual me tornei. Metade do tempo de minha vida, eu estava em um desequilíbrio preocupante entre a ambição que eu tinha para mim mesma, e o que aqueles mais próximos esperavam de mim.
Estava convencida de que a única coisa que eu queria fazer, sempre, era escrever romances. No entanto, meus pais, ambos os quais vieram de origens pobres e nenhum dos dois tinham ido à faculdade, achavam que a minha imaginação fértil era uma divertida loucura pessoal e que nunca poderia pagar uma hipoteca, ou garantir uma aposentadoria.
Eles tinham esperanças de que eu teria um diploma vocacional; eu queria estudar Literatura Inglesa. Um acordo foi feito e que, em retrospecto, não satisfez ninguém, e eu fui estudar Idiomas Modernos. Mal o carro dos meus pais dobrava a esquina no fim da rua e eu descartava Alemão e corria para os corredores de Literatura Clássica.
Não me lembro de ter contado aos meus pais que estava estudando Literatura Clássica; eles podem muito bem ter descoberto pela primeira vez no dia da formatura. De todos os assuntos desse planeta, acho que eles dificilmente poderiam indicar um menos útil do que Mitologia Grega, quando isso veio para assegurar as chaves para um banheiro executivo.
Eu gostaria de deixar claro, entre parênteses, que não culpo meus pais pelo ponto de vista deles. Existe uma data de validade em culpar seus pais por nos colocar na direção errada; o momento em que você é adulto o suficiente para tomar o controle, a responsabilidade recai sobre você. Além disso, eu não posso criticar meus pais por esperarem que eu nunca experimentasse a pobreza. Eles tinham sido pobres, e eu já fui pobre, e concordo completamente com eles de que esta não é uma experiência enobrecedora. A pobreza implica em medo, e estresse, e, algumas vezes, depressão; isso significa milhares de pequenas humilhações e dificuldades. Sair da pobreza por seus próprios esforços, é de fato algo para se orgulhar, mas a pobreza em si é romantizada apenas pelos tolos.
O que eu mais temia quando tinha a idade de vocês não era a pobreza, mas o fracasso.
Na sua idade, apesar de uma clara falta de motivação na Universidade, onde eu tinha gasto muito tempo escrevendo histórias em cafés, e pouquíssimo tempo assistindo palestras, eu tinha uma aptidão em passar nos exames e que, por anos, tinha sido a medida de sucesso na minha vida e na dos meus colegas.
Não sou tola o suficiente para supor que, por serem, jovens, talentosos e bem educados, vocês nunca passaram por dificuldades ou mágoas. O talento e a inteligência nunca imunizaram ninguém contra o capricho do Destino, e nem por um momento eu imaginei que todos aqui têm desfrutado de uma existência de contentamento e privilégios serenos.
No entanto, o fato de vocês estarem se graduando em Harvard sugere que não estão muito bem familiarizados com o fracasso. Vocês poderão ser conduzidos por um receio do fracasso tanto quanto por um desejo pelo sucesso. De fato, sua concepção de fracasso pode não estar muito longe da idéia de sucesso de uma pessoa comum, tão alto que vocês já voaram academicamente.
No fim das contas, todos precisamos decidir, por nós mesmos, aquilo que constitui o fracasso, mas o mundo é bastante ávido para lhe dar um conjunto de critérios, se você deixá-lo. Por isso acho justo dizer que por qualquer medida convencional, meros sete anos após o dia da minha formatura, eu tinha fracassado em escala épica. Um casamento de duração excepcionalmente curta, eu estava desempregada, era uma mãe solteira, e tão pobre quanto é possível ser na Grã-Bretanha moderna sem ser uma desabrigada. Os receios que meus pais tinham tido para mim, e que eu tinha tido para mim, ambos tinham acabado por acontecer, e de acordo com cada padrão normal, eu era a maior fracassada que conhecia.
Agora, eu não vou ficar aqui e lhes dizer que a frustração é divertida. Esse período da minha vida foi bem obscuro, e eu não tinha idéia de que ia acontecer aquilo que a imprensa tem, desde então, descrito como uma espécie de fim de conto de fadas. Eu não tinha idéia de quão longo era o túnel e, por muito tempo, qualquer luz em seu fim era mais esperança do que realidade.
Então por que eu falo sobre os benefícios do fracasso? Simplesmente porque fracasso significa se despir do que não é essencial. Eu parei de fingir a mim mesma que eu era diferente, e comecei a orientar toda a minha energia em terminar o único trabalho que importava para mim. Se eu realmente tivesse alcançado sucesso em qualquer outra coisa, eu poderia nunca ter encontrado a determinação para ter sucesso naquela área na qual eu verdadeiramente acreditava que pertencia. Eu estava em liberdade, porque o meu maior receio já tinha sido realizado, e eu ainda estava viva, e ainda tinha uma filha a quem eu adorava, e tinha uma velha máquina de escrever e uma grande idéia. Então o fundo do poço se tornou a base sólida sobre a qual eu reconstruí a minha vida.
Talvez vocês nunca falhem na escala que eu falhei, mas alguns fracassos na vida são inevitáveis. É impossível viver sem falhar em algo, ao menos que você viva de forma tão cautelosa que você pode não ter vivido de verdade – nesse caso, você falha por omissão.
O fracasso me deu uma segurança interna que eu nunca tinha atingido passando em exames. Ele também ensinou coisas sobre mim que eu não poderia ter aprendido de nenhuma outra forma. Descobri que tinha uma grande força de vontade e mais disciplina que suspeitava; também descobri que eu tinha amigos cujo valor estava realmente acima de rubis.
O conhecimento que você adquire sábia e fortemente a partir de uma derrota significa que você está, sempre, seguro de sua capacidade de sobreviver. Vocês nunca vão conhecer verdadeiramente a si mesmos, ou a força de seus relacionamentos, até que ambos tenham sido testados pela adversidade. Esse conhecimento é um verdadeiro dom, por isso que é adquirido arduamente, e tem significado para mim mais do que qualquer qualificação que já ganhei.
Se me dada uma máquina do tempo ou um Vira-Tempo, eu diria ao meu eu de 21 anos que a felicidade pessoal reside em saber que a vida não é uma lista de verificação de aquisições ou realizações. As suas qualificações, o seu currículo, não são a sua vida, embora vocês vão conhecer muitas pessoas da minha idade e mais velhas que confundem as duas coisas. A vida é difícil e complicada, e além do controle total de qualquer um, e a humildade de saber isso irá capacitar-lhes para sobreviver às suas inconstâncias.
Vocês poderiam pensar que eu escolhi meu segundo tema, a importância da imaginação, devido ao seu papel na reconstrução da minha vida, mas não é inteiramente por isso. Apesar de que eu defenderei o valor de contar histórias para dormir até meu último suspiro, eu tenho aprendido a valorizar a imaginação em um sentido muito mais amplo. A imaginação não é apenas a única capacidade humana para prever aquilo que não é, e, por conseguinte, a fonte de todas as invenções e inovações. Na sua capacidade argumentável mais transformadora e reveladora, é o poder que nos permite simpatizar com seres humanos cujas experiências nós nunca compartilhamos.
Uma das maiores experiências da minha vida antecedeu Harry Potter, apesar dela informar muito do que eu escrevi nesses livros em seguida. Essa revelação veio na forma de um dos meus primeiros empregos diurnos. Embora eu costumasse dar uma fugida para escrever histórias durante minha hora de almoço, eu paguei o aluguel, aos meus vinte e poucos anos, trabalhando no departamento de investigação na sede da Anistia Internacional, em Londres.
Lá, em meu pequeno escritório, li cartas escritas rapidamente contrabandeadas dos regimes totalitários por homens e mulheres que arriscaram serem presos ao informar o mundo exterior do que estava acontecendo com eles. Eu vi fotografias daqueles que tinham desaparecido sem deixar rastro, enviadas à Anistia por suas famílias e amigos desesperados. Eu li os testemunhos das vítimas de tortura, e vi fotos de seus ferimentos. Eu abri descrições escritas à mão de testemunhas oculares dos julgamentos e execuções sumárias, de seqüestros e estupros.
Muitos dos meus colegas de trabalho eram ex-presos políticos, pessoas que tinham sido deslocadas de suas casas, ou fugiram para o exílio, porque eles tiveram a audácia de pensar independentemente de seu governo. Os visitantes ao nosso escritório incluíam aqueles que tinham vindo para fornecer informações, ou tentar e descobrir o que havia acontecido àqueles que eles tinham sido obrigados a deixar para trás.
Nunca vou esquecer do africano, vítima de tortura, um jovem não mais velho do que eu era naquela época, que tinha se tornado mentalmente doente depois de tudo que ele tinha sofrido em sua terra natal. Ele tremia incontroladamente enquanto falava para uma câmera de vídeo sobre a brutalidade exercida contra ele. Ele era alguns centímetros mais alto do que eu, e parecia tão frágil quanto uma criança. Foi-me dada a tarefa de escoltá-lo à estação de metrô mais tarde, e esse homem cuja vida foi destroçada pela crueldade pegou a minha mão com sensível cortesia e me desejou um futuro de felicidade.
E enquanto eu viver vou lembrar de caminhar por um corredor vazio e, de repente, ouvir por detrás de uma porta fechada, um grito de pânico e horror como nunca ouvira antes. A porta se abriu, e a pesquisadora enfiou a cabeça par fora e disse para eu correr e preparar uma bebida quente para o jovem sentado com ela. Ela tinha acabado de lhe dar a notícia de que, em retaliação pela própria sinceridade do rapaz contra o regime de seu país, a mãe dele havia sido presa e executada.
Todos os dias da minha semana de trabalho no início dos meus 20 anos eu era lembrada de quão incrivelmente sortuda eu era por viver em um país com um governo eleito democraticamente, onde um representante legal e um julgamento público eram direito de todos.
Diariamente, eu via mais provas sobre como os males da humanidade irão infligir sobre os seus companheiros, para obter ou manter o poder. Eu comecei a ter pesadelos, literalmente pesadelos, acerca de algumas das coisas que vi, ouvi e li.
E ainda assim eu aprendi mais sobre a bondade humana na Anistia Internacional que eu nunca havia aprendido antes.
A Anistia mobiliza milhares de pessoas que nunca foram torturadas ou presas por suas crenças a agir em nome daqueles que já foram. O poder da empatia humana, que conduziu à ação coletiva, salva vidas e liberta prisioneiros. As pessoas comuns, cujo bem estar pessoal e segurança estão garantidos, juntam-se a um grande número para salvar pessoas que eles não conhecem e nunca conhecerão. Minha pequena participação nesse processo foi uma das experiências mais inspiradoras da minha vida.
Diferente de qualquer outra criatura nesse planeta, os seres humanos podem aprender e compreender sem terem experimentado. Eles podem pensar em si mesmos na mente de outras pessoas, se imaginar no lugar de outras pessoas.
Evidentemente, esse é um poder, como a minha marca de magia fictícia, que é moralmente neutra. Podemos usar esta habilidade tanto para manipular, ou controlar, como simplesmente para compreender ou simpatizar.
E muitos preferem não exercer suas imaginações de forma alguma. Eles optam por permanecer confortavelmente dentro dos limites de sua própria experiência, nunca se preocupando em perguntar como seria ter nascido diferente do que são. Eles podem se recusar a ouvir os gritos ou espreitar dentro das grades; eles podem fechar suas mentes e corações para qualquer sofrimento que não os toquem pessoalmente; eles podem se recusar a saber.
Eu poderia ser tentada a invejar pessoas que conseguem viver dessa maneira, exceto por achar que eles não têm menos pesadelos que eu. Escolher viver em espaços estreitos pode levar a uma forma de agorafobia (medo de lugares abertos), e que isso tem os seus próprios terrores. Eu acho que quem é intencionalmente sem imaginação vê mais monstros. Muitas vezes eles têm mais medo.
Além disso, aqueles que optam por não se simpatizar podem habilitar os verdadeiros monstros. Pois mesmo sem nunca cometermos um ato claro de maldade, nós colaboramos com isso através da nossa própria apatia.
Uma das muitas coisas que aprendi no fim do corredor de Literatura Clássica no qual eu me aventurei aos 18 anos, em busca de algo que eu não conseguia definir, foi isso, escrito pelo autor grego Plutarco: O que nós alcançamos internamente mudará a realidade exterior.
Essa é uma afirmação surpreendente e ainda comprovada milhares de vezes todos os dias de nossas vidas. Ela exprime, em parte, a nossa inevitável ligação com o mundo exterior, o fato de que nós tocamos as vidas de outras pessoas simplesmente por existirmos.
Mas o quão mais vocês estão, formandos de Harvard de 2008, destinados a tocar as vidas de outras pessoas? Sua inteligência, sua capacidade para o trabalho duro, a educação que vocês receberam e passaram, dão a vocês status único e responsabilidades únicas. Até a sua nacionalidade os destaca. A grande maioria de vocês pertence à única super potência remanescente do mundo. A maneira com que vocês votam, a maneira com que vivem, a forma com que protestam, a influência que têm sobre seu próprio governo, tem um impacto muito além de suas fronteiras. Esse é o seu privilégio e o seu fardo.
Se vocês escolherem usar seu status e influência para levantar suas vozes em nome daqueles que não têm voz; se optarem por identificarem-se não apenas com os poderosos, mas com aqueles que não têm poder; se vocês preservarem a capacidade de imaginar a si próprios na vida daqueles que não têm as suas vantagens, então não vão ser apenas as suas orgulhosas famílias que vão celebrar vossas existências, mas milhares e milhões de pessoas cuja realidade vocês têm ajudado a transformar para melhor. Nós não precisamos de magia para mudar o mundo, nós já carregamos todo o poder que precisamos dentro de nós mesmos: nós temos o poder de imaginar melhor.
Estou quase terminando. Eu tenho uma última expectativa para vocês, que é algo que eu já tinha aos 21 anos. Os amigos com quem me sentei no dia da formatura têm sido os meus amigos para a vida. Eles são os padrinhos dos meus filhos, as pessoas a quem eu tenho sido capaz de recorrer em momentos de dificuldades, os amigos que têm a gentileza de não me processarem quando usei seus nomes para os Comensais da Morte. Na nossa formatura, fomos ligados por uma enorme afeição, pelas nossas experiências compartilhadas de um tempo que nunca poderia voltar e, é claro, pelo conhecimento que temos guardado em certas evidências fotográficas que seriam extremamente valiosas se alguns de nós concorrêssemos a Primeiro Ministro.
Portanto, hoje eu posso lhes desejar nada melhor do que amizades parecidas. E amanhã, mesmo se vocês não lembrarem uma única palavra minha, espero que se lembrem aquelas de Seneca, outro desses romanos antigos que eu conheci quando fugi para o corredor de Literatura Clássica, em fuga de uma carreira promissora, em busca da antiga sabedoria:
Conforme um conto, assim é a vida: não o quão longa ela é, mas o quão boa, é o que importa.
Desejo a todos vidas muito boas.
Muito obrigada.