sexta-feira, 27 de maio de 2016

É BRINCANDO QUE SE APRENDE - Rubem Alves






No meu tempo, parte da alegria de brincar estava na alegria de construir o brinquedo. Fiz caminhõezinhos, carros de rolemã, caleidoscópios, periscópios, aviões, canhões de bambu, corrupios, arcos e flechas, cataventos, instrumentos musicais, um telégrafo, telefones, um projetor de cinema com caixa de sapato e lente feita com lâmpada cheia d'água, pernas de pau, balanços, gangorras, matracas de caixas de fósforo, papagaios, artefatos detonadores de cabeças de pau de fósforo, estilingues.
Fazendo estilingues desenvolvi as virtudes necessárias à pesquisa: só se conseguia uma forquilha perfeita de jabuticabeira depois de longa pesquisa. Pesquisava forquilhas - as mesmas que inspiraram Salvador Dali - exercendo minhas funções de ´controle de qualidade´ - arte que alguns anunciam como nova mas que existiu desde a criação do mundo: Deus ia fazendo, testando e dizendo, alegre, que tinha ficado muito bom. Eu ia comparando a infinidade de ganchos que se encontravam nas jabuticabeira com o gancho ideal, perfeito, simétrico, que existia em minha cabeça. Pois ´controle de qualidade´ é isso: comparar o ´produto´ real com o modelo ideal. As crianças já nascem sabendo o essencial. Na escola, esquecem.
Os grandes, morrendo de inveja mas sem coragem para brincar, brincavam fazendo brinquedos. As mães faziam bonecas de pano, arte maravilhosa
hoje só cultivada por poucas artistas. As mães modernas são de outro tipo, sempre muito ocupadas, correndo prá lá e prá cá, motoristas, levando as crianças para aula de balê, aula de judô, aula de inglês, aula de equitação, aula de computação - não lhes sobra tempo para fazer brinquedos para os filhos. ( Será que as crianças de hoje sabem que os brinquedos podem ser fabricados por eles?). Hoje, quando a menina quer boneca, a mãe não faz a boneca: compra uma boneca pronta que faz xixi, engatinha, chora, fala quando a gente aperta um botão, e é logo esquecida no armário dos brinquedos. Pobres brinquedos prontos! Vindo já prontos, eles nos roubam a alegria de fazê-los. Brinquedo que se faz é arte, tem a cara da gente. Brinquedo pronto não tem a cara de ninguém. São todos iguais. Só servem para o tráfico de inveja que move pais e filhos, como esse tal ´bichinho virtual...´
Fiquei com vontade de fazer um sinuquinha. Naquele tempo não havia para se comprar. Mesmo que houvesse não adiantava: a gente era pobre. Como tudo o que vale a pena nesse mundo, a fabricação começava com um ato intelectual: pensamento: quem deseja pensa. O pensamento nasce no desejo. Era preciso, antes de construir o sinuquinha de verdade, construir o sinuquinha de mentira, na cabeça. Essa é a função da imaginação. Antes de Piaget eu já sabia os essenciais do construtivismo: meu conhecimento começava com uma construção mental do objeto. Diga-se, de passagem, que o homem vem praticando o construtivismo desde o período da pedra lascada. Piaget não descobriu nada: ele só descreveu aquilo que os homens (e mesmo alguns animais) sempre souberam.
Era preciso uma tábua larga e plana, flanela, madeiras e borracha de pneu de bicicleta para as tabelas; as caçapas seriam feitas de meias velhas. As bolas, de gude. Os tacos, cabos de vassoura. Preparei-me para fabricar o objeto dos meus sonhos. Meu pai, que era viajante, estava em casa naquele fim de semana. Ofereceu-se para me ajudar, contra a minha vontade. Valendo-se de sua autoridade, tomou a iniciativa. Pegou do serrote e pôs-se a serrar os cantos da tábua, no lugar das caçapas. Meu pai operou com uma lógica simples: se um buraquinho pequeno, que mal dá para passar uma bolinha, dá um ´x´ de prazer a uma criança, um buraco dez vezes maior dará à criança dez vezes mais prazer. E assim pôs-se a serrar buracos enormes nos ângulos da tábua. Eu protestava, desesperado: ´ - Pai, não faz isso não!´ Inutilmente. Confiante no seu saber ele levou a sua lógica até as últimas conseqüências. Fez o sinuquinha. Só que nunca joguei uma única partida com os meus amigos. Por uma simples razão: quem começava o jogo encaçapava todas as bolinhas. Com buracos daquele tamanho, não tinha graça. Era fácil demais. A facilidade destruiu a alegria do brinquedo. A alegria de um brinquedo está, precisamente, na sua dificuldade, isto é, no desafio que ele apresenta.
Deliciei-me com uma estória do Pato Donald. O professor Pardal, cientista, resolveu dar como presente de aniversário ao Huguinho, Zezinho e Luizinho, brinquedos perfeitos. Fabricou uma pipa que voava sempre, mesmo sem vento. Um pião que rodava sempre, mesmo que fosse lançado do jeito errado. E um taco de beisebol que sempre acertava na bola, mesmo que o jogador não estivesse olhando para ela. Mas a alegria foi de curta duração. Que graça há em se empinar uma pipa, se não existe a luta com o vento? Que graça há em fazer rodar um pião se qualquer pessoa, mesmo uma que nunca tenha visto um pião, o faz rodar? Que graça há em ter um taco que joga sozinho? Os brinquedos perfeitos foram logo para o monte lixo e os meninos voltaram aos desafios e alegrias dos brinquedos antigos. Todo brinquedo bom apresenta um desafio. A gente olha para ele e ele nos convida para medir forças. Aconteceu comigo, faz pouco tempo: abri uma gaveta e um pião que estava lá, largado, fazia tempo, me desafiou: ´ - Veja se você pode comigo!´ Foi o início de um longo processo de medição de forças, no qual fui derrotado muitas vezes. É preciso que haja a possibilidade de ser derrotado pelo brinquedo para que haja desafio e alegria. A alegria vem quando a gente ganha. No brinquedo a gente exercita o que Nietzsche denominou ´vontade de poder´.
Brinquedo é qualquer desafio que a gente aceita pelo simples prazer do desafio - sem nenhuma utilidade. São muitos os desafios. Alguns são desafios que têm a ver com a habilidade e a força física: salto com vara, encaçapar a bola de sinuca; enfiar o pino do bilboquê no buraco da bola de madeira. Outros têm a ver com nossa capacidade para resolver problemas lógicos, como o xadrez, a dama, a quina. Já os quebra-cabeças são desafios à nossa paciência e à nossa capacidade de reconhecer padrões.
É brincando que a gente se educa e aprende. Cada professor deve ser um ´magister ludi´¸ como no livro do Hermann Hesse. Alguns, ao ouvir isso, me acusam de querer tornar a educação uma coisa fácil. Essas são pessoas que nunca brincaram e não sabem o que é o brinquedo. Quem brinca sabe que a alegria se encontra precisamente no desafio e na dificuldade. Letras, palavras, números, formas, bichos, plantas, objetos (ah! o fascínio dos objetos!), estrelas, rios, mares, máquinas, ferramentas, comidas, músicas - todos são desafios que olham para nós e nos dizem: ´Veja se você pode comigo!´ Professor bom não é aquele que dá uma aula perfeita, explicando a matéria. Professor bom é aquele que transforma a matéria em brinquedo e seduz o aluno a brincar. Depois de seduzido o aluno, não há quem o segure.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

OS EFEITOS DEVASTADORES DA PASSAGEM DA TOCHA OLÍMPICA




Como aquele famoso truque que usam os assaltantes baratos nos ônibus e nos demais tumultos humanos de dar um toque forte no ombro para que a pessoa não sinta a mão leve dentro do seu bolso para levar a sua carteira, assim é a passagem da tocha olímpica pelo Brasil. Ridículo o povo brasileiro - que mais parece um secto de caipiras - correndo atrás da tocha, morrendo de emoção e com o coração saindo pela boca. Que emoção é esta? Que besteira é esta? Ainda se fosse lá na roça, quando eu nasci, no início do século passado ainda daria para entender. Mas hoje? Na capital do país? Ah! Seria cômico se não fosse trágico.
Vivemos no Brasil um momento absolutamente ímpar, de crises gravíssimas, de problemas éticos, morais, políticos e econômicos sem precedentes e o povo correndo, cheio de emoção atrás de um foguinho sem graça. O fogo sagrado kkkkk - segundo o palhaço do Galvão Bueno, claro, na TV Globo - um especialista em enganar o povo, sendo, para isto regiamente pago, evidentemente, com o nosso dinheiro, com o qual pagamos pesados impostos que, em última análise, vão para as grandes empresas privadas.
Frente a esta lavagem cerebral que santifica os jogos, a competição exaustivas, os gastos infindos, a vitória a qualquer custo, o povo suspira de emoção atrás da tocha "sagrada" (sagrada sim, pois ilumina o caminho do esporte competitivo que reproduz a operacionalização do poder, da renda centralizada, da vitória de poucos encima da derrota de muitos, o que é maravilhoso para a manutenção da ideologia e do status burguês, dos ricos, dos governantes, dos que nos comandam, e assim, sempre).
Emoção mesmo seria a redução dos juros, o aumento dos salários, da comida, do emprego, da educação de qualidade, da infra-estrutura social para que a cidadania seja real e a qualidade de vida melhore no real concreto das pessoas. Mas, pelo contrário, a alegria e a emoção da passagem da - sagrada - tocha olímpica, é, justamente, para escamotear, enganar e blefar sobre a ausência de tudo isto.
É revoltante ver que ainda hoje a sociedade brasileira - e, inclusive, a sua fatia considerada mais nobre, preparada intelectualmente, inclusive, ainda viva sob os auspícios do pão e circo.Correndo atrás de um foguinho tão ridículo quanto a sua vida política e social e ainda suspirando e morrendo de emoção por causa disso. Ridículo mesmo. Muito mais do que isto.
Brasília viveu um dia de caos com a chegada da tocha: mudança no trânsito, bloqueio de estacionamentos, muita gente na rua, organizações, comércio e serviço público funcionando pela metade. Enfim, tudo para somar aos pesados problemas que, com ou sem tocha nós já temos e vivemos.
Precisamos crescer, evoluir, construir, enfim, uma nova história. Sugiro aqui a leitura do texto: A criança que pratica esporte respeita as regras do jogo ... capitalista, de Walter Bract. Vc vai encontrá-lo no blog:www.mudandoparadigmas.blogspot.com. Veja lá. talvez a sua ficha comece a cair.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

DOIS DOS MUITOS LADOS DO "GOLPE"







DECEPÇÃO - esta é a palavra que melhor resume meus sentimentos frente às eleições do PT e dos seus pares da chamada "esquerda brasileira" - resta saber se é esquerda de quem vai ou de quem vem? - Enfim... tudo começa com a formatação das equipes de governo, o primeiro escalão, a escolha dos ministros: sempre elitistas, burgueses, brancos, machos, ricos, empresários, pessoas com longos currículos políticos que passaram a vida enchendo suas burras com os altos salários de muitos mandatos e de uma carreira de privilégios e status políticos que não têm fim.
Ora, um partido de esquerda, especialmente, que representa o trabalhador não pode se fundamentar nesta cegueira ideológica de que o exercício do poder, de fato, querendo ou não, aparentemente legal ou não, mas manipula sim a cabeça das pessoas. Os políticos precisam perceber que a zona de conforto muda a cabeça das pessoas no sentido de perpetuarem esta mesma zona de conforto, para o quê, vêm as estratégias, os discursos táticos que não mudam nada, apenas perpetuam e ampliam a zona de conforto de quem já a possui.
Quando vi Lula convidando altos funcionários dos bancos americanos, políticos tarimbados, empresários riquíssimos para seus vices, ex-ministros de Collor para comporem a sua equipe, já entendi tudo. E o mesmo acontece com a Dilma, que, em última análise, teve seus mandatos - um e menos de meio - dirigidos pelo Lula, ela servindo apenas de capa.
Enfim, é tudo uma vergonha. Um Estado autocentrado que trabalha apenas para o bem estar de quem o dirige e para os seus pares: os burgueses, os ricos, os empresários, os políticos que ganham milhões e só. Um governo feito por quem representa o povo, mas, ao representá-lo perde todas as características, as similaridades com o povo; perde o foco, a visão e passa atuar com outra ideologia. A ideologia burguesa, dos ricos, dos nobres, dos brancos, enfim, da elite. Este é o círculo vicioso que desgraça a nossa política. E como tudo é política, desgraça com isto as nossas vidas.
Parece-me que com o PT e as esquerdas tudo isto nos dói mais pois vem junto a força da decepção. É como quando você é traído por um amigo, alguém que você ama muito. Assim exemplifico. Com as esquerdas que atuam e governa como se de direita fossem, a coisa doí muito mais. Se Aécio Neves fosse eleito no lugar de Dilma, não seria de assustar tanto pois já esperaríamos isto dele: um moleque mimado, um jogador estratégico e sem escrúpulos que se mantêm no "podre poder" desde que nasceu e, me parece, que, como seu avô, permanecerá até depois da morte (pois Tancredo continua aqui governando, por meio das lições cretinas que passou para o seu neto favorito (- Ah!! Antonio Carlos Magalhões que, felizmente...)
O governo do PT, especialmente o governo Dilma é um disparate, um desrespeito, uma sucessão de erros, de desrespeito, de atos corruptos que não tem como prever, aceitar, se acomodar. Quero que Dilma saia, pois é um governo impositivo, centralizador, castrador, terrível. Mas, por outro lado, já pensou o que é ser governado por Temer, por Cunha, Aécio Neves, a volta de FHC com o seu cinismo intelectual e político? Não nos iludamos, não sei o que será pior. Se Aécio fosse eleito, nós brasileiros estaríamos suspirando e desejando muito que Dilma fosse a eleita, e assim sempre.
Devemos ser pela mudança. Fora Dilma! Fora Temer! Fora Lula! Fora Aécio? Fora Gleice! Fora Jucá! Fora todos!...
O que precisamos mesmo é de uma outra conjuntura política onde exista lutar para a dignidade, a sensibilidade, o respeito, o caráter, a vontade política de uma ação que seja coerente com o discurso da mudança, da melhoria, do resgate das condições cidadãs, pois, por hora, vindo de quem venha, tudo isto é blefe. A direita blefa. A esquerda blefa. O povo blefa. Precisamos mudar o blefe por uma ação coerente e fundamentada na verdade. Para o quê falta caráter. Faltam mulheres e homens de verdade. Falta vergonha na cara. Como bem dizia A. S. Exuperry nõ seu encantador Pequeno príncipe -  "como o essencial é invisível aos olhos". Nos nossos governos de fachada ainda falta tudo. Pelo menos, falta tudo de essencial. Não temos governos, mas antros de canalhas que dizem que nos dirigem. Mas, na verdade, nos consomem em todos os níveis. Pobres de nós.

quinta-feira, 31 de março de 2016

INSTITUTO HUMANIZAR - CONSULTORIA - PROJETOS - CAPACITAÇÃO DE PESSOAS


INSTITUTO HUMANIZAR
CONSULTORIA - PROJETOS - CAPACITAÇÃO DE PESSOAS



O INSTITUTO HUMANIZAR é uma instituição que trabalha com projetos, consultorias e programas de capacitação de pessoas com vistas à busca da melhoria permanente do processo, do produto e das relações técnicas, econômicas e interpessoais a estes relativas.
Nossos principais projetos:

PLANEJAMENTO SISTÊMICO-CONTINGENCIAL - 
UMA PROPOSTA PARA O SÉCULO XXI
Capacitação de pessoas e implementação de metodologia de planejamento voltada para a inteireza da organização, a otimização de recursos e a excelência na solução dos problemas internos e externos. Envolve os parâmetros técnicos, econômicos, humanos, relacionais e ecológicos. Planejamento para o sucesso das relações empresariais e assertividade plena no pós-pandemia.


 PEDAGOGIA DA FELICIDADE -
MUDANDO OS PARADIGMAS DA EDUCAÇÃO E DA ESCOLA
Proposta de intervenção acadêmica e didático-pedagógica, incluindo: políticas e diretrizes de implementação de instituições escolares, conteúdos e programas de estudos, métodos e técnicas de trabalho educacional, instrumentos de avaliação, performance esperada do aluno, papel do professor, administração da escola e fins da educação. Uma proposta inovadora para se solucionar todos os convencionais problemas da educação e da escola.

NOVAS ARQUITETURAS PARA A GESTÃO MUNICIPAL
Workshop de intervenção técnica, política e administrativa em prefeituras municipais, elaborando, em conjunto, um novo plano gestor do município dentro dos princípios da moderna sistematicidade de solução de tais problemas, o alcance da qualidade da vida das pessoas e a longevidade dos processos de gestão.




INSTITUTO HUMANIZAR
STN - Ed. Montreal - Sala 106
70.770-100 - Asa Norte

F A L E    C O N O S C O:

    Brasília - DF
     Fones: 61 3274 27 55
 Whatsaap: 61 99832 25 37

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

O POETA DA ALMA - BOAS LEMBRANÇAS QUE RESTAM...



Eu morava em Silvânia, era só um menino pobre. Mas me encantava com o calor da recepção e da afetividade que eu recebia todas as vezes que ia comprar carne no açougue do Sr. João de Oliveira, ali, na 24 de outubro, mais ou menos enfrente à casa do Seu Cipriano. Ali onde é hoje aquele prédio do Claudio Corumbá.
A coisa era tão forte que escrevi estes texto há anos. Mas agora o encontrei aqui nas minhas gavetas e resolvi compartilhar esta alegria com vocês que é mais ou menos assim:

Eram: Máximo, Maximmon e, não tenho certeza, Maksson, os filhos simpáticos e bem educados do Sr. João de Oliveira. Tinha mais um monte, mas estes trabalhavam no açougue. Não convivi com os demais e não me lembro dos nomes. Mas sei que eram mais ou menos assim diferentes, exóticos.
Sr. João de Oliveira era açougueiro, dos bons. Era contador de casos, dos bons. Era fanático por futebol, também dos bons. Me lembro daquela pessoa baixinha que era só sorrisos. com seu chapéu de feltro cinza, meio amassadinho e com abas bem curtas, o que arredondava ainda mais a sua figura. Tinha o mesmo formato das mãos curtas nas extremidades de braços sempre abertos. Seu João era uma escola de afetividade. Ele gostava de abraçar o mundo.
Não era gordo nem magro, era assim, redondinho, bonitinho, parecia, na verdade, um açucareiro de porcelana, sempre sorrindo por sob os bigodes finos, à moda Zé Trindade, com aquela gargalhada fácil e farta enchendo a vida de alegria.
Eu não conhecia tanto assim os seus filhos, mas sabia quem eram. Uma das alegrias de viver em cidades pequenas. Você vê uma pessoa na rua e de pronto já sabe tudo sobre ela: quem é filho, pai, mãe ou neto de quem; o que faz, o que gosta, enfim, quase tudo...
E o que me inspira a escrever este texto, foi, justamente, a extrema alegria do Maximmon, quando, por acaso, me encontrou um dia em Goiânia, e aquilo foi gratificante, inesquecível. Mexeu comigo. Ele ficou feliz da vida que é como a gente fica quando ri com o corpo inteiro, especialmente, com os olhos e ele ria assim. E não sabia o que fazer para me agradar. E tudo era de muita educação, ternura, graciosidade, coisas meio que incomum em nossos meios, o que é uma pena.
Era a síntese da pureza que só as pessoas boas têm quando se encontram com um conhecido, acariciam um bicho, vê uma criança brincando. Fiquei muito feliz com tudo, e, especialmente, com aquele brilho de estrelas que eu via nos seus olhos. Era de uma santidade perfeita que nunca mais vi em nada e em lugar nenhum. O que me levou a concluir que Seu João de Oliveira - seu pai - era também educador dos bons e um sábio fazedor de olhares.
Nunca mais o vi mas guardei esta lembrança boa e doce dentro da alma. Não tive ainda como falar desta alegria que é tudo o que espero mas não recebo das pessoas com quem convivo. Meu sonho é que agora, de mão em mão este recado chegue ao seu destino, pois temos a obrigação de testemunhar as coisas boas que recebemos das pessoas.
Enfim, gostaria que todos saibam que o Senhor João de Oliveira era bom açougueiro, bom contador de casos e fã ardoroso de futebol. E também era um pai perfeito. Escolhia nomes bons, bonitos e diferentes. E educava bem demais o espírito, a alma e o coração de seus filhos. E isto é, de fato, o que mais importa. Senhor João de Oliveira era sim, um poeta da alma.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

FOI-SE MAIS UM ANO...















Foi-se mais um ano...
E com ele, uma quantidade incalculável de amores.
Cores, idades, alguns amigos,
não sei quantos neurônios.

Memórias, remorsos, desvarios, cabelos, ilusões, alegrias, tristezas.
Várias certezas
(se não me engano, treze).
Algumas verdades indiscutíveis.
Umas calças que não fecham mais.
E aquele vestido que eu gostava tanto.
Foi-se o meu gosto por espiar vitrines e achar graça.
Foi-se quase todo meu vidro de perfume.
Foi-se meu costume de imaginar asneiras à noite e junto

com ele a vontade que eu tinha de fazer sexo.
Foi-se meu forte instinto de acreditar no que me dizem
e de pensar que são realmente verdades
o que as pessoas que pondero, boas, me ensinam.
Ledo engano...
Foi-se meu açucareiro de porcelana. Que pena.
Foi-se o tempo em que uma simples farra não significava,
necessariamente, uma condenação
sumária a três dias em perfeito estado de coma.
Foi-se a poupança. O troquinho da gaveta.
Foi-se aquele antigo projeto
e com ele os sonhos de ser, de alguma forma, útil.
Foram-se exatamente, nove vírgula seis por cento
de todas as minhas esperanças, e, bem mais que isto,
dosmeus desejos de fazer coisas,
de gargalhar, de fazer felicidades.
Será que você não se cansa tempo?
Não pensa em tirar férias, dar uma pausa,
respirar um pouco?
Não lhe agrada a ideia de mudar
o andamento, diminuir o ritmo?
Em vez de tic-tac, inventar uma palavra mais comprida
para compasso, mantra, ícone, diagrama?
Já vi passar bem mais da metade
da minha vida que, me parece,
começou ontem. Por isso, olho pra
trás e não vejo quase nada.
Me diz sinceramente: para que tanta pressa?
Anda difícil acompanhar seus passos ultimamente.
Ainda mais agora que meus gestos são lentos,
minhas mãos mais pesadas, minha vista, turva e,
quase sempre, sinto dores
depois de qualquer caminhada.
Mas já é dezembro.
Foi-se mais um ano.
E com ele, quem sabe, mais uma doce fatia da vida.
Quem sabe, a última?...


___________________

(Texto de Adriana Falcão, in O doido da garrafa)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

UMA CERTA ZULMIRA BATISTA

Doce como ambrosia molinha e açucarada,
com aquela fartura deliciosa de queijo e ovos.
Pra comer de olhos fechados, escondido na dispensa,
lambendo os dedos e esboçando um sorrisinho bem safado
para agradecer aquela coisa tão gostosa
que nem tem explicação.
Ardida como pimenta, vermelha, quente, brava mesmo.
Fazendo a sua voz delicada e meiga ecoar como um trovão.
Tudo na sua hora.
Se era pra rezar, mãos no peito, suavidade, pureza,
postura de santa, imagem de fé.
Mas também, para ralhar com menino arteiro - que era
como a gente era chamado quando saia dos trilhos - ela
virava uma onça.
Pintada. Selvagem.
E ai de quem, nessas horas atravessasse em sua frente.
Na vida optou pela extrema simplicidade, pelo que é leve e bom.
A luta do dia a dia, suas galinhas, pés de chuchu,
bananeiras, varais de roseiras brancas, estas coisas...
Do fogão de lenha para o ferro a brasa
e dali para a máquina de costura de pedal duro
que nunca parava pelas madrugadas frias e longas,
até ouvir o coaxar dos sapos, o canto dos galos.
Vendo o dia clarear pelas frestas do telhado rude,
feito a anos pelo seu falecido pai, que saudade!
Noites geladas de trabalho árduo aquecidas pelo borralho
que ela, de quando em quando, dava vida com o seu sopro vindo da alma.
Depois, ela olhava as camas, menino por menino.
Pegava a lamparina acesa para pegar as roupas no arame do quintal.
Pois vinha chuva aí e daquelas bravas, de dar medo
ou pelo menos, vontade de suspirar fundo.
As costuras, as encomendas, o corte de alfaiate: perfeito.
Depois, ela fazia a janta e ia cuidar dos seus afazeres noturnos...
Safra de jabuticabas, vinte e sete pés carregadinhos que só.
- "Este anos vai dar uns bons cobres, vou pagar
a minha conta com seu Zé Dornel..."
E se benzendo, ela cruza para a cozinha.
Descasca e curte a laranja da terra para o doce que ainda
tem que mandar para Goiânia, pois faz dias que Jandira fez
a encomenda...
- "Ih! Já estou atrasada para a reza!..."
E desce a rua prendendo o cabelo, revirando a gola, e,
aborrecida, chega atrasada para as funções.
Volta cansada, bate na cama e dorme como uma pedra...
E passam os anos, muitos.
Zulmira nunca tem tempo para si, para mais nada.
Segue sua vida simples e doce, construindo sua história.
Ela só usou brinco e colar de pérolas
no retrato dos seus cem anos,
pintado pelo pintor famoso de Brasília.
E ainda foi só na pintura bonita e colorida.
E assim, D.Zulmira usou, de mentirinha,
sua primeira e única joia de verdade.
E ela ficou linda!

(Poema do livro Simplesmente azul. Publicado pela Editora Kelps, 2015)