quarta-feira, 4 de junho de 2014

COPA, FUTEBOL E IGNORÂNCIA



Quanto mais se aproxima o fenômeno Copa do Mundo de Futebol (perdoem as maiúsculas) mais me assusta a ignorância, a ingenuidade, a falta de consciência e o costume da sociedade brasileira em aplaudir e vangloriar seus algozes. Se fossem só as pessoas simples e ignorantes, já seria um horror, mas o que vejo é gente esclarecida, bem nascida, estudada, com boa condição social aí, louca pelo futebol, com fé na vitória, e, pasmem, acreditando piamente, que a vitória do Brasil é a vitória do povo, o símbolo de conquistas, de melhoras, de evolução.
Sinto dizer, mas é tudo justamente o contrário. O futebol, a copa, os torneios e campeonatos são bons sim. É divertido, é forma de expandir sentimentos, de relaxar, de por pra fora problemas e frustrações. Diria até que coisas deste tipo são até necessárias para uma sociedade em contínuo estresse, correrias e o "jogo" duro do dia a dia precisa se desdobrar num clima lúdico, da brincadeira e da alegria.
Seria cômico se não fosse trágico, do ponto de vista que, infelizmente, a irresponsabilidade do governo e das políticas sociais usam uma coisa para substituir a outra. O Brasil ganhando, ganham sim, a equipe, os técnicos, os treinadores. Em primeiro lugar a FIFA que abocanha uma fortuna absurda que se encaminha para os esquemas da economia internacional que se liga ao futebol e o apoia como um dos mais importantes aspectos de se investir e ganhar. Esquecemo-nos, portanto, que a mesma fortuna que ganha a FIFA é a mesma que sai dos nossos bolsos, num país em que a educação é sucateada, a saúde não existe, o saneamento, a dignidade, a cidadania, a solução dos problemas básicos ainda estão por vir.
Ganham os jogadores seus milhões, pela bola que balança a rede e faz a multidão vibrar por alguns minutos. A mesma vibração que faz com que os milhões de oprimidos e explorados esqueçam suas mágoas, dores e sofrimentos, e, no ato, recarregam suas próprias baterias para mais exploração, mais opressão, mais violência, mais desemprego, mais fome. É no âmago da copa que a inflação sobe, os impostos aumentam, as relações políticas se tornam mais rígidas, mas ninguém percebe, pois estão todos ocupados demais para saber quem joga quem não joga, quem marca, quem deixa marcar e quem não marca, afinal de contas, para quê, para nada.
O grito fanático de um Galvão Bueno, quando faz ecoar: "É gol! É gool" É goooooooooollllllllll.....Éééé... do Brasiiiiiil" está muito longe de ser um grito de glória, ou um bálsamo, motivo de alegria. Mas ao contrário é uma autêntica lavagem cerebral para arrefecer os ânimos de quem é tirado o pão da boca, o teto, o leito, a liberdade de ir e vir. Tudo é dual, e, infelizmente, não existe o "ganha-ganha, mas sim, o ganha-perde, ou o perde ganha". Assim, com a possível vitória do Brasil, ganha a seleção, o Felipão, seus técnicos, o Galvão Bueno (o pior de todos, o que lava os cérebros, um cínico incorrigível) Ganha a política internacional por meio da Fifa. Ganham os ricos, os capitalistas, que ficam mais ricos. Perdem o povo, os pobres, que, fenomenologicamente, ficam mais pobres, mais explorados, alienados e perdidos, a ver navios e sem entender o porque de tudo isto.
Já passou muito do tempo de sermos inteligentes, perspicazes e vivos. Vamos enxergar o outro lado da moeda e entender a realidade dos fatos, sabendo quem realmente, quem realmente, perde e vamos nos posicionar. Não é proibido gostar de futebol, ficar alegre e feliz. Mas é proibido sim, ser besta, ignorante, ingênuo e manipulável, ajudando, com isto a construir o próprio caos, o próprio sofrimento, a miséria que nos assola. Da minha parte, espero e confio que o Brasil, de fato, perca a copa, pois só assim, ele ganhará a vida e a dignidade, profundamente, mais importantes. Quero meu povo vivo é lúcido. Hexa numa vida sem violência, com paz, dignidade, comida, educação, saúde, alegria. E, claro, como é impossível ser tudo, procuro optar pelo que é melhor e mais digno. Não sejamos só brasileiros. Sejamos também inteligentes e capazes. Já chega de sermos petecas nas mãos das elites do mundo. Deixemos de ser bobinhos e manipulados, pois, na verdade, estão é rindo de nós e se dando bem às nossas custas. Não se engane Vamos aposentar nossos narizes de palhaços, definitivamente, fora de moda.

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