segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

INTERNET X ESCOLA: A SINTOMATOLOGIA DO ATRASO



Quase todas as transformações tecnológicas geram revoluções humanas e sociais em suas áreas correlatas. Por exemplo, não temos mais as famosas tinturarias, as serpentinas de cano que esquentavam a água nos fogões à lenha. Os correios quase não entregam mais cartas e correspondências, mas tiveram de inventar outras atividades para que pudessem sobreviver enquanto empresa. Assim acontece no mundo do marketing, dos fest-foods, do esporte, do lazer, das comunicações, do transporte. Enfim, tudo muda, se transforma, se atualiza com o advento da tecnologia moderna, com as novas e sofisticadas invenções que facilitam a vida, agregam mais conforto, diminuem gastos e custos, aceleram movimentos, reduzem distâncias, etc. Só a velha escola é que continua a mesma, desde muito antes de nossos tetra-avós, devendo, pelo modo como vemos, continuar assim ainda por gerações a fio. Ela é uma organização intransigente, velha, cascosa, grossa, antiga mesmo. Resiste com todas as forças a quaisquer formas de mudança.
Tais como as conhecemos, as escolas aí estão há um sem número de séculos de história da dita evolução da humanidade. Elas dão aulas. Meramente instruem. Reproduzem os conhecimentos. Antes, mimeografavam, hoje, xerocam os textos prontos, repassam as informações sem averiguá-las, questioná-las, analisar seu contexto, sua importância e sua finalidade nem mesmo técnica, quanto mais a humana e social.
Chegamos há um tempo em que a Internet realiza com muito mais eficiência e dinamicidade aquilo que as escolas fazem de forma lenta, monótona, atrasada e muito desinteressante. Faltam às escolas o que a tecnologia tem de sobra: recursos, versatilidade, criatividade, ousadia, suspense, processos e resultados fabulosos e imediatos.
Brincando outro dia no meu computador, encontrei um sem número de sites que ensinam passo as passo desde operações matemáticas mais simples, até sofisticadas equações de física, de álgebra, trigonometria, cálculos dos convencionais aos mais modernos, complexos e sofisticados. E usam para isso cores, estilos diferenciados, movimentos, círculos, setas que mudam de tamanho, que rodam, mudam de sentido, de forma, prendem a atenção de forma lúdica e motivadora, tão diferente e superior à maioria de nossas aulas tão cansativas e mórbidas. Sons que vibram, que repetem barulhos da natureza, que emitem músicas, induzem ao silêncio, à reflexão; uma maravilha.
Sites, blogs, bibliotecas virtuais, exposições on-line, teleconferências e infinitas inovações que ensinam de forma sofisticada todos os conhecimentos das ditas ciências físicas, práticas, mecânicas, biológicas, humanas, exatas. De forma que a escolas que temos e que meramente instruem, repassam, realinham o conhecimento pronto estão definitivamente superadas na ordem das coisas, no processo de evolução histórica da humanidade. E o que quer que as escolas façam neste sentido, o de meramente instruir, induzir, fazer decorar os conhecimentos prontos, a internet é capaz de fazer melhor, mais rápido, com uma mínima margem de erros e com uma estrondosa capacidade de resultados.
Da forma que foram concebidas e que até hoje aí estão, as escolas ocupam um espaço que não é mais delas, mas da Internet, dos computadores, da alta tecnologia, atualmente, em grande acesso, muitas vezes a preços populares, em ambientes públicos, em locais terceirizados, em casa e altamente utilizadas para tais fins.
De forma que encontramos numa bifurcação histórica frente aos processos de evolução do conhecimento. De um lado, podemos tranqüilamente sugerir que o governo transforme as escolas em grandes casas de computação (Lan House), onde o aprendiz recebesse a orientação mínima que poderia ser dada pelo próprio computador. E ali faria seus estudos com muito mais rapidez, eficiência de processo, resultado, motivação e interesse.
Pois é muito melhor estar no computador, onde a criança, o adolescente, o jovem, ou mesmo o adulto passa horas seguidas sem pestanejar; do que assistir a aulas enfadonhas, sem interesse, mal-dadas, mal-pagas e mal-preparadas para que justamente, ninguém aprenda nada. Depois, ele poderia escolher a seqüência, o assunto, o método, a lógica que mais o interessasse. Depois, de período em período, ele faria, digamos, uma prova para o MEC, pela própria Internet e assim que estivesse pronto, seria certificado do seu nível de conhecimento, com que prosseguiria seus estudos.
Isto sem falar que muitos estudariam em casa, a custo zero para o governo. Seria muito bom em todos os aspectos. Quanto aos professores e pessoal da escola, uma vez justificada a sua absoluta falta de necessidade profissional teria, por exemplo o mesmo destino dos trocadores de ônibus que foram gradativamente substituídos pelas catracas que não adoecem, não se estressam, não tiram folga e tudo continua funcionando maravilhosamente bem. Pois função minimamente técnica como a que os educadores de uma maneira geral vêm exercendo, deve ser cumprida por máquina. É um desperdício e um descalabro sub-aproveitar gente para fazer isso, como vem acontecendo nas nossas escolas.
Talvez, desta forma, a escola continue sendo necessária nas séries iniciais, onde o aluno tem acesso aos número, às letras e aprende a ajuntá-los; a única coisa que ela tem feito e que de fato acrescenta algum valor, alguma sabedoria aos que aprendem, daí para a frente a tecnologia e a eletrônica têm dado mostra de uma muito maior eficiência e eficácia no campo do ensinar, do aprender e do instruir para reproduzir o conhecimento o que é muito pobre frente à complexidade das exigências do mundo.
Uma outra suposição possível, e, esta sim, comunga com os ideais da educação enquanto ciência e prática social contextualizada, seria a escola partir daí, de depois da Internet para fazer o indivíduo pensar, a analisar criticamente o teor do conhecimento que adquiriu. Facilitar a interação do saber com a interbujetividade do ser, tornando-o capaz de usar o seu saber contextualizando-o efetivamente à sua vida, realizar as conquistas de que necessita, contribuindo como agente social para melhorar o mundo para si, para os seus e para todos.
Para continuar existindo a escola e a educação formal precisam ir além dos limites da ideologia, da contestação política, se atrever, ousar, ser afetiva, personalista, intermitente, nova. Ensinando o indivíduo a ser livre, crítico, autônomo, sensível, afetivo, criador, agregando outros saberes que não os unicamente ditados pela perversidade do capitalismo caquético, centralizador e periférico que constitui nosso tormento e nossa agonia enquanto cidadãos, enquanto seres vivos. É preciso que elas passem a ensinar o amor, a afetividade, a compaixão, a harmonia, a ecologia, a beleza. Mas para que isto aconteça é preciso que os educadores em geral e os professores em particular aprendam primeiro estas lições. Pois a vasta maioria deles é cega neste sentido e está muito longe de saber disto.
O caos, as crises das escolas são sintomáticos e não casuais. Eles são um convite para que os educadores mudem suas práticas, repensem profundamente seus conceitos. Que agreguem qualidade ao que fazem que ensinem também a inventar e não somente o que foi inventado. Que construam com seus alunos a história das civilizações contemporâneas e não os obriguem a se conduzirem pelas mesmas trilhas de um passado que não mais deveria existir.
Mas tudo isto requer trabalho, leituras, mudanças. E, acima de tudo, deveremos abrir mãos de privilégios caducos, de poderes simbólicos e inexpressivos a que tanto nos apegamos pela nossa cultura competitiva, cega, linear e estagnada. Não temos mais que conscientizar os professores em geral e os educadores em particular. Precisamos acordá-los para que não sejam ceifados pela morte antes mesmo de abrirem seus olhos para vislumbrarem os horizontes de prosperidade, vida, sonhos e alegrias, que talvez, nunca virão. Pois a educação que temos jamais permitirá.

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(*)Professor, pesquisador e conferencista em educação. Autor dos livros: Paradigmas em educação no novo milênio; Escolas & Hospícios – ensaio sobre a educação e a construção da loucura (Ed. Kelps-Goiânia). Estando no prelo: Reflexões de Giovana – educação para a vida.

Um comentário:

Vera Maria de Carvalho disse...

Olá Antonio!
Parabéns pelo texto. É espetacular! polêmico como você porém, bastante pertinente. A propósito do conteúdo há um autor muito interessante que falava sobre o tema há cerca de 40 anos atrás, onde questionava a substituição do professor por "maquinas de ensinar". Até então, ele(pobre educador visionário!) nem sonhava com internet...interessante né?
Com esse desenfreado avanço tecnológico e a evolução em doses homeopáticas das escolas, essa realidade infelizmente não está assim tão distante....
Solicito sua autorização para debater com meus alunos durante este semestre.
Muito agradecida,
Vera