sábado, 2 de fevereiro de 2008

DINÂMICA DAS ESCOLAS: O REAL E O SIMBÓLICO FAVORECENDO A EXPLORAÇÃO DAS PESSOAS



Fala-se muito na crise mundial da educação e das escolas. Pais, professores, alunos, gestores escolares, comunidades em geral se mostram bastante insatisfeitos com os processos e resultados da educação formal das pessoas em todo o mundo. A crise passa pelas questões salariais, profissionais, e, principalmente, acadêmicas e pedagógicas, deixando todos os envolvidos perplexos, com as mãos na cabeça e se perguntando o que e como fazer.
Como estudioso da área eu diria que o problema da escola é a própria escola. Sua linha de ação duramente estereotipada por um modelo que já não funciona mais. Elas são lineares, cartesianas, reducionistas, duras; quando o mundo de hoje requer uma visão cíclica e evolutiva dos fatos e fenômenos. A saída do paradigma cartesiano dogmático, unilateral e disciplinar; adotando uma nova proposta mais flexível, aberta, crítica; diríamos, mais, no mínimo, politicamente correta. Infelizmente grande parte dos educadores foi eficiente treinada e cega para não enxergar as suas indiosincrasias, maldades, perversidades, desserviços. E como não eles não sabem – e o que é pior, na maioria das vezes nem querem saber disso – continuam cometendo estes pequenos crimes contra o ser humano, a vida, a dignidade, a cidadania, ajudando a construir o caos social sem precedentes em praticamente em todo o mundo, neste especial momento histórico em que nos encontramos.
A moderna psicologia da ciência, dentro da qual eu me considero inserido, revela-nos por meio de anos de pesquisas, a grande influência dos fatores psicológicos, das medidas do inconsciente na formação da personalidade das pessoas e na estruturação da conduta delas no mundo e na vida. Gerando aí a sociedade que temos, seus entraves, problemas, sofrimentos, alegrias, facilidades, dificuldades. Assim as escolas, com maestria, posicionam-se autoritariamente e, de certa forma, contra seus alunos que, por sua vez, constituem a sociedade, fazendo deles pobres, incautos, inocentes úteis alienados, a serviço de uma ordem mundial exploradora, desumana, cruel e ultrapassada.
Exemplificando, o grande problema do mundo de hoje, o pelo menos a causa principal dele é a astuta concentração do poder e da renda. É isto que gera a pobreza, a miséria, as favelas desestruturadas, o transtorno da violência urbana, a fome, o desemprego, a degradação da natureza, o desgoverno no trânsito e assim, por diante. Acredito que, até aqui, todos estamos de pleno acordo. Ora, a sociedade em peso, que por meio da escola passa por uma média de 5, 10, 15 ou mais anos de imposição do conhecimento centrado na cabeça, na linguagem e na vontade de um(a) único(a) professor(a) que induz, avalia, cobra, aprova, reprova, não estaria inconsciente e psicologicamente preparada para receber, aceitar e até apoiar a concentração do poder e da renda, exatamente como temos hoje em todas as dimensões do dito mundo civilizado?
E os processos contínuos de neutralização da vontade própria que se dá na medida em que se ouve todos os dias dos condutores da educação e da escola, por exemplo:

a) Você não pode vir com esta roupa. Pois “a diretora” estabeleceu que o uniforme é desta ou daquela forma e a partir de amanhã ninguém mais entra sem ele.
b) Agora não é hora para discutirmos este assunto, guarde isto para depois e preste atenção na aula de matemática.
c) Vamos seguir este livro que todos vocês vão ter que adquirir, pois “a equipe pedagógica” definiu que é este e pronto.
d) Não queremos saber que horário você prefere. Mas terá que freqüentar as aulas pela manhã e no horário rígido e sem tolerância das tantas às tantas horas.
e) Cadê o dever de casa? Se não fizer de novo, será punido severamente.
Enfim, nossas escolas funcionam a partir da matriz da imposição, do medo, da intolerância, do desamor, da brutalidade; formando cidadãos que para sempre, serão medrosos e subservientes, perpetuando os interesses do comando hegemônico da sociedade. E, com ele, a frieza, a obstinada ganância com as quais perpetuamos as desgraças e as profundas dores do mundo, embora já estejamos em pleno terceiro milênio de evolução da vida, da história e dos destinos do homem no mundo, sem contar, claro os não poucos períodos que antecederam a era cristã.
É preciso que os educadores saibam disso. E mais ainda, que se revoltem contra este jogo medíocre e ridículo que fazem deles carrascos de si próprios. As mudanças precisam ser feitas, ainda que de forma gradual. Os alunos precisam e devem ser ouvidos quanto às questões crucias a que vão posteriormente obedecer. Precisam ser tratados com amor, carinho, fraternidade, reconhecimento, respeito. Estarem conscientes de sua escolha e do seu desejo. Pois simbólica e psicologicamente quem é o diretor, ou mesmo o professor para, de forma determinante “enfiar” garganta a baixo conhecimentos, horários, uniformes, regras, normas, imposições e limites? Agindo assim, estamos construindo uma sociedade de alheios aos seus direitos, de indivíduos facilmente exploráveis, de marionetes a serviço dos interesses dos comandos e só.
Já passamos muito da era do gerenciamento unicista, machista e centralizador em que manda quem pode e obedece quem tem juízo. Quem, hoje, obedece sem participar do processo, se revolta, adoece, mata, morre, seqüestra, violenta ou se nega a participar. A ótica da educação está intimamente vinculada a este processo, sendo a grande responsável por “fazer a cabeça das pessoas” e com isto, construir a história da vida, o mundo que temos e nossas cada vez mais reduzidas esperanças de melhores dias e capacidade de sonhar com novos e floridos horizontes para todos.
Afinal, para que servem a ciência, a escola, a educação e o aprendizado disto tudo se a vida não se transforma para melhor em qualidade e quantidade? Se o mundo vai mal, como o nosso, absolutamente tudo precisa ser repensado. O que começa com a escola a maior responsável em aprender e nos ensinar a fazer tudo isto.

Antonio da Costa Neto

Um comentário:

Itamar Coelho disse...

É meu caro, há mais de 25 anos você já delineava sobre esse descaso. Era seu aluno no CEGM e também percebia, mesmo que superficialmente, que havia uma corrente contra a evolução do ensino, e consequentemente, da sociedade.
Hoje, através dos seus comentários e da experiência de vida, vejo que a tendência é a ampliação da base subserviente, infelizmente.
Parabéns por lutar contra marés!
Itamar, Mku - GO.