sábado, 9 de abril de 2022

A ESCOLA COMO INSTRUMENTO DE TORTURA - POR PAULO LEMINSKI

 


Há muitos modos de se torturar uma criança.


Pode-se, por exemplo, fazer uma fogueira com todos os seus brinquedos e obrigá-la a assistir a cena. Esse era o método favorito entre os mongóis, que entendiam de tortura infantil como poucos.

Um outro método muito eficiente também é chegar de repente e dizer para a criança: - "Tua mãe morreu." Salvo caos raríssimos como o do imperador Nero, essa técnica dá resultados lancinantes. Já os russos preferem métodos mais sutis. Para torturarem uma criança eles enchem um quarto escuro com as obras de Lênin e Stalin e deixam a criança lá dentro por vinte e quatro horas. Os americanos, mais pragmáticos, preferem levar a criança a um parque de diversões bem distante e dizer: - "Titio vai ali comprar pipocas." E nunca mais aparecer. Só isso. Soube-se de casos em que pais ou responsáveis deixaram seus filhos ouvindo Frank Zappa, a todo volume, no escuro e por horas a fio, tortura preferida pelos pais contraculturais dos anos 60.

Pais imaginativos gostam de torturar seus filhos contando-lhes histórias em que lobos tentam entrar nas casas dos porquinhos, sendo que a criança é um dos porquinhos. Ou histórias onde a bruxa malvada prende a Branca de Neve numa jaula para que ela (a Branca, não a criança) engorde e fique no ponto para ser assada no churrasco de domingo. Essa tortura ficcional - é muito eficaz porque vai repercutir na vida onírica dos petizes, produzindo, a longo prazo, sonhos angustiantes e pesadelos insuportáveis, dos quais, a criança, inevitavelmente, acorda gritando: - "Mamãe!" ...É a hora certa para dizer: - "Volte a dormir, querida, a mamãe, o lobisomem comeu!" (...)

Mas, de todos os métodos para torturar crianças, nenhum se compara ao método chamado "escola". A escola deve ter sido inventada por um verdadeiro discípulo do Marquês de Sade. Basta dizer, para vocês fazerem uma ideia, que nestes hediondos calabouços as crianças são obrigadas a memorizar que dois mais dois "são quatro", que "pi" é um número sem fim, que um ao quadrado é um e que todo o número multiplicado por zero - mesmo que sejam infinitos bilhões - é zero. E não para por aí.

Uma das torturas mais requintadas usadas nestas tais "escolas" é a chamada análise sintática. Nome inocente para disfarçar um dos mais requintados tormentos que a doentia mente humana conseguiu inventar.

Basta dizer que na tal "análise sintática" diante de uma frase uma criança tem que adivinhar quem é o sujeito, quem é o predicado, quem é o objeto. Não nesta ordem, é claro. Adivinhar é uma brincadeira divertida. Mas não no caso da "análise sintática." Se a criança adivinhar errado, reprova, e vai ter que fazer de novo, aquele ano inteirinho tentando advinhar - sob a tortura, o pavor e o medo da reprovação - quem é o sujeito, quem é o objeto, quem é o predicado. Depois de reprovar uma, duas, três, quatro vezes, a criança desiste e prefere ser trombadinha, traficante, surfista ou cabo eleitoral de Paulo Maluf. Tudo, menos sujeito, predicado e objeto.

Peguem, por exemplo, o tal "sujeito inexistente", o sujeito das orações que expressam os fenômenos atmosféricos. Chove. Quem chove? Ninguém chove. Venta. Quem venta? O vento. Errado. Ninguém venta. O vento se venta sozinho.

Que dizer do tal "sujeito oculto"? Claro que o "sujeito oculto" é sempre o principal suspeito do crime de haver frases no mundo. A não ser por isso, por que se ocultaria? Exemplo de sujeito oculto: "O assassino se escondeu atrás da parede de tijolos." "O espião da KGB usa óculos escuros." "Jack, o estripador era filho da rainha Vitória." "O Menguelle está vivo e muito bem no Paraguai." Esses sim, são os verdadeiros casos de sujeitos ocultos. Mas as crianças levam anos para encontrá-los. E quando os encontram, já estão de cabelos brancos como Sherlock Holmes.

A invenção da escola, como vocês estão vendo, torna obsoletos todos os antigos métodos de torturar crianças. Com mais escolas, as crianças sofrerão muito mais, se tornarão ingênuas, omissas e prontas para aceitarem todas as torturas possíveis. Os adultos se divertirão muito e todos teremos, enfim, "aquele Brasil com que todos sonhamos."
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(LEMINSKI, Paulo. ...E por falar em tortura. Jornal A folha de S. Paulo, de 18.09.85, citado na íntegra por Antonio da Costa Neto, in, Paradigmas em educação no novo milênio. Goiânia: Ed. Kelps, 2004).

quinta-feira, 7 de abril de 2022

VIOLÊNCIA NAS ESCOLAS - FORMAS DE COMBATE

 



BREVES REFLEXÕES QUÂNTICAS SOBRE A VIOLÊNCIA NA ESCOLA

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Por:

(*)Antonio da Costa Neto 

Uma das grandes discussões que acontecem hoje no campo da educação é, justamente, a questão da violência que ocorre nas escolas. Trata-se de um preocupante problema, um desafio enorme em função da sua extrema gravidade, o perigo eminente, vez que envolve riscos, vidas, dores, sofrimentos, enfim, uma tarefa de extremas grandeza e importância que se coloca como uma barreira a ser suprimida – se possível, com a máxima urgência – por todos os direta ou indiretamente envolvidos com as escolas, a educação, o ambiente de estudos, quer formal ou mesmo informalmente. Uma séria e grave situação que nos expõe a todos, em algum momento  de uma ou outra maneira.

É fato que a violência acontece e que aumenta de forma galopante em nossos ambientes escolares. Desde pequenas brigas, discussões, desavenças, bulling, passando pela sua estrutura física, com o uso de instrumentos, armas, a força corporal,, luta, chutes, socos, pontapés. E isto em todas as dimensões e com amargas consequências. Horizontalmente, entre alunos ou destes contra seus professores servidores, funcionários, vizinhança.  Estabeleceu-se, assim, gradualmente, ao longo dos anos o que se assemelha a uma guerra, com pequenos e grandes crimes, sangue, até mortes, o que, sem sombra de dúvidas, gera uma preocupação enorme, sem precedentes de suas gravidades como temos nos certificado, em especial, nos últimos tempos.

Mas acredito sim que a solução depende, em princípio, de um novo e profundo olhar. Diria eu – para estar na linguagem da moda – um olhar quântico, enxergando para além da mera evidência do óbvio. Entendendo e relativizando a relatividade dos fatos: o que é bom para a ordem, a disciplina, o funcionamento da escola, pode, e, geralmente é péssimo para a pessoa, a alma, o sentimento, podendo sim – e na maioria das vezes está – violentando as pessoas.  Faz-se necessário relativizar as causas, os efeitos, os processos e os resultados, interligados, em pleno efeito dominó, desta mesma violência, podendo, assim, de certa forma entender tal fenômeno e articular meios e condições capazes de superá-lo. Faz-se necessário que os gestores das escolas e, em especial, os professores, responsáveis pelos processos didáticos e pedagógicos ampliem as suas sensibilidades e passem a ver e a entender os elementos e substratos que se ocultam debaixo de suas próprias práticas, gerindo e ampliando esta mesma violência que tanto nos atordoa.

Sim, as próprias práticas pedagógicas e os aparatos formais da escola podem estar concebendo e ampliando as mesmas violências  que se combatem – num autêntico faz-e-desmancha absolutamente enlouquecedor.  Por que sim, não pode e nem deve ser a escola um espaço para isto, mas, muito pelo contrário. Para se fazer, aprender, ensinar e concretizar uma política de paz, de entendimento, de relações sadias e produtivas, calcadas no diálogo, na compreensão, na empatia, nos ditos valores humanos, produtivos e edificantes que devem – ou que deveriam – constituir a alma das pessoas. E, também para isto é que elas vão à escola em busca de se educarem e de se tornarem  melhores.

Falo em olhar quântico referindo-me a um novo perceber das funções da escola frente às dimensões da sociedade capitalista, já em si, competitiva e violenta. Não tendo, por isso mesmo a escola, a educação e seus agentes, em princípio sabido como agir dentro deste vendaval,  neste turbilhão de fatos e fenômenos o que levam-me a perguntar: - Se a dimensão quântica advoga a ideia de que tudo se liga a tudo, transcendendo valores e resultados similares, onde então estariam as bases desta violência na escola?  Não seria a escola também em si – quântica e profundamente falando – um laboratório permanente de violências simbólicas e intelectuais que, uma vez repetidas e repisadas durante anos nas cabeças das crianças, dos adolescentes e dos jovens, não acabam por fazer explodir a violência concreta que agora tanto nos assusta?

De acordo com determinadas linhas do pensamento, em especial as  humanistas de muitos dos atuais teóricos da educação, da psicologia, da pesquisa e da didática, a violência na escola pode começar sim pela obrigatoriedade legal de ter que frequentá-la. Claro que, num sentido macro e dentro de uma certa ordem política, podemos assim dizer que isto pode estar correto, mas, inegavelmente, é violento. Submeter, ordenar, determinar coercitivamente pela lei e, não raro com o poder de polícia que a criança tem que ir à escola, embora ela possa não querer  ou desejar isso, não podemos negar: é uma primeira e brutal violência e para superá-la temos que ter sim, um olhar sensível em busca deste entendimento.

Uma sociedade que se quer democrática, justa e livre não pode usar da coerção, dita legal ou institucional para conduzir seus métodos de ação, pois,  isto é de uma incoerência absolutamente inaceitável o que precisamos compreender com profundidade já no advento do terceiro milênio e num tempo de plenos direitos humanos e do exercício da cidadania. A força coercitiva  e determinante é,  talvez, a maior de todas as violências e nossas escolas estão, no seu dia a dia, eivadas disto.  E o que é pior, ninguém  parece perceber os seus males.  Ter que ir à escola – todos os dias durante toda a melhor fatia da vida -  responder a uma chamada nominal ou numérica – o que é pior ainda – escutar, ler, escrever, estudar, aprender, o que muitas vezes não interessa, se renega, não se quer. Enfrentar um professor, uma professora com quem não se simpatiza, colegas com quem não se comunga ideias, sentimentos ou empatias. Cumprir horários que lhe são impostos sem o menor consentimento ou estudos de condições, etc. Usar um uniforme do qual não exista um menor teor de vontade e muito mais. Mas isso são detalhes. Sim, são. Mas juntos e reforçados por todos os anos vão  corroendo a liberdade e consolidando a violência que cresce dentro de cada pessoa que irá a seu modo colocá-la pra fora.

Ter que se sentar neste ou naquele lugar. Levar para casa, além dos muitos que já possa ter, problemas para resolver, trabalhos, estudos, tarefas, de preferência, todos os dias e sem descanso, como um treinamento operante para fazer o que não dá prazer, não interessa e não reclamar por isso. Ter determinado o espaço e as condições para a satisfação de necessidades fisiológicas, um cardápio alimentar incompleto; um ambiente feio, não muito limpo, mal cuidado, etc. são maldades que as escolas, sem que saibam, impõem aos seus alunos, violentando seus corpos e almas.  Ser corrigido, chamado à atenção, exposto frente aos colegas e receber notas e castigos com os quais muitas vezes não se concorda e não ter o direito de falar, revidar, se explicar devidamente; já seria em si, um elenco enorme de violências intelectuais e simbólicas, que, juntas e alinhadas  só poderão gerir as violências concretas e é, sobre isto que nós, educadores, preocupados com a violência nas escolas temos que nos debruçar antes que seja tarde demais. Levando, assim,  a um possível e definitivo caos que seria o fracasso inevitável da educação, das escolas, das pedagogias  e de todos os aparatos que acercam toda a realidade escolar e seus efeitos nas pessoas e na construção da sociedade que queremos.

Diz a escola que não quer a violência. Mas, inadvertidamente, ela faz tudo para adequar os sujeitos – aos quais julga educar – a se ajustarem à uma realidade social violenta, competitiva ao extremo. Segregada pelo ter, o poder, centralizando a renda , as decisões e socializando a fome, a miséria, o desemprego, o medo. Ora, não seria isto semear e propagar violências outras que se tornam mais numerosas e mais plurais, justamente, na mesma medida em que se tornam mais raros e escassos os bens materiais ou não, os meios e as condições de vida? Como vai querer a escola combater a violência física, a briga, a luta, o sangue, a morte, ao mesmo tempo promovendo e legitimando a violência simbólica, a violência intelectual, a violência do poder e da imposição em suas próprias práticas? Não estaria a pedagogia simplista dos resultados capitalistas simbolizados no percentual de frequência, na obediência extrema às militares imposições, à nota, à aprovação na medida em que se diz sim e não se revida a controles e imposições, ampliando e diversificando  esta violência óbvia e que tão fortemente se manifesta?

Pensando, então num fazer pedagógico não-violento podemos, em princípio, enumerar alguns elementos, passos, ações que podemos sugerir a aplicação no cotidiano da escola, dentre ouros, apenas para exemplificar. São pequenas medidas graduais, simples, corriqueiras, que, certamente, agregarão o lúdico, o bem-estar, o valorizar a pessoa, amortizar o ambiente, humanizando as práticas educacionais e tornando-as, ao longo do processo, agradáveis, não violentas, e, se possível, plenas de boas essências. Assim, os agentes educacionais, a nosso ver, devem:

·        Horizontalizar as formas de tratamento, conhecendo, memorizando e se referindo ao aluno chamando-o pelo próprio nome ou a forma previamente combinada  - de preferência que todos se tratem respeitosamente por você, suprimindo títulos e outros pronomes de tratamento. Um detalhe, que, certamente, fará a maior diferença reduzindo muito da conturbação do ambiente escolar.

·        Flexibilizar horários e personalizar exigências, limites de chegada, ampliando a tolerância para os que moram mais longe ou têm mais dificuldades que os demais para se locomoverem até a escola. Toda padronização exclusiva prejudica uns mais do que outros e isto também é, de certa forma, violentar.

·        Estabelecer, no cotidiano dos processos de ensinar a indução e a dedução simultâneas, permitindo que todos falem, ainda que ordenadamente, quando quiser, colocando para fora suas ideias, crenças, impressões, críticas, concordância, discordância. Muitos surtos e explosões vêm desta angústia acumulada na alma de não poder expressar o que quer e o que sente, no devido momento em que o fenômeno acontece.

·        Conhecer e considerar as diferenças individuais, entendendo que alguns aprendem ouvindo, outros lendo, falando, escrevendo, documentando, apresentando sínteses. Uns raciocinam melhor sozinhos, outros em grupos. Os “insights” de aprendizagem em alguns acontecem na hora, outros depois do sono, alguns demoradamente, em outros, nunca, o que precisa ser reconhecido e considerado.

·         Concluir o ciclo de indução, dedução, argumentação, sistematização e conclusão em cada unidade de conhecimento trabalhada. Este fechamento é absolutamente fundamental, oxigenando as sinapses nervosas, reduzindo o estresse mental, a fadiga intelectual e favorecendo a um aprendizado agradável e completo.

·        Entender que nem todo o mundo precisa aprender tudo, e, muito menos, da mesma forma. Alguns precisarão de mais matemáticas, outros de mais linguagem, artes, história, eletrônica, informática. Relativizar e dosar o conhecimento – como uma dose de medicamento que se ministra para diferentes comorbidades, é, sim uma grande sabedoria.

·        Diversificar os métodos. Nem todo o mundo gosta de ficar sentado, calado e quieto por horas. Insira a dinâmica de grupo, o movimento, a teatralização, o diálogo, a música, as brincadeiras, as técnicas de relaxamento e o controle da respiração. O estresse do dia a dia, o medo da própria violência, os ônibus lotados, o cansaço da caminhada precisam ser compensados de forma livre, lúdica e salutar. Depois de se subir uma escada longa e exaustiva – como é a vida cotidiana de muitos de nós – é preciso descansar, parar, respirar para depois conseguir o que se pretende e isto deveria ser feito todos os dias, tanto no início, como no final das aulas, das atividades pedagógicas.

·        Desenvolver todas as atividades em círculos, dando um adeus definitivo às seletivas e segregadoras filas que privilegiam poucos e castigam, violentam, prejudicam muitos. Ao invés de posições classificatórias de primeiros até os últimos você tem uma classificação igualitária para todos que estão no círculo. Isto, além de facilitar a operacionalização de qualquer processo é, também, absolutamente democrático, dando a todos e da mesma forma, o direito de acesso, visão, vez e voz.

·        Corrigir deveres, tarefas e demais atividades acentuando e valorizando os acertos e não erros. A atividade convencional de correção de atividades pedagógicas têm funcionado, tradicionalmente, como um verdadeiro bombardeio de caça ao erro para tirar ponto, diminuir a nota, como se ela fosse um prêmio de consolação para os privilegiados “mais aptos”. Uma ação seletiva, draconiana como quem aciona força de trabalho e o ato educativo por excelência não pode ser assim. Ao contrário, é preciso que seja caloroso, convidativo, humano. Não posso, como aluno ter medo do resultado do meu trabalho “possivelmente, cheio de erros. Preciso sim de expectativas e estímulos para melhorar. Corrigir com caneta vermelha é como ensanguentar o trabalho, muitas vezes com empenho e dedicação. Se pudermos evitar este tipo de coisa estaremos violentando menos os corpos, as almas e o desejo de estar na escola para aprender.

·        Entender que o dever de casa, em especial em grande quantidade e exigido cotidianamente, bem mais do que um recurso de aprendizagem e fixação é uma forma de treinamento operante na linha pavloviana para que facilite a aceitação do fazer muito e receber em troca um nada ou quase nada. Além de passar na escola boa parte do dia, não raro, o aluno terá ocupar boa parte do seu tempo restante fazendo os deveres de casa para que, assim, permaneça ocupado, não podendo dedicar-se a atividades lúdicas e do seu interesse. Permanecendo ocupado e recebendo correções ou uma nota meramente simbólica a pessoa estará pronta para se entregar, futuramente  a muito trabalho e pouca remuneração no que se sustenta o nosso modelo capitalista. Além de uma violência intelectual tal prática, quando repetida em excesso será, igualmente, uma violência econômica, social e profissional, quando não agora, mas no futuro da pessoa e da sociedade da qual ela faz parte.

·         Por último, mas, nem por isso, menos importante, é preciso que o aluno queira ir para a escola e se sinta feliz, gratificado, realizado em frequentá-la. Assim, a chamada deve ser gradualmente substituída pela boa qualidade do que se faz e se desenvolve na escola, sendo, assim, um convite natural a estar na escola e desenvolver nela o seu aprendizado, a sua educação. Flexibilizar a obrigatoriedade, a regra, a norma e ampliar o desejo, a felicidade, fazendo da escola um local de encantamento.

Não se pode definir os parâmetros que favorecem a uma certa violência capitalista de um modelo como o nosso sem provocar, mesmo que em níveis inconscientes, violências outras que tanto nos assustam, assolam, neurotizam, matam e preocupam. A violência que a escola gera é processual, não palpável, não é física e não pode ser vista. Ela amadurece e se encrudesce ao longo dos muitos anos desde que a criança vai sonolenta para o jardim de infância e, ao longo de muitos e ininterruptos anos, vai assimilando fragmentos inúteis de muitas teorias, incorporando práticas segregadoras, aprendendo a competir, a neutralizar a vontade  e a aplaudir algozes. E um dia, é, claro, isto explode corporificando a mesma violência que agora queremos combater, só que agora, de forma física, concreta e muito mais ampla, pois se multiplica pelos inúmeros impulsos que foram recebidos os seus impactos quer seja na imposição de regras e normas, no não ouvido, no ponto tirado na humilhação sofrida e da qual não foi possível se defender e talvez estamos fazendo isto da forma mais incoerente. O que apresentamos pode ser considerado sim – em especial pelos mais céticos – como um conjunto de detalhes sem importância. Mas não podemos nos esquecer que como “aqueles outros detalhes que aqui combatemos” juntos e operacionalizados repetidamente eles irão fazer a grande diferença. A diferença feita para o bem. Pode parecer que não mas é uma diferença que também conta.

Ai vem a pandemia da Covid 19 que reforça todo este estado de coisas. Enfraquece as relações, anula vontades e desejos, enlouquece as pessoas. Acirra a violência e faz com que a principal função de todos os envolvidos com a educação seja superá-la, o que começa com o combate à causa de tudo isto que é, justamente, a violência simbólica e pedagógica. A violência do intelecto com a qual a escola sempre  trabalhou e se  fez presente na vida das pessoas durante os séculos infindos de sua história. Mas que, agora precisa, necessariamente de chegar ao seu final e para tanto os educadores devem refinar seu olhar, superar a dificuldade de perceber as múltiplas violências que eles próprios promovem, mudando, com a urgência possível, alguns pressupostos e muitos paradigmas.

Claro que a escola prescinde de limites, sem os quais inexiste a organicidade. A diferença é que em termos educacionais, ao invés de impostos estes mesmos limites precisam ser, efetivamente, negociados. No cômputo da não-violência ninguém, nem mesmo o aluno cumpre normas que não ajudou a construir. Faz-necessário que a vontade, o desejo de todos estejam presentes na definição de tudo o que irá acontecer naquele ambiente ou em decorrência dele. Assim,  a liberdade , a flexibilidade devem fazer parte dos contextos éticos das definições das coisas que acontecem ou não, com o que parece-me a comunidade escolar não está acostumada e ainda combate com veemência total a este tipo de coisa.

Horários flexíveis e negociados, professores escolhidos perante trocas, conhecimentos, conversas e adesões, palpites de ambas as partes. Participação efetiva da família e do próprio aluno nas decisões das escolas, minimizando os antagonismos brutais que acontecem. Ninguém obriga ninguém a nada. A chamada deve ser substituída – ainda que gradualmente – pela qualidade das aulas, a ludicidade dos encontros, as surpresas, as novidades, os encantos. O aluno precisa desejar ir para a escola e se sentir feliz e realizado dentro dela. E, de preferência, ficar chateado por ter que ir embora.  Deve-se estudar sim, aquilo que agregue valores que  interessem, que contribuam para a felicidade, a realização enquanto sujeito, pessoa, autor e ator da própria história e não ao contrário. Ritmos, estilos, formas de aprender, desejos, metas, dificuldades e facilidades precisam ser conhecidos e considerados no entendimento de que cada indivíduo é um universo diferenciando, não podendo, como dizia Paulo Freira, engessar métodos; vestindo em todos uma roupa de tamanho único que serve para todos mas que não fica bem em nenhuma pessoa.

Quem é violentado, violenta. Existindo aí, naturalmente, uma proporção geométrica que empurra para mais e maior o próprio processo violento. É muito mais fácil do que se imagina, e, diria até, automático que o violência simbólica – intelectual,  psicológica, etérea, não-física e não-perceptível se transforme na violência concreta, palpável, sangrenta, criminosa. Quem tem, por exemplo, sua vontade descumprida quer gritar. Quem ouve o grito precisa urrar, dar uns tapas. Quem recebe o tapa distribui palavrões e murros e daí para o “tiro facada e bomba” pode ser sim, uma questão de segundos.  E assim se propagam as dimensões do crime, das guerrilhas, das dores e toda a sorte de sofrimento. E nossas escolas, infelizmente, estão cheias disto.

  Vestir-me  do jeito que não gosto e o que não foi-me perguntado se agradava ou não é, sim, um tipo de violência. Julgar é violência. Dar ou tirar notas, pontos, é violência. Reprovar é violência. Impor regras e normas, conteúdos e assuntos, espaços, colegas, professores, enfim, tudo o que não é escolhido por consenso violenta o sujeito. Em contrapartida, o capitalismo opressor e periférico só sobrevive  com estas e as violências outras, das quais e com as quais sobrevivem as escolas  que se transformam, a cada dia em odiosos calabouços, sendo esta a percepção que devemos ter e a atitude que devemos tomar. Não dá para servir, há um só tempo a dois senhores: ou trabalhamos pela dimensão exploradora do nosso sistema econômico sendo, profundamente violentos em todos os sentidos ou tenhamos a exata convicção do que devemos mudar. E a violência na escola e na sociedade, enfim, poderá ser superada e vencida.  É tudo uma questão de consciência. A consciência da certeza da necessidade de mudar. Mudar ontem.

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(*)Antonio da Costa Neto é professor aposentado, pesquisador, consultor em programas de educação, atualização de professores. Fundador do Instituto Humanizar – assessorias especiais para programas de educação. Autor de livros e artigos. Contatos para consultorias, pesquisas, cursos, palestras, seminários e afins:  antoniodacostaneto@gmail.comwww.mudandoparadigmas – WhatsAap: 61 99832 25 37

 

 

 

 

sexta-feira, 18 de março de 2022

PAULO FREIRE E O RETROCESSO PEDAGÓGICO: QUEM SERIA O VERDADEIRO INIMIGO?


 

PAULO FREIRE E O RETROCESSO PEDAGÓGICO: QUEM SERIA O VERDADEIRO INIMIGO?

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Por:

Antonio da Costa Neto

 

Realmente, encantei-me com a beleza, a elegância e a densidade do texto do Professor Edmar Camilo Cotrim, brilhante doutorando em educação, silvaniense de renome e júbilo, intitulado: Paulo Freire, o inimigo. No qual traça uma muito bem elaborada rede sobre as críticas feitas ao grande Paulo Freire, no que concordo plenamente, em gênero, número  grau e em algumas circunstâncias.

 Modestamente, considero-me um profundo conhecedor da obra freireana e a divido em três blocos segundo uma linha de pensadores que seriam: A pedagogia do oprimido; A pedagogia da Autonomia; e, um terceiro momento a que denominamos de A pedagogia da esperança. E, logicamente, que, no seu maravilhoso conjunto propõe a libertação de oprimidos e opressores do jugo abusivo de uma sociedade cruel e injusta, no que, pelo que mostra a realidade parece que Freire fracassou. Mas será que foi ele mesmo?

Paulo propõe, sim, a libertação de oprimidos e opressores, pois não poderia cair no lugar comum, de por sua vez, ser excludente. Sua pedagogia é para libertar a todos, embora, de formas diferenciadas,  de forma a aliviar as tensões abusivas da competição e do ganho a qualquer custo, mas, dando a todos o direito de voz, vez e condições de vida, bem ao contrário do que aí se agrega na pedagogia burguesa com vistas a resultados que, via de  regra, não beneficia mais ninguém. Acumula lucros, violência e socializa fome, miséria, opressão. Sendo, portanto, necessário a salvação de todos deste turbilhão de coisas que se amontoam, historicamente, construindo o caos.

Pois bem, Paulo Freire é sim,  inequivocamente, o maior defensor da educação libertadora, utilizada como instrumento para desenvolver nas pessoas o senso crítico, a visão política, a autonomia ética, humana, econômica e social. Enfim, a educação que, na sua conduta, forma – e não deforma o cidadão.

Paulo Freire inseriu os temas mobilizadores trabalhando palavras do contexto vivo do universo de seus alunos, ativando, com isso, o raciocínio abstrato necessário à compreensão de tais fenômenos. Lembro-me de uma crítica muito importante que ele fazia sobre a frase, por exemplo: “Eva viu a uva” – utilizada nas então cartilhas de educação de adultos e que não motivavam nordestinos que só conheciam Marias, Sebastianas, não Evas; e que, nem sabiam o que era uva. Claro, concordo muito, pois este é um fator que eleva a consciência, o senso, quando se estuda a palavra tijolo para quem trabalha com tijolo e a palavra roupa para quem lava roupas, por exemplo. Partindo daí para temas mais eloquentes, mais profundos como as descobertas dos próprios direitos e de si próprio como cidadão, agente, ator da sua história. Pois, segundo o próprio Freire, “descobertas se fazem descobrindo”.

Mas penso que com o propositor texto do Prof. Edmar nós poderíamos inaugurar uma nova era, uma outra pedagogia, A Pedagogia do Cinismo. Pois, diferentemente, de quem ousa escrever sobre Paulo Freire, ele teria hoje como elo motivador palavras como política, ideologia, economia, capitalismo, comunismo, coisa que, aliás ele sempre discutia, um pouco diferente de certas constatações. Claro que Paulo, exilado e subversivo aos olhos dos tradicionais donos do poder, que em nada eram diferentes dos atuais, não poderia se declarar comunista, pelo óbvio amor ao seu pescocinho. Evidentemente.

Muito interessante o cinismo pedagógico de quem escreve enaltecendo a coragem e a ousadia libertadora de Paulo Freire, quando na prática se exclui, expulsa propostas e ações que referendem a autonomia, a livre expressão do  pensamento seja ele qual for. Vivemos, afinal numa sociedade supostamente democrática, até como merecida conquista de muito do trabalho educacional de Paulo Freire, suas publicações e ideias. É o refratarismo conservador, elitista, burguês na prática, para se delinear na reflexão teórica bonita, contundente, mas, por força das circunstâncias, antagônica e vazia. O famoso falar em mudança para evitar a mudança com o que se aprazem os céticos conservadores de plantão que negam no cotidiano o que afirmam nas letras.

É lógico que atenua a dor, o sofrimento, a maldade falar bonito para fazer feio. Não me refiro aqui em absoluto ao Edmar como autor do texto; mas ao fracasso retumbante da educação e da escola depois de tantos esforços, tantos louros, tanta força para o diálogo. No discurso buscamos a libertação, a construção por meio do ato educativo de uma sociedade melhor, mais justa e mais humana. Mas pelo que nos parece, ajusta-se ao contrário frente aos dias amargos em que gente vira gado, o que também aparece na sua contundente crítica.

Penso, finalmente, que o Edmar abre aqui uma comporta para o diálogo e a reflexão, dentro da qual espero que venham sucessivas respostas. Chega destes absurdos. Temos, sim, que ser rápidos no gatilho contra sandices como estas. Parabéns ao Edmar pelo belo e contagiante texto. Quanto a Paulo Freire, coitado, deve estar dando voltas no túmulo, aos vômitos, reclamando do muito que falta para que ele seja, de fato, compreendido. E como ele próprio se referia com seu aguçado humor nos debates finais de suas conferências. Sorrindo ele sempre dizia entredentes: “Na prática a teoria é outra. ”

 É, de fato. Mais uma vez o gênio brasileiro  tinha toda razão. As pedagogias o cinismo, da opressão e da violência, de fato, se fazem muito mais presentes no campo da educação e da escola. Discursos bonitos “tapando com peneira” práticas  funcionalistas, liberais, burguesas, sem rumo e sem propostas. Mas um dia, não sei quando, Paulo Freire deixará de ser considerado nosso inimigo. E nós então, os identificaremos um a um. Apesar das máscaras.

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Antonio da Costa Neto – educador silvaniense, mestre e doutor em sociologia da educação pela Universidade de Brasília  - autor de livros, artigos e projetos educacionais pelo Instituto Humanizar – Assessorias Especiais para Programas de Educaçao – Especial para o Jornal A Voz.  

sábado, 15 de maio de 2021

Passagem das Horas (Álvaro de Campos)



 Passagem das Horas (Álvaro de Campos)


Não sei sentir, não sei ser humano,
não sei conviver de dentro da alma triste,
com os Homens, meus irmãos na Terra.
Não sei ser útil, mesmo sentindo ser prático, cotidiano, nítido.
Vi todas as coisas e maravilhei-me de tudo,
mas tudo ou sobrou ou foi pouco, não sei qual, e eu sofri.
Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos.
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.
Amei e odiei como toda gente.
Mas para toda gente isso foi normal e instintivo.
Para mim sempre foi a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.
Não sei se sinto demais ou de menos,
porque a vida, de tão interessante que é a todos os momentos,
a vida chega a doer,
a enjoar,
a cortar,
a roçar,
a ranger,
a dar vontade de dar pulos, de ficar no chão,
de sair para fora de todas as casas,
de todas as lógicas,
de todas as sacadas
e ir ser selvagem
entre árvores e esquecimentos.

sexta-feira, 14 de maio de 2021

O LADRÃO DE BISCOITOS - Original de Valerie Cox - Tradução livre de Antonio da Costa Neto

 




O LADRÃO DE BISCOITOS

Original de Valerie Cox

Tradução livre e adaptação:  Antonio da Costa Neto

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Ela havia chegado, pelo seu tempo, já meio atrasada naquele aeroporto imenso, movimentado cheio das pessoas mais diferentes. Eram barulhos estranhos, música alta e o cheiro misturado das comidas que eram servidas nos bares, lanchonetes e restaurantes que rodeavam aquele ambiente em que estava naquele momento. Corria louca para o angar, procurando o portão do seu vôo, carregando malas, sacolas e demais apetrechos, já com o coração saindo pela boca. É quando vem do auto-falante a notícia de que o seu avião estaria atrasado, talvez por hora, talvez por mais.

Era uma notícia boa e ruim ao mesmo tempo. E como não restava nada a fazer, respirou fundo, examinou seu relógio de pulso, dourado, encantador e que herdara de sua avó materna. E teve até, num lampejo lembranças dela, brotando em seus lábios um leve sorriso de saudade. Olhou em sua  volta e deparou com convidativos bancos de madeira onde poderia, finalmente, sentar-se, aguardar a sua hora, ler o jornal, ligar para as pessoas, pensar na vida, enfim. Aproximou-se então de um deles e ali depositou com cuidado suas bolsas, valises, pacotes, encomendas, aliviando seu corpo do peso e da pressa que eram, afinal, parceiros de toda uma vida,  em que, conforme dizia, desancava carregando pedras.

Foi aí que se lembrou que estava com um pouco de fome e que seria bom se divertir com o gostoso troc-troc e a crocância nos dentes daquele biscoitinho de polvilho que tanto gostava e que, aliás, traria mais lembranças de sua saudosa avó que há tempos, havia partido. Seria maravilhoso repensar tudo, visitar o passado e degustando aquele biscoito que fazia, sim, parte da sua infância, dos bons momentos da sua história. Assim, foi até ao quiosque mais próximo, comprou um belo e transparente pacote dos seus preferidos, com gostinho de sal e aquela pimenta suave que encantava com o sabor e o revestir das lembranças. Relembrando seu passado. Matando saudades.

Estava ali sentada, perdida em seus pensamentos, quando chega um simpático e bem vestido senhor. Os dois se olham, trocam cumprimentos e meia dúzia de palavras sobre vôos, horários, partidas. Ele pede licença e senta-se ao seu lado e os dois começam a devagar, por  instantes, cada um em suas reminiscências.  Quando ele, inesperadamente, de forma lenta  e educada, enfia a mão no pacote de biscoitos que estava no banco entre os dois e saboreia com um ar de alegria o biscoito estalante. Ela, vendo e ouvindo aquilo, achou estranho, mas não disse nada. Pegou também um biscoito, comeu, ainda pensativa no ato, que embora simples, não esperava daquela pessoa. Mas, tudo bem...

Eis que o homem, mostrando gostar da iguaria, pegou educadamente mais um biscoito e começou a comer. Aí sim, ela achou mais estranho, franziu a testa e se apressou em apanhar o terceiro biscoito, sempre surpresa com atitude impensada e até meio desrespeitosa daquele senhor com aparência doce, educada, e,  a princípio, muito especial. Continuaram, como que, naturalmente aquela façanha gastronômica. Na medida em que o homem pegava um biscoito, ela pegava outro. E até dava um sorrisinho desconfiado para o homem, no que era correspondida e cada vez entendia menos. Assim, foi-se o tempo e perdida nos seus pensamentos, nem percebeu que agora já era chamada para o seu vôo que sairia quase que de imediato.

Ao recolher seus pertences, viu que sobrava no pacote um último biscoito e tratou de comê-lo rapidamente, pois, ao menos, teria aquele direito. Retirou o biscoito, amassou o saco de plástico transparente, jogou-o no lixo e saiu apressada para pegar o seu acento no avião sob pena de perder aquele vôo já tão esperado. Fez questão de nem se despedir do seu sócio indesejado de sua iguaria - ao menos isso. Enquanto buscava a aeronave pensava no quanto as pessoas são estranhas e folgadas. Faltava, de fato, educação e costumes, ainda mais para alguém tão sóbrio e que demonstrava aquela sensatez toda.

Ao abrir o  porta-malas superior do avião que já se movimentava no pátio pronto para alçar  vôo e que ela ia colocar a sua sacola no alto, eis o susto: - Viu o seu pacote de biscoitos ali inteirinho, intacto, intocado. Percebeu, então que não era o homem, mas ela o ser sem educação, invasivo, sem respeito ou cultura que invadira, sem a permissão ou consentimento o território, a privacidade alheia, ainda, comendo o  último biscoito e jogando, atrevidamente, o pacote que não era dela no lixo, saindo dali, duramente, sem se despedir. Se arrependia profundamente de tudo e daria tudo para poder voltar onde estava o homem para desfazer, dentro do possível o pior de todos os enganos de sua vida.

Repensou tudo naquele momento e um gelo inexplicável subiu-lhe pela coluna. E ela cheia de vergonha e do desejo, agora impossível, de abraçar aquele homem, oferecer-lhe o pacote inteiro e pedir-lhe milhões de desculpas. Mas era tarde. O avião já estava no ar e ela não tinha e não teria nunca mais aquela pessoa ao alcance dos olhos. E tudo  era desesperador, tendo que se acostumar com a realidade do caminho sem volta e, de repente, nada mais poder fazer como em muitos desafios da vida.

Ficou com tudo isso a lição para o não julgamento de nada, nem de ninguém. Que, por mais que nos surpreenda, conscientemente, ou não, o errado poderemos ser nós, com ações, palavras, pensamentos e às vezes já tarde demais ou impossível, o se desculpar, ou o refazer o mal, o erro ou a grande injustiça que podemos estar cometendo.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

SUPERANDO A PANDEMIA DO CORONAVIRUS

 SUPERANDO A PANDEMIA DO CORONAVIRUS




Eu penso que a superação da pandemia do coronavírus apenas será possível com uma profunda modificação de sentimento, almas e ações. Precisamos de uma outra cultura, outra educação, outra escola, outra família, outra política, outra economia que possibilitem este salto milagroso para a humanidade. Até agora fizemos tudo ao contrário e deu no que deu. Mas as pessoas ainda resistem duramente a esta mudança, mesmo as que se consideram boas, progressistas, honestas, amorosas.
Ainda pensamos no sentido contrário. Enquanto temos que pensar, falar e agir de uma forma amorosa, verdadeira, humana, plena, voltada para o bem estar de todos ainda somos competitivos, subservientes, mesquinhos, covardes, medrosos, cínicos, ignorantes políticos, egoístas, beneficiadores dos mesmos e desgraçando a vida da vasta maioria. Falta tudo para começarmos o caminho de volta, infelizmente. Talvez daqui há uns 100, 200, 3000, 5000 anos. Talvez nunca. A humanidade é, de fato, um projeto de Deus que não deu certo. É preciso recomeçar tudo.