quinta-feira, 5 de setembro de 2013

EDUCAÇÃO E ESCOLA PARA QUE E PARA QUEM? CONTRA O QUE E CONTRA QUEM?


EDUCAÇÃO & ESCOLA:
PARA QUE E PARA QUEM? 
CONTRA O QUE E CONTRA QUEM?

 Antonio da Costa Neto

As raízes da crise na educação brasileira vêm, logicamente, desde que ela foi criada para a manutenção do paradigma colonizador e explorador europeu. Fundamentada, posteriormente, na ideologia norte-americana, que as fortalece, estabelecendo o ensino como mercadoria e a escola como fábrica de operários e de consumidores em potencial. Pois, quem subjuga o trabalho e o pão, tem o controle e dita as normas, no sentido de garantir e ampliar as suas próprias benesses, e, assim, sempre. Ou seja, escola e educação fundem-se em uma única instituição burocratizada e antagônica aos interesses do projeto social maior. Mantida para gerir modelos econômicos internacionais e os interesses das elites capitalistas de todo o dito mundo civilizado.

É urgente a necessidade de se ampliar os laços do compromisso da boa educação com o humano e o social, para a garantia de sua legitimidade. Não podendo mais ter a educação como uma ação fechada num processo mecanicista que a molda, inexoravelmente, para legitimar a acumulação do poderio econômico e cultural, conforme Apple (1989) e, manter, com isto, os privilégios do capital sobre o trabalho e da técnica sobre a vida.

É o contexto das ideologias, que, segundo Chauí (1990), opera, tanto na prática como na teoria educativas, e, que, para entendê-lo precisamos de outro olhar muito mais concreto para dentro da vida das instituições que formatam a educação e fazem-na acontecer. Constatando, assim, o seu esmagador poder de controle sobre as pessoas. O que acontece, não apenas por meio de currículos e conteúdos, mas nas suas múltiplas e dissimuladas formas de ação e de metodologias de ensinar e de aprender, associando-se a isto, a sua cultura, a sua negação de um projeto, enfim, o clima e o cotidiano das escolas “educando os indivíduos” para comandar e controlar massas sociais inteiras. Mantendo e classificando como normal a exploração de poucos sobre muitos, e, logicamente, as suas consequências em todos os segmentos da vida.

Precisamos, com urgência, perceber a progressão histórica de nossa formação. E, sem sermos reducionistas, compreender nossas mudanças históricas, crises e associações feitas no conteúdo e nas formas ideológicas; paradigmas, que são, em parte, gerados pelas escolas e por elas, perpetuados, na maioria das vezes, de maneira ingênua, e, até, inconsciente. Assim, de acordo com Santiago (1996) a educação facilita os processos de organização e controle do trabalho na sociedade. Entre eles a separação – e a valorização – entre o trabalho manual e o intelectual. O divórcio entre a concepção e a execução está sempre constituído sob formas complexas e paradoxais na educação, até o presente momento. O que requer medidas corretivas eficientes e mais do que imediatas. Como no dito popular: para ontem.

As escolas parecem fazer uma série de coisas com vistas ao desenvolvimento das pessoas e da sociedade como um todo. Mas, na verdade, elas são órgãos reprodutivos do caos e da exploração, na medida em que ajudam a selecionar e a titular a força de trabalho. E elas, sem que percebam, fazem mais do que isto. Ajudam a manter os privilégios por meios culturais; ao tomar a forma e o conteúdo da cultura e do conhecimento dos grupos poderosos e defini-los como um conhecimento legitimo, a ser preservado e transmitido a todos. E o fazem com a maior eficiência – o maior cinismo – nos métodos que dissimulam com a muita naturalidade, inclusive. Quando se discutem ciências, tecnologias do conhecimento e coisas afins, parece descabido entender o atraso absoluto das escolas - em todos os níveis - neste sentido. Elas ainda se esforçam, sem que saibam, para manter e ampliar a exploração do capital sobre o trabalho, legitimando a opressão, a hierarquia, a segregação do poder de decidir, do bem-estar  para aqueles que elas, por motivos óbvios dizem existir: ou sejam, os seus alunos. Engendrando, com isto, uma das maiores mentiras históricas que a humanidade ainda conta e faz acreditar.

Elas são, também, agentes no processo de criação e recriação de uma cultura dominante eficaz. Ensinam normas, valores, definições e uma certa ordem que contribui para a hegemonia ideológica dos grupos dominantes. O que tem, inclusive, levado a vida a padrões quase que insustentáveis. Gerando miséria, fome, desemprego, degradação ecológica, violências, crimes, corrupção, apenas para exemplificar. A educação, por seus instrumentos, pode, assim, atuar como legitimadora importante da ordem social existente. Pois, a sua vida cotidiana reforça aqueles valores meritocráticos que justificam a distribuição de recompensas diferenciadas e a separação entre bem-sucedidos e fracassados. Propiciando lições diárias de desigualdades gritantes e de injustiças enormes.

As práticas pedagógicas e curriculares usadas para organizar as suas rotinas são responsáveis, em grande parte, pelos fenômenos que fazem com que os estudantes internalizarem o fracasso. Transformando-os em desajustados, conforme lembra-nos, belamente, em sua conspiração aquariana, Ferguson (2010). Reconduzindo, finalmente, a trajetória da exploração fácil, e, com ela, toda uma crise de valores, em que, enquanto cidadãos do mundo, nos achamos mergulhados. A escola ajuda a retirar a consciência crítica. Bem ao contrário do que pensa fazer e o que tem amplamente divulgado por meios das mentiras operacionais e sua complexa burocracia. Enfim, a escola, como aparelho ideológico a serviço do Estado opressor, exerce uma função que produz agentes e valores, disposições e ideologias “apropriadas”. Transmitidos por formas ocultas – ou paradigmas – para responder aos interesses de uma sociedade e de uma economia iníquas. E, em seu currículo oculto, ela tenta ensinar aos seus alunos com uma imposição particular de passividade, servidão, obediência e outros princípios de raiz de poder e de economia. A verdadeira tarefa dos alunos é a de sobreviver até que o sinal soe (Toffler, 1980).

A análise deste conjunto de coisas pode nos fornecer pistas que nos ajudem a avançar no entendimento, tanto das funções sociais da educação e da escola, quanto dos valores por elas promovidos. Devemos entender, portanto, que o seu único, ou, pelo menos, o seu maior problema, é o ideológico, o que é bem o discurso do conhecido e respeitado Senador da República, Cristóvan Buarque. Sendo esta, uma grande questão de paradigma. E, somente, tendo uma visão muito mais refinada do que realmente as escolas fazem, na teoria, na prática, nas suas políticas e diretrizes, é que poderemos a começar a lidar com a série de mudanças que estão sendo aqui propostas. Precisamos entrar na escola e observar tudo isto de frente, sem medo, ou restrições. Analisando o funcional, o político, sua filosofia, seus interesses, para o quê, os educadores e pedagogos - principalmente estes - precisar despir suas máscaras de incautos e inocentes revestida na brilhante lavagem cerebral com que a absoluta maioria das faculdades de educação os (de)formam para tal embate . Devemos descobrir que significados, normas e valores os estudantes, professores, técnicos, auxiliares, diretores e todas as pessoas, realmente, nelas experienciam. Apenas pesquisando esta série de fatos é que poderemos começar a agir. E, para isto, falta muito para formatarmos a nossa visão e a nossa consciência. Por enquanto, nós educadores somos uma massa humana ingênua demais neste sentido, o que, é claro, faz com que sejam cumpridos os princípios ditos educativos com os quais deleitam o estado opressor e ocultamente escravocrata. Só não enxerga quem não quer (Costa Neto, 2009).

Não é necessário grande esforço para observarmos que a educação em geral e a escola, em particular não avançaram dentro desta filosofia ao longo dos séculos de história. Pelo contrário, todo o esforço é feito para dissimular este vergonhoso atraso.  Elas não evoluíram tanto quanto as demais áreas da atividade humana, mas conseguiram fingir e representar bem demais. E o pouco modificado, o conservador cotidiano da escola, ainda é o mesmo de muitas décadas, séculos, talvez milênios, se relativizarmos o entendimento de tal denominação. Claro que elas possuem hoje outros métodos e sofisticadas técnicas, não há dúvidas, mas, infelizmente, para, no final das contas, fazerem a mesma coisa de sempre: alienar, treinar, aniquilar consciências, facilitando a exploração, a centralização de regimes e domínios, dando a isto uma faceta aparentemente humana, socialmente justa, e, acima de tudo, democrática (Migliori, 1993).

Entendemos que as atuais dimensões da sociedade requerem, também, uma outra filosofia de educação e uma outra proposta de escola radicalmente diferente do que a que aí está e com a qual, covardemente nos acostumamos. Que estabeleça novas relações entre professores e alunos e uma concepção diversificada de conteúdos, ciências, conhecimento e aprendizagem. Em essência, a escola não evolui. Ela foi feita para isto: a estagnação, a segregação. Legitimando no seu cotidiano, as injustiças sociais mais grotescas para os tempos de hoje. Deste modo, as escolas, assim como estão constituem um mal ou um bem? Aí temos uma boa reflexão. Elas mais atrapalham do que ajudam na tão esperada evolução da sociedade. Pois, refinam e eternizam dissimuladamente, a ganância, a exploração, a desordem. E disto, nós educadores deveríamos nos envergonhar. Mas, ainda não tomamos nem conhecimento de tal realidade de que as escolas mais conformam e deformam, do que, propriamente, formam seus alunos.

Trata-se, como já dissemos, de um problema paradigmático. Ao mesmo tempo, metodológico, filosófico, político, operacional, ou seja, um problema que envolve todos os aspectos e esferas a um só tempo e que requer, para a sua solução medidas e princípios aplicáveis, no mínimo, do mesmo modo. Não dá para solucionar problemas gerais e tão amplos com medidas segmentadas e partidas como insiste, há décadas a forma de gerir e administrar a educação e a escola, o que, cegamente, as universidades ensinam, justificam e adotam, frente aos seus fins eminentemente  burgueses e inconfessáveis. E, conforme o percebemos, a partir dos seus pressupostos ideológicos, ainda crus, embrutecidos desde a idade média. A questão é ampla e difícil, envolvendo teoria, prática e práxis. O que está muito além da mera aparência. Trazendo constatações filosóficas, éticas, políticas, sociais, humanas, além, é claro, daquelas marcadamente, econômicas. Sendo esta a complexidade que denominamos de paradigma, e, para muda-lo é que aqui buscamos e propomos novos caminhos, outras alternativas.

Tais problemas tomam dimensão de desafio na superação do dilema: como formar pessoas que pensem que participem, que argumentem, que construam a realidade com a qual sonham e, ao mesmo tempo sejam servis, obedientes e serviçais à causa dos comandos hegemônicos que aí estão? O remanescente capitalismo selvagem, explorador e periférico precisa de pessoas que pensem, reflitam, saibam, mas que sejam, igualmente, facilmente exploradas, omissas e subservientes. Aí caímos num mistério e num desafio dialético impossível de serem solucionados pela nossas limitadas lógica e razão. Está fora de cogitação constituirmos este duplo milagre sendo, justamente, desta ignorância que padecem as escolas e seus comandos, daí a eternização dos problemas e do caos.  Aí passamos por um momento crítico em que se vislumbra a profunda necessidade de reorganização dos conhecimentos, com outra dimensão bem mais complexa, buscando, assim, um Paradigma Novo e quando falamos disto não estamos nos referindo às inquietas repetitórias das meias mudanças educacionais e pedagógicas que são a forma mais eficiente de não se mudar nada. continuando a mesmice menos que ridícula.

As pesquisas e o bom-senso têm demonstrado que os investimentos que precisam ser feitos são aqueles marcadamente afetivos, humanos e emocionais, calcados, sim numa perspectiva crítica e política também radicalmente nova - sem o que, aliás, de nada adiantarão. Uma vez calcados na consciência político-ideológica do que, como e para que fazer em educação. Remodelando as práticas pedagógicas e curriculares em todo o seu âmbito. É preciso que tenhamos consciência do para que e para quem; contra o que e contra quem podemos estar trabalhando enquanto educadores. Vivemos, ainda, sob um emaranhado técnico, metodológico e operacional que já deu suas contribuições possíveis. Sendo fundamentado para ser posto em prática nas dimensões e momentos históricos já vencidos e superados. É, portanto, necessário mudar. Revolucionar, quebrar o arraigado senso-comum. Adotando, por fim, um novo paradigma melhor e mais crítico, aberto, dinâmico, humano, sistêmico, flexível - falamos, portanto de uma verdadeira revolução cultural na educação e na escola e, não mais, de antiquadas, babentas e mancas pequenas mudanças que precisam de bengalas e óculos, e mesmo assim de nada servem e não levam a lugar algum. Propomos uma revolução cultural  que busque, por si, a felicidade de todas as pessoas. Sem o quê, podemos estar fazendo tudo, menos, educação. E os avanços do nosso tempo não mais permitem aos educadores tamanhas omissão, covardia, enfim, ignorância política.

O modelo educacional que temos não serve às transcendências milenar e secular em que estamos vivendo. É preciso reverter não só a ordem, como também a filosofia, os métodos, os princípios e os valores. Os  componentes todos que se mostraram eficazes até agora, estão dando sinais da mais absoluta necessidade de  superação, de substituição por outros mais eficientes e eficazes, definindo a complexidade de quem educa quem e para quais fins no real concreto da sociedade isto é feito. A centralização do poder, o raciocínio linear, a manutenção dos privilégios de poucos, a partir das concepções normativas de uma competição arraigada e inconsciente  precisam ser suplantados em todos os setores da ação humana, sendo, na educação é que o passo inicial deve ser dado pois é nela que eles são apreendidos para que sejam implantados na prática social em todo o curso da história da humanidade (Chomsky, 1995).

Assim, aluno que aprende construindo, aprende a construir e o que aprende com o já pronto e construído aprende a se omitir, se acovardar dentro da zona de conforto que é criada de conformidade com as condições e a realidade de cada pessoa. Sendo esta, embora no meio de um monte de subterfúgios técnicos, a forma de educação que temos  E, assim, para aprender a  reivindicar, questionar, criticar, mudar. Constituir seus sonhos e desejos. Tornando-se agente de sua história pessoal e social temos que, da mesma forma, transformar os meios e as formas de se fazer educação. A energia planetária clama pelo equilíbrio na distribuição dos bens, dos direitos e do resgate da qualidade de vida de todos. E, embora as elites sequiosas por ter e pelo comando, ainda teimam em aperfeiçoar seus estilos de competir e ganhar sempre: daí a imposição de fórmulas educacionais nocivas, inumanas e ainda hoje, mantidas. Enquanto que o instrumento preciso e inadiável é a cooperação entre todos e por todos. Numa abordagem muito mais ampla, complexa, coerente. É, encima de tais proposições, que devemos nos debruçar com a máxima urgência.

Existe aí uma linha tênue e invisível que define ideologia, educação e a constituição da chamada nova ordem mundial em seus valores teóricos e práticos. É o que nos diz Bordenave (1972). Conduzindo, assim, as condições de vida das pessoas. O que só pode fazer perpetuar a exploração, a fome, a miséria, o pensamento e a ação humana contra a vida e a natureza, em síntese, o caos que a humanidade, sem que saiba, premedita em quase tudo o que faz. Ensinar e aprender são princípios e definições marcantes e definitivos neste grande processo que é a vida e as suas circunstâncias todas. O que fica, patentemente demonstrado nas inúmeras pesquisas que são feitas por estudiosos e instituições mundialmente respeitáveis, como podemos constatar a qualquer momento. O que nos dá a certeza de que a forma de se educar as pessoas é ponto fundamental na definição dos rumos e do destino do planeta. Pois atua, por si mesma, na construção da personalidade dos seres que nele vivem e que conduzem a sua história pela ação, a destruição, ou mesmo, se omitindo em fazê-lo. E tudo isto é o resultado de como cada um se educa, ou, em última análise, é educado mais diretamente pela escola, o que se completa com as relações com o mundo, a cultura, a mídia, a religião, crenças, valores, ética, etc. E que depois, alia-se à corrente humana, em princípio, amorfa, mas na verdade, é a diretamente responsável por tudo o que acontece - ou deixa de acontecer. E esta é uma matemática simples e para entendê-la, havemos de deseja-lo profundamente. Mas, pelo que nos parece, ainda não é o caso. A maioria dos educadores não acordou para isto. E os poucos despertos não estão, nem estarão, nem a curto, nem a médio prazos, suficientemente preparados, tal a gravidade da situação com que lidamos.

O paradigma da elaboração unificada de políticas, diretrizes, administração educacional, práticas educativas e curriculares, sendo tudo definido e construído por todos é o caminho possível para a busca da solução para os problemas da educação formal das pessoas e da vida no cotidiano das escolas. A saída é pela construção coletiva de todos os processos educativos em todos os momentos e lugares sociais. Falamos aqui de educação para abrir, e, não, para filtrar e manipular consciências, criticidades e possibilidades outras de intervenção no mundo. Portanto, conforme nos lembra Freire (1992), os princípios norteadores de conhecimentos interessantes e interativos ao contexto vivencial de quem ensina e de quem aprende validam esta experiência. O uso de metodologias promocionais e assertivas complementa a caminhada. Avaliação e promoção humana para construir seres humanos mais inteiros abertos, críticos, perspicazes, vivos e felizes, são talvez as conquistas mais urgentes, importantes e necessárias que devamos fazer em educação. E não mais, aperfeiçoar as metodologias avessas a tudo isto,  falamos de mudança, e, não, de meros aperfeiçoamentos, inovações, meias-verdades que em nada contribuem, servindo apenas para enganar.

E só então, partirmos para os embates mercadológicos, econômicos e trabalhistas, cuja importância, é claro, não podemos negar. Mas, tais elos se articularão harmoniosamente, respeitando a inteligência e as formas naturais de aprender e de se educar das pessoas, sem desrespeitar as suas contingências inconscientes e intelectivas, de forma tão brutal, como a educação tem feito, aliás, com invejável competência. Devemos trabalhar para isto, sim, mas, somente, a partir da construção de personalidades mais inteiras, íntegras, humanas, competentes e solidárias frente às exigências do momento histórico em que vivemos e suas perspectivas futuras. Este é, a nosso ver, o objetivo; a grande meta da educação com a qual, sonhamos. Dizemos que fazemos, mas, negamos tudo nas nossas práticas e táticas. Na medida em que estupramos de forma muito mais do que cruel nossas cabecinhas inocentes, no ímpeto de prepará-las para o mesmo mercado que renega as suas vidas e as consome enquanto mata a criatividade, o senso crítico, o lúdico, o sentimento, enfim, o ser político, deixando-o amorfo, apático, ao dispor de explorações outras.

Ao longo de seu processo histórico, a educação, por meio de suas instituições, mecanismos, recursos e legislação tem primado pelo exercício exclusivo da qualidade formal, e, esta, nós não podemos negar. Pois ela aí está a olhos vistos, por meio da ordem, da disciplina, da limpeza das instalações, das filas quase perfeitas, no cumprimento dos horários, nos diários de classe sem nenhuma rasura, os uniformes escolares impecáveis. O que, na verdade, traduz a qualidade do se diz que faz. Mas falta a essência, a qualidade política, aquela que define os porquês, para que, para quem e contra quem se faz. A educação formal serve, tão somente, para legitimar e camuflar a opressão do Estado: alienar as pessoas e adequá-las aos regimes, domínios e imposições. Em síntese, escola e educação congregam a escravidão moderna, a escravidão de acrílico de que nos fala Gadotti (1997) quando cita o seu refinamento por meio dos controles dos mercados e dos regimentos trabalhistas legais dos tempos de hoje, que, se analisados com sabedoria e sensibilidade, perceberemos o seu lastro escravagista jamais superado.

Por outro lado, existe uma certa cegueira conceitual e prática por parte de seus agentes e usuários que se mantiveram meio que conformados e satisfeitos com seus processos, por séculos a fio, sem entenderem os seus revezes. E isto, pelo menos, historicamente, deve chegar ao fim com o advento do terceiro milênio, da chamada era do conhecimento. A qualidade formal deverá associar-se à qualidade política, em que aparência e essência deverão ser circunstâncias conjugadas, tanto na teoria, quanto na prática. Levando, portanto, à práxis desejada e necessária para que a vida persista com níveis de qualidade proporcionais para todos.

Não haverá mais espaço para apenas se dizer que faz, como aprazem até hoje, os educadores cínicos e céticos; os negocistas que transformam a educação em mercadoria vendida diretamente nas instituições particulares, ou, pior ainda, paga com o suado dinheiro dos tributos e impostos saqueados do cidadão que trabalha, no caso das escolas públicas. Não basta mais o discurso da escola transformadora e cidadã. Ela terá que, para isto, colaborar, de fato, para a transformação da cidadania, em termos qualitativamente, aceitáveis: trabalhando para todos e, não, apenas para aqueles que comandam os regimes. Usando, desta forma, de subterfúgios, métodos e teorias absolutamente enganadoras. Cometendo algo maior que um crime, o que não se descreve dentro da nossa legislação fraca, ultrapassada e, eminentemente, pequeno-burguesa à qual não interessa o entendimento profundo de tais questões, por motivos mais que óbvios.

E isto prescinde de mudança, de planificação dos novos paradigmas. E aqui apresentamos uma das muitas propostas dentro das infinitas linhas de pensamento que existem. Durante todo o tempo a educação se firmou em bases, essencialmente, elitistas e impositoras. A bem da verdade, a educação formal existe para inculcar em todos as ideias e interesses dos poucos que comandam os ditames da vida; o que deverá sofrer uma transformação radical em todas as instâncias. E, portanto, os modelos de escola e de educação que temos, já não servem mais, o que, infelizmente, ainda não é percebido pela vasta maioria dos educadores, mesmo os mais sensíveis e bem preparados. Pois a onda é muitíssimo complexa e mesmo as boas universidades, os excelentes autores e pensadores ainda não conseguiram chegar lá. E demorarão muito a fazê-lo. Talvez nunca tamanha a demanda do capitalismo extremo, este câncer da sociedade.

A escola deverá atuar mais pró (como diz que faz), e, não contra (como faz) aos seus servidores, classe trabalhadora e seus usuários gerais diretos (alunos) e indiretos (comunidade e classes sociais diversas a que julga servir). E não mais, como se repete na história e no tempo de todos os homens e mulheres: inculcando a moral escrava que legitima diferenças, mantém privilégios brutais e dá a tudo isto legitimidade e aceitação por parte da absoluta maioria “supostamente educada”, mas, “vergonhosamente enganada”, pela escola e a educação que temos e que deveriam se ocupar em transmitir e produzir conhecimentos e saberes que sirvam, de fato, a cada indivíduo e a todas as instâncias e demandas sociais. É de que nos fala Brandão (1980) quando retrata que elas se ocupam de instrumentalizar uns a serviço de outros. Culminando na perpetuação dos regimes impostos por sistemas e realidades que queremos transformar. E afirma ainda que ao contrário do que acreditam seus agentes, a educação exerce sua tarefa numa sistemática absolutamente antagônica: perpetuando o que deseja mudar. Chegamos a um tempo em que educação e escola precisam deixar de ser cínicas e imaturas em relação ao que fazem. O que, na verdade, dificulta e inibe os resultados que delas  se esperam. Enquanto os educadores, “altamente preparados” continuam como “criaturas tontas” fazendo a mesma coisa e esperando que tudo seja diferente.

Nossa concepção consiste em partirmos do caos para revigorarmos políticas, diretrizes e propostas na operacionalização de um novo fazer pedagógico. Mas, sim, de forma radicalmente nova, diferente, não só no discurso e muito menos, se utilizando dele para, justamente se negligenciar as práticas pertinentes. Tudo não passa de um embuste, de jogo de palavras, de um conjunto de concepções mentirosas e infiltradas nos surpreendentemente atrasados meios e ambientes educacionais. Pois, disto, já estamos todos muito mais que exaustos. Mas, culminando numa práxis diferenciada. Restaurando a qualidade de vida em termos concretos. Sem o quê, não estamos, em absoluto, educando ninguém. Por ora, a educação se mantém por detrás de um discurso escorregadio que tenta – mas nem sempre consegue – ocultar as raízes de sua própria crise, do seu fracasso histórico. Enquanto isto, o caos se perpetua e se agiganta. É preciso, portanto, transcender a tudo isto e se começar a educar sobre novas bases. Concretizando outra realidade, novo poder, novas relações. Solidificando e solidarizando o viver com dignidade. Ajudando a restaurar, de fato, a melhoria contínua da qualidade de vida humana em sociedade, ou seja, para todos (Mafesoli, 1997).

Ensinar e aprender os saberes necessários a uma vida, substancialmente, melhor. Criando e implementando, técnicas, métodos, objetivos e gestão que facilitem a esta modalidade histórica do que seja educar as pessoas. Tornando transparentes e vivas tais razões e tais momentos. Reconduzindo a humanidade em função dos novos tempos e das exigências vivenciais de um mundo, a cada dia, mais caótico e tumultuado, o que, toda educação não pode se dar ao luxo de ignorar, como aliás tem feito. É preciso transcender, iluminar e conduzir para esta prática que valorize a vida e contribua para que se exterminem as diversas formas de exploração. Construindo reais companheirismos; verdades para além da ciência fria e estereotipada por uma certa ordem que não serve mais a ninguém. Sendo compulsória a necessidade de transformação. A saída do modelo cartesiano de pensar e de fazer educação, para uma proposta aberta, sistêmica, proporcional, integrativa, harmoniosa, lúdica, feliz, em síntese, mudando os paradigmas. O que requer uma atitude revolucionária – sem o pavor desta palavra que, geralmente, temos, pela nossa pequenez, ignorância e covardia – de todos os que, direta ou indiretamente, atuam neste processo.

Necessário se faz a percepção de pequenas coisas, enfim, sutilezas do cotidiano da escola e a brutal crueldade – concreta, simbólica, psicológica ou política – de certas exigências, normas e regras. Mais uma vez refletir sobre a essência e da necessidade de trazê-la à tona. Fazendo-se presente e real, e, não, como mera circunstância que, se por acaso ocorre, é, sem dúvida, para a insatisfação de muitos, tal o nosso atraso conceitual e prático neste sentido. Só assim é que estaremos começando a pensar na verdadeira educação para concretizá-la por inteiro. Sem os paradoxos neutralizadores que veem eternizando suas crises, o seu fracasso desgastante e o seu pleno insucesso no sentido de se preparar as pessoas para enfrentarem com dignidade as agruras da vida, e, se possível e necessário, transformar as relações dos seres com o mundo que os cerca (Habermas, 1990).

 O educar passa, assim, a ser e ter uma função da maior importância para o presente e o futuro da humanidade, em seu caráter formal ou informal. Sendo mais do que o responsável pela simples materialização de relações em contínua evolução entre os seres humanos e os novos saberes e o seu fazer na sociedade passa a  transcender valores e culturas outras. Enfim, modificando as pessoas e suas mentes no sentido de melhorá-las, na medida em que passam a entender a fundo o real concreto que as cerca em todas as dimensões. Aí sim, começamos a falar de educação. E não, da mera instrução funcional e comprometida com a ideologia de poder no exato sentido de mantê-la e ampliá-la nos moldes avessos da exploração que aí está. Que é, sim, o que as escolas têm feito. Deixando, marcadamente, uma horrenda defasagem histórica, na medida em que seus agentes são desconhecedores de tal fenômeno. Sendo apenas isto o que precisa e deve ser superado. E, todo esforço feito neste sentido ainda será pouco sendo necessário um brutal esforço que ainda espera pelo passo inicial.

É necessário compreender que como seres vivos – mamíferos e de sangue quente como tem sido feitas as modernas conquistas da antropologia – nós competimos sempre uns com os outros, seja, consciente ou inconscientemente. O que, pela educação e por meio de sua instituição oficial, a escola; o fazemos de forma implícita e politicamente dissimulada, sem que entendamos tais minúcias. A formação dos educadores quer nas licenciaturas ou pedagogias – diríamos que nestas, até especialmente – encarrega-se de criar este muro divisor entre uma coisa e a outra. O que é feito com espetacular competência e de maneira muito mais que eficiente, nas faculdades de educação alheias ao processo de evolução histórica da mesma sociedade. Elas são, sob medida, alienadas politicamente, o que faz parte de uma ideologia milenar de construção de ricos e pobres, de empregados e patrões, de proprietários e consumidores, cuja máxima exploração é que garante o acúmulo da riqueza e o eterno bem-estar de quem comanda. E isto a escola dramatiza e dissimula o tempo todo dentro do jogo que faz, da disciplina que impõe, das estratégias inumanas que usa. Licenciados e pedagogos tornam-se verdadeiros analfabetos neste sentido e tornam-se, conforme Nieskier(1982) verdadeiros cães de guarda da burguesia dentro e fora das instalações da escola, vigiando, rosnando e mordendo mortalmente quem se atreve a se iniciar contra seus dogmas. Tornam-se inocentes políticos e vítimas fáceis, à medida que se enchem de técnicas e teorias que são manipuladas como recheios mentais para isto.

E se não vencermos esta batalha estaremos esmurrando o vazio quando falamos em busca de solução para os problemas educacionais de hoje em todo o mundo. Sei que muitos educadores ao lerem estas linhas terão o tradicional arrepio na espinha. Terão nojo, asco e até vomitarão de repugnância. É que os trabalhadores funcionais da educação têm sempre, diante desta verdade, a mesma reação dos vampiros que, nas ficções de terror, quando se veem diante da cruz. Mas não sabem – os educadores – que tudo faz parte dos prenúncios ideológicos de um mundo burguês, centralizador, repressor e periférico que insiste em continuar vivendo dando a poucos o poder de explorar e confundir muitos, usando, sem escrúpulos, educação e educadores para tal. Assim, como nas nossas tradicionais salas de aula, por exemplo. É só uma questão de arregalar criticamente os olhos para enxergarmos. Qual o sentido real de grande parte dos conteúdos que ensinamos? Por que se muitos alunos não respondem, nas provas ou lições diárias, o que quer, pensa ou dita um único professor é a maioria que é punida, rechaçada, reprovada, expulsa? Por que as salas de aula são classificatórias, com primeiros, segundos e últimos? Não estariam aí ocultas lições de desigualdades e de uso abusivo do poder que se reproduzem do lado de fora da escola, ou seja, no real concreto da vida de todos nós?

Mas ouse, se for capaz, discutir isto com professores ou pedagogos. Leve, se tiver coragem, tais questões para os encontros, os congressos de educação, as reuniões pedagógicas, ou até mesmo para os sindicatos da classe preparadíssimos para os jogos dissimuladores. Grande parte dos seus agentes são pagos pelo governo, e, evidentemente, cumprindo o seu desejo, mesmo debaixo de uma mácula tendenciosas de discursos e falas belos e edificantes. Certamente, quem fizer isto – como eu, agora – terá motivos de sobra para chorar, se arrepender. Se amargar na solidão e ser excluído dos ditos ambientes educacionais caóticos, confusos e perdidos nos becos mofados da história. É que os educadores – especialmente, os cristãos – como diz-nos Russel (1972), não se cansam de crucificar e destruir seu mito maior para depois santificá-lo em templos, se passando pública e mediocremente, por seus bons filhos, os benfeitores das almas, os salvadores dos homens e do mundo.

Já deveriam fazer parte do passado os tempos em que a educação e o ensino poderiam ser caracterizados como espécies de “camisas de força”. Atuando num processo de contínua manipulação, neutralizando, desejos. Deveriam, tais processos, ser, hoje, personalizados, lúdicos. Transcenderem felicidades, sendo, politicamente, assertivos. Ou seja, realizados em favor de todos e para o proveito real da humanidade, o que requer uma profunda reversão do que é, de fato, feito. E não, de meros aprimoramentos. Mentiras técnicas que são contadas com rigores e metáforas que levam-nos a acreditar nelas. Repetindo, viciosamente, os mesmos ciclos amargos dos destinos da história das civilizações. Deveriam estar fundamentados nos direitos humanos plenos, na alegria, no prazer de se contribuir, de fato, na construção da própria história. Para dela se usufruir, vivendo de forma próspera, bela, cidadã, confortável, e, principalmente, solidária.

Assim, poderíamos, então, começar a pensar e a fazer acontecer, saberes, métodos, técnicas, formas de avaliação, gestão escolar que possam convergir, de fato, para um, ainda utópico processo educativo: o de buscar e contribuir para que germine dentro de cada pessoa todo o seu teor evolutivo. Tornando-a capaz de uma reflexão e ação conscientes que fluam a serviço do todo e de todos. Fazendo melhor o mundo  por meio de nossas melhorias próprias. Afinal, educar não é só enfiar na cabeça das pessoas as letras, os fragmentos das artes, da história, geografia, línguas, literaturas. Fazer reproduzir sílabas e números, agrupá-los e sistematiza-los. Isto é instruir. O que é, miseravelmente, pouco frente a complexidade do ser humano a ser cultivada e florescida para dar frutos numa educação de verdade. Mas disto, a absoluta maioria dos educadores está muito longe de desconfiar, muito menos, de conhecer – eles foram preparados para não enxergarem tal fato. Nisto nossas universidades e faculdades de educação são muito eficientes. E tal superação consiste num desafio interminável. Que é marca de conflito, de luta, de transformações radicais, em síntese, de adoção dos tão discutidos novos paradigmas.

O que significa na prática, ao menos buscar, por meio do exercício educativo formar indivíduos inteiros e contextualizados à dinâmica do mundo. Relativizando as condições, evidentemente, cronológicas, históricas e sociais de cada indivíduo. Daí a complexidade, a diferença, a personalização que, arduamente, defendemos e que devem estar presentes em todos os momentos do processo educativo que mereça esta denominação. Se tal meta não for cumprida, a educação não existe é neutra. Uma ação social nula, vazia, dispensável, e, por isso mesmo, desvalorizada, inclusive, profissionalmente. Tornando comum e normal em termos macro, as contingências e problemas salariais e trabalhistas, cujas discussões ocupam todo o espaço de tais categorias. Mas elas deveriam, antes, corrigir suas falhas gritantes, gravíssimas e, historicamente, acumuladas. Pois até agora, são regiamente pagas considerando a pouquíssima qualidade dos trabalhos educativos que realizam. Sejamos honestos e coerentes com o que gritamos aos quatro ventos para que o mundo nos ouça.

A educação e os educadores precisam deixar de formar, ridiculamente, as elites capitalistas exclusivistas e os ingênuos servidores destas. Os portadores de uma certa subserviência crônica, em absoluto descabida para os tempos de hoje. A palavra de ordem em educação é, por ora, a busca do equilíbrio entre os pólos articuladores das várias realidades vivenciais que integram seus muitos aspectos: individuais, sociais, culturais, políticos, ecológicos, dentre outros. E fazê-lo para todos os seres vivos é aí que mora a diferença que renegamos em entender. O que, por sua vez, nos leva a acreditar que buscamos  cumprir a pluralidade democrática tão antiga no discurso, mas ainda por vir no real concreto da vida das pessoas. E tudo gira em torno de um atraso estarrecedor, embora as aparências possam nos enganar. Cabe à educação e à escola desenvolver mentes em evolução tão complexa para tal enfrentamento vivencial, saindo, portanto, da vergonhosa mediocridade que ainda praticam ajudando  a deformar mentalidades, a eternizar subserviências perpetuando no ter e no poder as burguesias ridiculamente materialistas e exploradoras dos trabalhadores, das massas populares: uma vergonha sem precedentes.

Pensando, sistematicamente, a educação, não há como diferenciar, de forma mais ampla, programas, ações e currículos. Pois, tudo se define por uma axiomática comum e transdisciplinar entre políticas, diretrizes, filosofia, planejamento e ação. Tudo num só bloco, como partes que harmônica, e, ativamente, se complementam. Assim como deveriam ser as mudanças educacionais. Não podendo, na verdade, ser operadas de forma estanque e, nem mesmo, gradual, mas simultânea: gerando choques, sustos, provocando o que poderíamos chamar de uma revolução cultural necessária e muito mais que urgente (Postman, 1986).

Neste prisma, entendemos que ciência, educação, óticas novas, tecnologias diversificadas, modernidades outras e tudo o mais que se insere neste contexto caminham para a unidade em busca da perpetuação da vida. Redefinindo os valores necessários e tornando mais translúcidas as soluções para os problemas comuns existentes. Para o que, faz-se necessário colocar um fim definitivo nos comodismos e nas subserviências dos educadores por meio de ações mais conscientes. Afinal, acreditam-se que nós, educadores, somos, até por força de lei, suficientemente, preparados para tal. Formamos uma legião de intelectuais, de graduados para o exercício de tão nobre função. Devemos, então, agir como requerem a dinâmica do mundo atual e as perspectivas do terceiro milênio, da era do conhecimento, dos valores humanos, da pluralidade, da decência, das conquistas dos direitos humanos mais nobres, tão em moda como nunca estiveram antes. Tudo no mundo civilizado acontece a partir dos rumos e comprometimentos ideológicos, no sentido de se mostrar como justas e normais todas as maneiras de exploração, o uso abusivo do poder, a concentração da riqueza e dos privilégios nas mãos de poucos. O que se torna impossível, sem o uso, o abuso e a exploração de muitos; sobretudo, da classe trabalhadora, dos mais humildes, ingênuos e carentes. É assim que se dão as fábricas das leis, dos registros, domínios, estatutos, contratos. É a forma como se constitui a comunicação, a religião, a crença, os valores, a família, as organizações, enfim, tudo.

Conduzem-se as relações humanas para justificar o domínio, o bem-estar, o poder, o status quo dos que dominam o mundo. Na educação não é só assim, como dela é que emanam todos os demais processos para a definição de como se legaliza e se coloca em prática a vida, seus encantos, misérias, dores, conflitos em todo o seu cotidiano. Tudo respira ideologia com base no comprometimento com as elites, com o poder. E, claro, a educação, a escola são os elos onde tudo isto se define. Portanto, elas trabalham contra a vida e a favor do poder. Contra o ser humano e em benefício do capital, seus construtos e benesses. Escola e educação atuam contra quem pensam contribuir. Para o quê, inclusive, manipulam e justificam o uso de técnicas, métodos, programas e ações, que se fundamentam no blefe, no engano, na mentira. Elas ajustam o ser humano para a legitimação do caos. Pois, ele, sendo eterno faz com que se perpetuam benesses e privilégios, para quem, supostamente, se protege e se mantém, ainda que temporariamente, fora da sua esfera.

Nós, educadores, ao contrário do que acreditamos, somos, mesmo, os algozes do mundo. Os dificultadores da vida, legitimadores da dor e do conflito que tanto padece a humanidade desesperada e pedindo por socorro. Saber e acreditar nisto é só o início do diagnóstico, que, embora nefasto é bem mais que necessário como ponto de partida para a recondução da história da educação rumo ao que acreditamos  buscar dentro desta importante área do saber e do fazer humanos. Mas ainda falta muito, talvez tudo. Arregacemos, portanto, as mangas. Respiremos fundo e partamos juntos para o passo inicial. Pois, temos ainda pela frente, uma caminhada bem longa, talvez suada e com muitos sacríficos, aos quais, talvez a maioria de nós não resistirá. Não acredita na sua necessidade. E não podemos de nenhuma maneira, continuar assim, tão ingênuos e inocentes úteis a tais revezes. Mas este precioso embate será repleto de bênçãos e nos conduzirá rumo à luz que alimentará nossos corpos e  almas. Dando-nos o melhor de todos os presentes, que, como bons educadores, passaremos a merecer: a consciência tranquila do dever cumprido. E a certeza de sermos atores na construção da história humana que, embora não saibamos, mas ainda nos mantemos na contramão. Coibindo, talvez, a cidadania, a dignidade humana que julgamos construir. E o tempo presente é, para, no mínimo, acordarmos. Tudo não passa de uma questão de cegueira, ou uma questão de visão e como num processo absolutamente individual, a escolha só pode ser minha, sua, de cada um.

  Referências Bibliográficas:

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BORDENAVE, Juan Diaz. O que é comunicação. São Paulo: Brasiliense, 1972.

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. A questão política da educação popular (coletânea). São Paulo: Brasiliense, 1980.

CHAUÍ, Marilena. Cultura e democracia: o discurso competente e outras falas. São Paulo: Cortez, 1990.

CHOMSKY, Noam. A velha e a nova ordem mundiais. São Paulo: Scritta, 1995.

COSTA NETO, Antonio da. Escolas & Hospícios: ensaio sobre a educação e a construção da loucura. Goiânia: Kelps, 2009.

__________. Paradigmas em educação no novo milênio. Goiânia: Ed. Kelps, 2003.

FERGUSON, Marilyn. A conspiração aquariana: transformações pessoais e institucionais para o Séc. XXI. Rio de Janeiro: Record, 2010.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 1992.

GADOTTI, Moacir. Concepção dialética da educação: um estudo introdutório. São Paulo: Cortez, 1997.

HABERMAS, Juergen. O discurso filosófico da modernidade. Lisboa: D. Quixote, 1990.

LEMINSKI, Paulo. O que fazem a educação e as escolas na intermediação de um mundo em conflito. Coluna dominical de A Folha de São Paulo, agosto de 1975.

MAFESOLI, Michel. A conquista do presente. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

MIGLIORI, Regina. Paradigmas e educação: uma visão de futuro. São Paulo: Gráfica e Editora Aquariana, 1993.

NISKIER, Arnaldo. Pedagogos ou cães de guarda da burguesia? Jornal A Folha de São Paulo, setembro de 1 982.

POSTMAN, Neil. O ensino como ação subversiva. S. Paulo: Mc Graw Hill do Brasil, 1986.

RUSSEL, Bertand. Porque não sou cristão. Rio de Janeiro: Sextante, 1972.

SANTIAGO, Théo. Descolonização. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1996.

TOFFLER, Alvin. A terceira onda. Rio de Janeiro: Record, 1980.


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Por meio do Instituto Humanizar - Assessoria Especial para Programas de Educação - desenvolvemos o Projeto Pedagogia da Felicidade que inclui: palestras, debates, simpósios, seminários, workshops, programas de pesquisas, semanas pedagógicas, eventos, projetos e atividades afins. Conheça nosso trabalho,faça a diferença. Contatos conosco: (61)3274 27 55 - humanizar.0@gmail.com




segunda-feira, 19 de agosto de 2013

12 ESCRITORES QUE DEVEM SER LIDOS, AMADOS E GUARDADOS PARA SEMPRE NO CORAÇÃO DA HUMANIDADE



01 – Nelson Rodrigues

Nelson Rodrigues foi um polemista absolutamente único entre os brasileiros. Suas bordoadas, sempre nas mesmas pessoas e pelos mesmos motivos, eram, paradoxalmente, delicadas como broncas de mãe amorosa – mas convicta e dura. Isso conta muito sobre ele. Nelson Rodrigues, nos combates que travou no campo das palavras, jamais pareceu interessado em destruir seus alvos e nem sequer em batê-los nos argumentos – mas sim em fazer os leitores pensarem, de preferência com um sorriso no rosto. Nelson Rodrigues, e este é um traço seu pouco valorizado, foi um dos melhores humoristas do país.
O humor estava presente em todas as polêmicas que travou – e também nas provocações que fez. Como toda a elite intelectual do Rio de Janeiro de seu tempo, tinha pelos paulistas uma mistura de desprezo, despeito, raiva e admiração. Traduziu tudo isso numa de suas numerosas frases memoráveis. “O pior tipo de solidão é a companhia de um paulista”, escreveu. Só um paulista muito tacanho poderia se sentir agredido por Nelson Rodrigues. Como sempre, a vergastada estava envolta num humor tão fino que subtraía quase toda a contundência – sem minar a essência da mensagem.
Essa grande tirada sobre os paulistas ele, como de hábito, repetiria muitas vezes, quase que obsessivamente. Nelson Rodrigues produziu um número extraordinário de frases memoráveis nas polêmicas que travou e nas provocações que fez, e para ampliar sua força usava a estratégia da repetição. Se ele fosse apenas um autor de frases, como o francês La Rochefoucauld, já teria conquistado um lugar destacado nas letras brasileiras. Suas máximas abarcaram virtualmente todos os campos, da política à religião, do futebol à psicologia – isso para não falar do amor. “É preciso trair para não ser traído”, escreveu ele num de seus grandes momentos de reflexão amorosa. Como de costume, você encontra essa frase em vários textos de Nelson Rodrigues.
Não era um polemista que se movimentava conforme as circunstâncias. Isso o distinguiu, por exemplo, de Paulo Francis. Francis foi de esquerda quando era elegante ser de esquerda, nos anos 60 e 70. Na década de 80, em que o conservadorismo galvanizou boa parte do planeta na figura da primeira ministra britânica Margaret Thatcher, Francis virou um polemista de direita. O glamour tinha se deslocado da esquerda para a direita. (Hoje, em que o receituário thatcherista é apontado por muitos como uma das razões da presente crise econômica mundial e por isso perdeu grande parte do brilho, Paulo Francis provavelmente retornaria à esquerda.)
Nelson Rodrigues não tinha problema nenhum em ser chamado de reacionário numa época em que isso era um dos maiores insultos que um intelecutal poderia receber. Era um homem convicto não das virtudes do capitalismo, mas dos defeitos para ele insolúveis do socialismo. Os símbolos de esquerda de seu tempo foram uma formidável inspiração para Nelson Rodrigues. Do cardeal Dom Helder Câmara, um expoente da Teologia da Libertação – corrente esquerdista da igreja que pregava o ativismo em prol dos pobres –, ele dizia, por exemplo, que “só olhava para o céu para ver se ia chover”. O fascínio erótico que Guevara despertava nas mulheres da alta sociedade carioca – a “esquerda festiva” – também foi objeto de análises espirituosas, ferinas e divertidas.
A elegância bem humorada com que ele esgrimia contrasta intensamente com as armas de outro célebre polemista brasileiro, Carlos Lacerda. Lacerda, que na juventude foi comunista e depois na idade adulta viraria anticomunista, tinha uma agressividade destrutiva que você jamais encontra em Nelson Rodrigues. Em seu melhor e ao mesmo tempo pior momento como polemista, Lacerda comandou um ataque sangrento ao presidente Getúlio Vargas, cuja administração era segundo ele um “mar de lama”. O suicídio de Getúlio, em 1954, é a demonstração suprema da força devastadora do “mar de lama” criado por Lacerda. (Posteriormente, em 1964, Lacerda apoiaria o golpe militar na esperança de se tornar logo depois presidente. Quando os militares decidiram permanecer no poder, ele se frustrou e foi para a oposição). Compare isso com a resposta clássica de Nelson Rodrigues aos jovens rebeldes que nos anos 60 a acusavam de ser mentalmente e ideologicamente senil. “Jovens: envelheçam”. Mais uma vez, o tom firme mas doce de uma mãe que deseja o melhor para seus filhos.
Ao contrário de tantos polemistas, Nelson Rodrigues não fez barulho simplesmente sendo do contra, mesmo sabendo da fraqueza do chamado pensamento convencional. Ele expressou isso numa de suas frases mais citadas: “Toda unanimidade é burra.” Se possível traçar uma linha – ainda que torta – de Paulo Francis a Diogo Mainardi entre os polemistas, Nelson Rodrigues, lamentavelmente, não deixou sucessores. Arnaldo Jabor, que filmou algumas das histórias de Nelson Rodrigues e é um de seus mais conspícuos discípulos, bem que tentou, mas acabou ficando a uma distância considerável do mestre. Principalmente naquilo que foi talvez a maior marca de Nelson Rodrigues como polemista: o humor fino, suave que leva o leitor a refletir com uma risada e não a imprecar, seja contra ou a favor, com uma carranca.
02 – F. Scott Fitzgerald

Francis Scott Fitzgerald retratou a frivolidade dos ricos americanos dos anos 20 e 30 com a mesma graça e talento com que Balzac mostrou o mundo da plutocracia francesa na primeira metade do século 19. Fitzgerald foi tão grande como escritor que, mesmo sendo alpinista social, jamais conseguiu fingir em seus romances que o círculo ao qual ansiava por pertencer era decente, honesto, límpido. Também nisso se igualou a Balzac.
O Grande Gatsby, de 1925, é a obra magna de Fitzgerald. Gatsby é um misto de vigarista e sonhador que vai atrás da paixão de sua juventude, Daisy. Daisy não se casou com ele porque ele era pobre. Gatsby faz fortuna vendendo bebida na época da Lei Seca – como o patriarca da família Kennedy, aliás – apenas para conquistar Daisy. Daisy – egoísta, dissimulada, interesseira, vazia – é, no romance, o símbolo supremo da riqueza e dos ricos. Gatsby acaba sozinho e destruído ao entrar num mundo que não era o seu. O único que permanece ao seu lado é Nick, o narrador, um alterego do próprio Fitzgerald.
É um romance cultuado. O escritor Hunter Thompson datilografou-o integralmente apenas para ter a sensação de escrever um livro notável. Fitzgerald morreu cedo, aos 44 anos, em 1940. Seu coração não aguentou uma vida absolutamente desregrada, repleta de bebida e de cigarro.
Também contribuiu para sua exaustão física e mental o casamento tumultuado com Zelda, desequilibrada mentalmente. A história com Zelda é a base de outro grande romance seu, Suave é a Noite, que recomendo fortamente também. Zelda acabaria num manicômio. Fitzgerald, em seus últimos anos, viveu com uma colunista social.
Fitzgerald foi o maior escritor americano do século passado, ao lado de Hemingway. Conviveram muito. Numa das passagens mais divertidas da amizade entre os dois, foram ao Louvre por sugestão de Hemingway. Fitzgerald estava em dúvida sobre a qualidade do tamanho de seu pênis, e Hemingway sugeriu que ele o comparasse com os pênis das estátuas do Louvre.
Gatsby, com todos os seus anos de existência, tem vigor juvenil: sua história continua a fascinar, a comover. Faz rir, faz sonhar e faz chorar. Assisti, há pouco tempo, uma montagem do livro no Wilton’s Music Hall – um teatro alternativo e interessantíssimo de Londres, perto das Docas e longe do tradicional West End, onde passam os musicais – que arrebatou os londrinos. A platéia é convidada a se vestir como nos anos 1920, no auge do charleston. Muitos aceitam o convite. No intervalo, dois atores se fazem de repórter e fotógrafo ao estilo de um século atrás e entrevistam a audiência como se fossem jornalistas atrás de celebridades nas míticas festas dadas por Gatsby em sua mansão no seu esforço de reconquistar Daisy.
Fui, com Erika. Ela tirou uma foto da dupla com seu iPhone. Eles perguntaram: “O que é isso?” Erika respondeu: “Uma câmera”. O fotógrafo – um ator gordo, jovem, alto, camisa fora da calça como é tão comum nas redações – riu. Gargalhou. “Hahaha. Câmera é isso!” E mostrou a sua, uma relíquia da era de Gatsby.
Em seu túmulo, está escrita a frase épica que dá fim a O Grande Gatsby. “E assim vamos todos, braços remando contra a correnteza, empurrados incessantemente rumo ao passado.” Se não fossem todas as outras virtudes, apenas por este final todo mundo deveria ler O Grande Gatsby.
03 – Henry Miller

Sempre que estou em Paris, lembro de Henry Miller.
Foi em Paris que ele construiu a maior parte de sua obra grandiosa, em que o sexo se mistura com o lirismo e daí nascem parágrafos soberbos.
Penso numa passagem específica: uma declaração de amor a Germaine, uma prostituta barata, em Trópico de Câncer. Talvez não exatamente a ela, mas à “coisa rosa” que ela levava entre as pernas, “um tesouro”, “um presente de Deus”.
Ele admirava aquele “matagal” e os lábios que o separavam tanto quando estavam unidos como quando estavam separados.
Não me lembro de um outro escritor que tenha transmitido em sua prosa tanta adoração pelas mulheres quanto Henry Miller. A mais comoventa forma de amor: incondicional. A mulher não tinha que ser linda, elegante, rica para Miller encontrar magia, encanto, beleza nela.
É o caso de Germaine.
E, no entanto, as mulheres não lêem Henry Miller, de uma forma geral. E as que rompem com a regra o desprezam como machista. Ou mesmo careca. Piada. (Miller foi vencido cedo pela calvície, conforme se pode ver no ótimo filme Henry & June.)
Eu protesto, aqui diante de cada um de vocês – eu protesto, como se fosse um advogado póstumo do grande, incomparável, insubstituível celebrador de mulheres que foi Henry Miller.
04 – Charles Dickens

Estou obcecado por Dickens. Por várias razões. Por sua imensa simpatia pelos pobres, pelos desfavorecidos. Pela sua generosidade pessoal. Pelo seu caráter, que fez um contemporâneo afirmar que ele jamais perdeu um amigo ou ganhou um inimigo. Pelo brilho de sua imaginação como romancista. E por ele ter descrito como ninguém a Londres de seu tempo. Viajante compulsivo, Dickens escreveu a um amigo que não conseguia escrever direito longe da inspiração proporcionada pelas “luzes mágicas” das ruas londrinas.
Por isso tenho lido romances seus e algumas biografias. (O iBooks me dá acesso a um material extraordinário de e sobre Dickens, gratuitamente.)
Mas me ficou a sensação de que Dickens deveria ter lido Demócrito, o filósofo grego da Antiguidade. Especificamente, uma sentença de Demócrito: “Ocupe-se de pouco para ser feliz.” Dickens era claramente hiperativo, e o excesso de ação acabou por matá-lo cedo, aos 58 anos. Ele teve um derrame durante um jantar e morreu pouco depois.
Pouco tempo antes de morrer, ele escreveu para seu grande amigo John Forsters: “Não consigo sossegar senão com ação. Fiquei incapaz de relaxar. Estou convencido de que vou enferrujar, quebrar, morrer se eu me poupar. Melhor morrer fazendo coisas.”
Forsters posteriormente escreveria a primeira e melhor biografia de Dickens. Ao lê-la, uma amiga e admiradora de Dickens comentou: “Estou chocada com a agitação histérica dele. Deve ter sido terrivelmente difícil para sua mulher.” (Foi. Eles acabaram se separando, depois de vinte anos de casamento. Dickens admitiu que a fazia “inquieta e infeliz, e muitas outras coisas.”
Dickens não fazia nada comedidamente. Quando descobriu que poderia ganhar um bom dinheiro lendo para platéias que o adoravam, levou isso a extremos. Ensaiava horas para ler trechos de seus livros. Tinha o trabalho adicional de mexer nos textos para adaptá-los à leitura pública. Interpretava ao ler, com seus dotes de ator. Terminava cada leitura aos pedaços. Tinha que deitar vinte, trinta minutos para se recompor.
Quando caminhava, coisa que adorava fazer, não era com moderação. Andava rápido, e percorria longas distâncias. Conheceu Londres e redondezas nos detalhes nestas supercaminhadas. Em David Copperfield, seu livro favorito e francamente autobiográfico, Dickens diz pela boca do protagonista: “Em tudo que fiz, me entreguei por completo, não poupei nada.”
Os amigos perceberam, a certa altura, que ele estava extenuado, e o aconselharam a reduzir o ritmo. Mas ele continuou a acelerar. Faltou Demócrito em sua vida. Ao morrer em 1870, aos 58 anos, era mais do que admirado por seus leitores – era amado por eles. Enterrado doída e solenemente no Poet’s Corner da Abadia de Westminster ao lado de outros gigantes das letras inglesas como Samuel Johnson e Thackeray, Dickens deixou o legado glorioso de sua obra magistral, mas também mostrou a todos que excesso de trabalho leva a apenas uma coisa: à morte mais cedo.
05 – Jorge Amado

Jorge Amado entra na lista curta dos maiores romancistas da história. Escrever em português não o ajudou a ganhar o Nobel tão merecido. Nenhum brasileiro ganhou. Mas Saramago, com seu português de Portugal, foi premiado. Como romancista – verve, prosa, histórias que agarram o leitor pelo colarinho e não soltam, versatilidade, constância – Jorge Amado foi catedrático onde Saramago foi aluno. Jorge Amado, depois de Machado de Assis, foi o maior romancista brasileiro. Os dois ombreiam nomes como Tolstoi, Dostoievski, Flauber, Stendhal e os poucos outros que compõem a primeiríssima divisão da literatura mundial.
É o centenário do nascimento de Jorge Amado. O Brasil deveria ter um calendário rico de comemorações. Mas, de novo, lamento a nossa falta de cultura, de história, de respeito. 
Jorge Amado teve duas fases distintas. Na primeira, o jovem escritor comunista fez romances que embelezam qualquer biblioteca. Dois se destacam. Capitães da Areia, a saga dos meninos pobres das praias de Salvador, já mostrava nos anos 20 que o Brasil não poderia aspirar a muito sem cuidar de suas crianças desvalidas. E Mar Morto, o retrato lírico e desesperado do amor de uma mulher e um pescador, um romance que molha os olhos do leitor ao mesmo tempo que o enleva. Jorge Amado tinha um amor incondicional pela gente humilde, e isso foi uma de suas grandes marcas em todas as fases.
Ainda na fase engajada, O Cavaleiro da Esperança é a história romanceada de Luís Carlos Prestes, o maior líder comunista da história brasileira. Quando o livro foi publicado, nos anos 40, Prestes representava mais ou menos o que Lula representa hoje. A diferença é que Prestes era caçado e passou a maior parte de sua vida na ilegalidade, junto com seu Partido Comunista, ao qual Jorge Amado era filiado.
O tom da fase engajada de Jorge Amado é branco e preto, simbolicamente. Seus romances traem a sua tristeza com o país tão desigual em que vivia.
Esse ciclo terminaria no final dos anos 50, com as célebres revelações, na União Soviética, dos crimes de Stálin. Foram tais e tantos que comunistas do mundo inteiro entraram numa aguda crise existencial.
A resposta de Jorge Amado foi sair do Partido Comunista. Começaria aí a segunda fase do escritor, multicolorida, alegre, cheia de baianas desembaraçadas e fascinantes, como a Tieta de Tieta do Agresta, a Gabriela de Gabriela Cravo e Canela e a Dona Flor de Dona Flor e seus Dois Maridos. A literatura de Jorge Amado deixa de ser triste por causa das injustiças sociais e passa a celebrar a vida porque, como mostram suas personagens extraídas da gente simples, ela pode ser bela.
A grandeza de Jorge Amado foi reconhecida internacionalmente. Foi um romancista global antes da globalização. Seus romances foram traduzidos virtualmente em várias línguas. Não acontecera antes isso com nenhum escritor brasileiro. Depois dele, a fama lá fora se repetiria com Paulo Coelho, com uma distinção. Jorge Amado se valeu de seu colossal talento e Paulo Coelho foi produto de uma mistura de marketing competente, charlatanismo intelectual e misticismo barato.
Jorge Amado foi o primeiro grande caso, no Brasil, de escritor capaz de viver apenas da literatura.
Não recebeu o Nobel, provavelmente por ignorância dos jurados, mas foi reconhecido por leitores em todo o mundo nas duas fases de sua obra. O ponto comum, entre elas, foi o amor irrestrito, comovente e indelével do escritor por sua gente, a gente simples do povo.
06 – Marco Aurélio

Marco Aurélio, que comandou o mundo no último grande momento de Roma, personificou o sonho de Platão: o imperador filósofo. Ninguém poderia tornar realidade esse sonho utópico de Platão com tanto esplendor. Como imperador, Marco Aurélio (121-180 d.C.) conduziu uma Roma já ameaçada a um período dourado. Como filósofo, escreveu, em geral em acampamentos de guerra, palavras cuja sabedoria doce e resistente desafia a passagem do tempo – eram reflexões para si próprio, frases curtas e não obstante profundas que giravam, bsicamente, sobre a efemeridade da glória e da vida. Um discípulo, depois da morte de Marco Aurélio, juntou-as num pequeno grande livro ao qual deu o nome de Meditações. Os dias haveriam de converter as Meditações de Marco Aurélio num patrimônio da humanidade.
O pensador francês Ernest Renan, do século XIX, disse que os seres humanos estariam para sempre de luto por Marco Aurélio. Não há exagero aí: conhecer Marco Aurélio é amá-lo. Suas observações são um fabuloso manual de conduta, e o que mais impressiona é que onde poderia haver um tom professoral existe, na verdade, uma imensa e comovedora doçura. Ele não condena a miséria humana, e sim a compreende. Mais do que isso, joga luzes com a força de seu exemplo sobre como lidar com ela. Nos momentos de descrença e desilusão, mas não só neles, é um conforto ter Marco Aurélio por perto.
Releio-o com frequência, e muitas vezes abro as páginas de minha velha edição ao acaso (a melhor tradução de Marco Aurélio para o Brasil é a da série Os Pensadores, da Abril Cultura: um primor). Sugestão do imperador filósofo para o começo de cada dia: “Previna a si mesmo ao amanhecer: vou encontrar um intrometido, um ingrato, um insolente, um astucioso, um invejoso, um avaro”.
Marco Aurélio é útil para uma infinidade de situações cotidianas. Somos extraordinariamente suscetíveis à ideia da glória, e é um convite ao bom senso ouvir, a esse respeito, quem foi o dono do mundo. A arrogância, mostra ele, sustenta-se apenas na ignorância e na ilusão. “Cada um vive apenas o momento presente, breve. O mais da vida, ou já se viveu ou está na incerteza. Exíguo, pois é, é o que cada um vive. Exígua, é a mais longa memória na posteridade, essa mesma transmitida por uma sucessão de homúnculos morrediços, que nem a si próprio conhecem, quanto menos a alguém falecido há muito.”
A grandeza do espírito de Marco Aurélio legou à posteridade exemplos memoráveis. Descoberta uma conspiração e executado sem seu conhecimento o mentor, ele lamentou a perda da possibilidade de perdoar o traidor. Entregaram-lhe a correspondência do conspirador. Ele a queimou ser lê-la. Sua atitude diante da discórdia é inspiradora. Estamos a toda hora brigando com alguém e sendo tomados por sentimentos de rancor e aversão. Em suas anotações, Marco Aurélio disse com majestosa sabedoria: “Sempre que você se desentender com alguém, lembre que em pouco tempo você e o outro terão desaparecido.” É um dos chamados à paz e à concórdia mais simples e mais eficiente. Em ingênua oposição ao cerna da filosofia de Marco Aurélio – a fugacidade de tudo – ouso dizer que suas palavras são eternas.
07 – Rubem Braga

Rubem Braga fez como ninguém poesia em prosa no Brasil. Foi o único escritor a entrar para a história da literatura brasileira unicamente pelas suas crônicas. Foi de uma fidelidade comovente a elas. Jamais as trocou por romances ou mesmo contos.
Com as pequenas pedras da crônica Rubem construiu uma catedral.
Lírico, melancólico, romântico, espirituoso, essas eram as marcas centrais do estilo de Rubem. Era um escritor que você podia caracterizar como de esquerda, não pela militância tão comum em seus dias, mas pela raiva que sentia da desigualdade social e pela imensa simpatia que dedicava aos desfavorecidos. Um homem de uma das suas histórias está com sua namorada. Ambos são jovens e humildes. Uma mulher rica e esnobe passa pelo casal e ele deixa  escapar, automaticamente: “aquela vaca”.
Os textos de Rubem estão espalhados, como é tão comum entre os cronistas. Mas há uma coletânea da Record – 200 crônicas – que reúne o melhor dele e enobrece qualquer biblioteca.
Nascido em Cachoeiro do Itapemirim, floresceu no Rio – cujos anos dourados, as décadas de 1940 e 1950, cantou em suas crônicas.
Sempre recomendei a leitura atenta de Rubem Braga a jovens jornalistas interessados em apurar a maneira de escrever. Pouca gente juntou palavras  em português de forma tão bela.  Machado de Assis, Eça de Queiroz, Nelson Rodrigues – e vamos ficando por aí.
O fascínio que Rubem e sua prosa exerciam sobre as mulheres pode ser observado em seus relatos sentimentais.  Teve muitas mulheres, entre as quais se destacou a atriz Tônia Carrero, uma das maiores belezas de sua época. Mas foi, fundamentalmente, um solitário.
Encarou a morte com a naturalidade de um filósofo.  Estava morrendo de câncer no pulmão quando foi a uma casa funerária encomendar um caixão.  O funcionário que o atendeu perguntou para quem era, e não foi sem surpresa que ele soube que era para o próprio cliente ali à sua frente.
Como Montaigne com seus Ensaios, você pode abrir Rubem em qualquer página e iniciar a leitura – da qual há grandes chances que saia encantado.
08 – Arthur Schopenhauer

Se você acordar no inferno, vai pensar que simplesmente está levando a vida de sempre.
Este é um conceito básico de Arthur Schopenhauer, o grande escritor do pessimismo.  Schopenhauer dizia que a pior coisa que podia acontecer a alguém é nascer.
E no entanto você não sai deprimido das páginas de Schopenhauer. Porque você aprende com ele que não é só você que sofre. Todos sofremos. Todos enfrentamos dores e decepções do primeiro ao último dia.
A fonte maior de infelicidade é achar que só você enfrenta problemas enquanto todos os outros riem e vivem uma festa perene. Schopenhauer põe você na companhia de toda a humanidade. Com ele, como escreveu um biógrafo, você aprende a olhar para fora, para além de você – e isso é vital para a saúde da mente.
Foi, como seu conterrâneo alemão Karl Marx, não apenas um filósofo mas um estilista soberbo. Tinha a ênfase irresistível dos grandes prosadores. Dizia, por exemplo, que a maior parte dos livros é tão ruim que não mereciam ter sido escritos. Quando lhe perguntaram o que mais havia na sua  Berlim, respondeu: “Tolos.”
Schopenhauer entendia que tudo é fruto de nossa mente. “Posso enxergar uma coisa, e você outra. Uma terceira pessoa pode achar que estamos ambos errados, pois vê algo diferente. Estamos todos equivocados, e no entanto certos.” Com isso ele estava dizendo para que sejamos tolerantes com opiniões alheias, pois nossas verdades são mais pessoais que absolutas.
O pessimismo de Schopenhauer derivou, em boa parte, das filosofias orientais em que mergulhou jovem. Há uma afinidade clara entre suas teses e o budismo. Num caso e no outro, o sofrimento aparece como o fato primordial da existência.
Não surpreende que tenha dado o nome de Atma – alma, em sânscrito – a seu único companheiro na vida adulta, um poodle. Morto Atma, substituiu-o por uma réplica dele. Numa de suas maiores frases, Machado de Assis, outro pessimista de gênio, escreveu em Memórias Póstumas que não deixou a ninguém o legado da miséria humana. Schopenhauer fez o mesmo: jamais teve um filho. Levou a sério o que escreveu.
Num ensaio sobre o amor, disse que quando dois jovens amantes trocam olhares há um ar recolhido, quase secreto porque eles no fundo sabem que, levando adiante o que desejam, gerarão mais sofredores.
Soube viver de acordo com suas idéias e soube morrer. Poucos dias antes de sua morte, em 1860, perguntaram  a ele como achava que a posteridade o trataria. Indiferença? Desprezo?  “A posteridade me encontrará”, disse ele.
Foi uma de suas raras frases otimistas – e absolutamente certa.  A posteridade encontrou Arthur Schopenhauer e, paradoxalmente, encontrou conforto nele que foi o mais pessimista dos filósofos.
09 – Eça de Queiroz

Poucos finais de romances são tão pertubadoramente belos e filosoficamente profundos como o de Os Maias, De Eça Queiroz.
Carlos e Ega, dois amigos de uma vida toda, erram pelas ruas de Lisboa. As ilusões da juventude já haviam sido trituradas pelo tempo, e eles constatam que quase nada do que sonharam tinha se tornado realidade. O grande livro que Ega escreveria – até título já tinha: Memórias de um Átomo – jamais chegou a ser escrito e publicado. Carlos não se recuperou de uma paixão alucinada, carnal por uma mulher que ele desconhecia ser sua irmã, Maria Eduarda.
A vida que se realiza não é aquela com que sonhamos, refletem. E então a frase que ficou permanentemente gravada em minha mente: “Ah, éramos jovens, éramos jovens.”
Eça é um autor fundamental. Numa vida breve – morreu em 1900, aos 55 anos —  construiu uma soberba pirâmide literária. O estilo exuberante, descritivo como mandava a escola naturalista à qual ele se filiou, se mesclou com características deliciosas em sua prosa. Eça, como os intelectuais progressista de seus dias, era fanaticamente anticlerical. Os padres e a igreja representavam, para ele, o atraso. E era absurdamente cru  na forma como tratava o sexo em seus livros. Os personagens de Eça são governados pelo anseio sexual.
O Crime do Padre Amaro, um de seus clássicos, traz tudo isso: a repulsão à batina e o império dos sentidos. Amaro seduz e consequentemente devasta uma jovem crédula, Amélia. Amaro era como a representação de todos os padres e em Amélia estava a sociedade portuguesa. Eça estava como que dizendo que Portugal fora sodomizado e atrasado pelos padres católicos.
O anticlericalismo está presente de forma bem mais divertida em outra obra de Eça, A Relíquia. Raposo é um espertalhão que pretende entrar na herança da tia rica e carola. Ele vai para Jerusalém para agradar a velha. Pega, no final da viagem espiritual, uma relíquia para ela, e tudo ia terminar bem se ele não tivesse colocado numa caixa exatamente igual a calcinha de uma mulher libertina que ele conquistara na viagem. Quando a tia abre o presente, não é a relíquia que ela encontra – mas a peça íntima de uma mulher lasciva. Antes de ser desmascarado, Raposo fizera coisas como pegar água da torneira e vendê-la em garrarinhas como se fosse água santa do Jordão.
Como outros grandes autores do século XIX, Eça criou uma adúltera notável. É Luiza, de O Primo Basílio. Basílio, um canalha total, se aproveita da fragilidade de sua prima, bem como da ausência prolongada do marido desta. O caso entre eles é descoberto pela empregada de Luiza, que a chantageia e tortura até virtualmente liquidá-la.
Machado de Assis, o grande contemporâneo brasileiro de Eça, escreveu uma crítica antológica sobre O Primo Basílio. Foi duríssimo. Disse que a única lição que se extraía do livro é que a “boa vontade dos fâmulos é essencial para a paz no adultério”. Foi a primeira vez que li a palavra “fâmulo” – empregado, servo. Machado evidentemente exagerou. Mas sua crítica, de toda forma, acabou por ampliar a repercussão do romance de Eça, em vez de diminuí-la. Outro contato extraordinário entre os dois se deu numa dedicatória que Machado fez a Eça num romance que lhe deu. É provavelmente a dedicatória mais seca que um escritor já fez: “De Machado de Assis para Eça de Queiroz”.
As comparações entre os dois gênios são inevitáveis. Machado era contido e sutil. Insinuava, em vez de afirmar. Eça jorrava. Não falava: berrava. A adúltera de Machado, Capitu, você nem tem certeza de que traiu o marido. A Luiza de Eça entregou a carne toda ao primo cafageste. Cada qual de seu jeito, eram gigantes, e é simplesmente impossível dizer qual dos dois é melhor.
Li, em minha juventude, Eça com uma caneta ao lado para sublinhar e anotar as frases que mais me marcavam. Uma delas lembro ainda hoje com vividez: “Braços que se desenlaçam em despedidas supremas”. Mais de uma vez a usei em textos de Fabio Hernandez, o “escritor barato” que foi meu pseudônimo por tantos anos. Visitei Póvoa do Varzim, a terra de Eça. Era janeiro, e o vento quase arrastava as pessoas. Fui a um cassino local jogar roleta e quase arrumo ao encrenca ao pegar, sem querer, fichas que não eram as minhas. Poucos meses atrás. numa ida a Paris em missão jornalística, acabei dando numa estátua de Eça num subúrbio. Eça viveu em Paris como diplomata. Sentei num banco e contemplei por alguns minutos Eça antes de partir.
Os Maias é meu Eça favorito.  Admiro o patriarca Afonso Maia, em cuja força interior inquebrável vejo algo de meu pai.  Tanto me marcou que quis muito dar a minha filha caçula o nome de Maria Eduarda. Fui batido pelo conselho familiar, representado por minha ex-mulher e meus dois filhos, então pequenos mas já cheios de opiniões próprias. (Acabou prevalendo Camila, e hoje digo que minha ruiva maravilhosa não poderia ter mesmo outro nome.)
Tantos anos depois de ter lido Os Maias, e ocasionalmente relê-lo, a cena final ainda me toca. Quantas vezes, ao olhar para trás, digo para mim mesmo: “Ah, éramos jovens, éramos jovens.”
10 – Graham Greene

Graham Greene foi uma paixão à primeira lida.
Meu pai me deu O Cônsul Honorário quando eu era adolescente, nos anos 1970. Li, me apaixonei e acabaria lendo todo Greene nos anos seguintes.
Papai tinha uma afinidade clara com Greene: eram ambos católicos. Papai admirava em Greene a fé inquieta, heterodoxa, feita de dúvidas e questionamentos. O Vaticano admirava Greene bem menos que papai: Greene foi para o índice de autores censurados com O Poder e a Glória, um romance cujo herói é um padre bêbado, covarde e sexualmente corrupto.
É um romance passado no México revolucionário da década de 1940, quando os padres católicos foram caçados e exterminados.
Em O Poder e a Glória aparece um típico personagem de Greene que me deixaria mesmerizado: o herói relutante. O padre de Greene acaba encontrando a redenção num gesto heróico que faz contra todas as probabilidades.
Greene estava dizendo o seguinte: os seres humanos somos horríveis, mas existe sempre a possibilidade gloriosa da redenção.
Greene era um mestre também das situações românticas. Mas do seu jeito. Em O Cônsul Honorário, passado na América Latina da época das ditaduras militares, um médico, Eduardo Plarr, se apaixona por uma mulher casada. Era exatamente a mulher do cônsul honorário do título – um inglês bêbado vagabundo sem nenhuma importância que acaba sequestrado por engano por guerrilheiros. Entre os guerrilheiros está um padre, Rivera, que diz que aderiu às armas porque não aguentaria esperar por “outro João 23”. João 23 foi um papa de esquerda, claramente empenhado em lutar pelos pobres.
Rivera era outro personagem que o Vaticano abominaria.
Escrevi alguns artigos de política na Época sob o pseudônimo de Eduardo Plarr. Assim como escrevi um conto para a Vip sob o pseudônimo de Maurice Bendrix, o anti-herói de Fim de Caso.
Fim de Caso é um dos romances de Greene mais interessantes do ponto de vista dos relacionamentos amorosos. Bendrix tem um caso com uma mulher casada e católica. Quando ele descobre que ela está doente e vai morrer, passa a insultar o Deus em que ela tanto acreditava. Bendrix tem um sentimento complexo em relação ao marido dela – simpatia, piedade e ao mesmo tempo ciúme e ódio.
É algo que você encontra em Plarr. Ele sente uma coisa parecida pelo homem com cuja mulher está dormindo. E também em Os Comediantes, outro de meus Greenes favoritos. O narrador, em mais um romance passado no Haiti sob a ditadura de Papa Doc, se envolve com a mulher de um diplomata. O herói relutante de Os Comediantes é um mentiroso compulsivo que para impressionar as pessoas diz que teve passagens épicas em guerras. Ele acaba sacrificando a vida na primeira vez em que de verdade participa de uma ação militar. Morre tentando ajudar os revolucionários do país em que estava a se livrar da ditadura corrupta.
Greene, um homem de esquerda que abominava os Estados Unidos sem sentir nenhuma inclinação pela União Soviética, se beneficiou da era em que a Grã Bretanha foi um império em que o sol não se punha. Como era comum então entre os britânicos, viajou pelo mundo e pôde situar seus livros em partes distintas.
Era um livre pensador, um filho amado e rebelde do império britânico. Foi até o fim amigo e uma espécie de advogado moral de Kim Philby, o maior espião que a Inglaterra jamais conheceu. Philby, que ocupava um alto posto no serviço de inteligência britânico, o MI 5. Greene dizia que a verdadeira ignomínia estava em trair um amigo, e não um país.
Que ele não tenha ganho o Nobel é algo que depõe não contra ele, mas contra a Academia Sueca. Durante muito tempo, no fastígio de Greene como escritor, nos anos 60 e 70, toda vez que chegava a época de anunciar o Nobel de Literatura seu nome era citado como um forte candidato. O prêmio nunca foi dado. A versão mais acreditada que correu é que Greene pagou o preço de ter sido amante da mulher de um dos jurados da Academia Sueca.
É uma honra, um privilégio, uma alegria eu estar vivendo uma temporada na Londres de Greene.
Li, claro, as duas autobiografias que Greene escreveu. O episódio que mais me impressionou foi a roleta russa que ele fez na juventude para vencer o tédio.
Greene colocou uma bala no tambor que alojava seis, girou-o e apertou o gatilho. Nada. Fez mais uma vez, depois. Nada.
Já não queria mais então jogar esse jogo. Mas antes de se livrar do revólver considerou que era justo dar mais quatro chances a ele para igualar as coisas. Tambor de seis balas, e portanto seis vezes o gatilho tinha que ser apertado, na precisa ainda que estranha lógica de Greene.
11 – Machado de Assis

Se um homem vive onde estão seus livros, meu lugar é São Paulo, embora aqui em Londres eu já tenha montado uma biblioteca respeitável. A oferta de livros em Londres é inacreditável, antigos, novos, em capa dura ou em paperback. Se não bastasse, há um sebo na esquina de casa. Livros a uma libra lá, às vezes duas, e bons. Alguns, raros, são mais caros. Comprei uma biografia de  Napoleão, de um renovador do gênero, Emil Ludwig, por 20 libras, uns 60 reais. É uma obra de 1925, notável.
Trouxe uns poucos livros de São Paulo, em minha recente passagem por lá. Um deles, sei lá por que, é uma biografia de Machado de Assis pela crítica literária Lúcia Miguel Pereira, morta já há algumas décadas. Chama-se apenas “Machado de Assis”, e se eu não soube a razão pela qual o enfiei na mala, depois de relê-lo, com décadas de intervalo, me sinto amplamente recompensado.
Não creio que exista outro livro que mostre com mais agudeza Machado como homem e escritor. “O livro de Lúcia Miguel Pereira veio nos revelar um Machado de Assis que está todo nos seus livros, nos seus contos, nos seus romances”, escreveu José Lins do Rego. “Mas até Lúcia Miguel Pereira ninguém sabia disso.”
Meu exemplar traz anotações minhas de décadas atrás. É um hábito que eu deveria ter mantido. Recomendo a todos. Quando você revê um livro, as placas estão todas lá, e o aproveitamento é melhor.
Em relação ao escritor, Lúcia defende a tese de que Machado foi melhor como contista do que como romancista. Meu pai, machadiano, várias vezes me chamou a atenção para a qualidade dos contos de Machado, como O Alienista, a Cartomante e a Teoria do Medalhão, entre tantos outros. Eu próprio tenho um conto favorito, que li dezenas de vezes, Um Capitão de Voluntários, o relato de um caso de amor e traição, honra e morte, no tempo da Guerra do Paraguai. O narrador tem um caso fugaz com a mulher de um homem que ele admirava, e este decidi, desiludido, se alistar como voluntário na guerra, onde tem uma conduta heróica e suicida. O traidor é tomado por — como gosto dessa frase — “um remorso que não é grande senão por me fazer sentir pequeno”.
Mas é no romance, para mim, que Machado se agiganta e não deve nada a qualquer romancista em todo o mundo e em todos os tempos. É com o romance que o escritor ergue suas pirâmides, para usar uma expressão de Guimarães Rosa, não com contos. Dom Casmurro, Braz Cubas e Quincas Borba cabem em qualquer seleção de clássicos que você tem que ler e reler. Mas ele foi bom em tudo, incluído aí o ofício de crítico literário.
Revejo minhas anotações e gosto delas.
Uma conversa numa festa mostra a presença de espírito de Machado. Ela está falando desenvoltamente quando uma mulher da sociedade observa: “Tinham me dito que o senhor é gago, mas é menos do que me disseram.” Machado responde: “Pois tinham me dito que a senhora é estúpida, mas é menos do que eu imaginava.”
Uma outra passagem me chama a atenção para o homem que foi Machado. O respeito que ele inspirava. Como crítico, Machado devastou O Primo Basílio, de Eça, seu grande contemporãneo português. A única coisa que se extraía do livro, segundo ele, era que para a “paz no adultério” era vital ter uma empregada confiável. A heroína do livro, Luiza, foi chantageada cruelmente por sua criada depois de se entregar a seu primo quando o marido viajava. Machado usou “fâmulos”, uma palavra sonora e infelizmente extinta. Significa criadagem.
É talvez a melhor crítica jamais escrita no Brasil. A mais aguda, a mais contundente, a mais sagaz.
E releio no grande livro de Lúcia Miguel Pereira — procuro no Google sinais de que tenha sido reeditado recentemente, e lamento não encontrar nada — que quando Eça teve problemas de direitos autorais no Brasil, por conta de editores inescrupulosos, encarregou de representar seus interesses ninguém menos que o crítico que massacrara uma de suas obras capitais.
É um episódio que conta muito de dois escritores portentosos — e destacá-lo é um dos muitos méritos do livro de Lúcia.
12 – Michel de Montaigne

Como se expressar, seja escrevendo, seja falando? Essa é uma das questões presentes desde sempre para a humanidade. Na vida profissional ou amorosa, numa apresentação de trabalho a seus chefes na empresa ou numa mera conversa de bar, comunicar-se bem faz toda a diferença. Muitos sábios se detiveram nesse tema. Quase todos condenaram a verborragia, a eloquência desmedida, a suntuosidade verbal. A opção é pela simplicidade e pela breviedade. Uma pessoa afetada na maneira de falar ou escrever é afetada, em outras esferas. “A verdade precisa falar uma linguagem simples, sem artifícios, escreveu um filósofo da Antiguidade.
Disse já várias vezes. Gosto de abrir Montaigne ao acaso, e ler ou reler alguns de seus ensaios.
Montaigne (1533-1592) dedicou linhas brilhantes ao assunto em seus Ensaios. Montaigne conta duas histórias instrutivas e divertidas. Numa delas, os embaixadores de uma cidade grega tentavam convencer o rei de Esparta a aderir a um esforço de guerra. O espartano deixou-os falar longamente. Depois disse: “Não me lembro do começo nem do meio da argumentação de vocês – quanto à conclusão, simplesmente não me interessa”. Na outra história, dois arquitetos atenienses disputavam a honra de construir um grande edifício. A platéia, à qual cabia a escolha, ouviu um grande discurso do primeiro arquiteto. As pessoas já se inclinavam por ele quando o segundo disse apenas: “Senhores atenienses, o que este acaba de dizer eu vou fazer”.
Montaigne cita seu pensador predileto, o romano Sêneca, segundo o qual nos grandes arroubos da eloquência há “mais ruído do que sentido”. Escreveu Montaigne: “Gosto de uma linguagem simples e pura, a escrita como a falada, e suculenta, e nervosa, breve e concisa, não delicada e louçã, mas veemente e brusca. Uma linguagem não pedante, fradesca ou de advogado, mas de preferência soldadesca como Suetônio qualifica a de Júlio César, embora eu não perceba bem por que”.
Os espartanos eram admirados por Montaigne pela simplicidade com que viviam e se esxpressavam. Ele conta que uma vez perguntaram a uma autoridade de Esparta porque não colocavam por escrto as regras da valentia para que os jovens pudessem lê-las. A resposta foi que os espartanos queriam acostumar seus jovens antes aos feitos do que às palavras: O mundo é apenas tagarelice e nunca vi homem que não dissesse mais do que me-nos do que devia, disse Montaigne.
Outro mestre de Montaigne, Plutarco, autor de Vidas Paralelas, mostrou que falar de-mais pode ser perigoso: “A palavra expõe-nos, como nos ensina o divino Platão, aos mais pesados castigos que deuses e homens podem infligir, disse Plutarco. “Mas o silêncio jamais tem contas a dar. Nâo só não causa sede como confere um traço de nobreza”. Não falar nada é, não raro, a melhor coisa que temos a dizer, mas uma força irresistível parece sempre nos empurrar para o “mundo da tagarelice” tão bem definido por Montaigne. E então estamos condenados a produzir “mais ruído do que sentido” para lembrar a grande sentença de Sêneca.

A FÁBULA DOS PORCOS ASSADOS


Uma das possíveis versões de um velho conto sobre a origem do assado é esta: certa vez, produziu-se um incêndio num bosque em que viviam porcos. Estes assaram-se. Os homens acostumados a comer carne crua, experimentaram e acharam ótimo. Então, cada vez que queriam comer porcos assados, punham fogo na floresta... até que descobriram um novo método. Mas o que eu quero contar é o que aconteceu quando se tentou modificar o sistema, para implantar um novo.


Fazia tempo que as coisas não andavam bem. Os animais se carbonizavam, às vezes ficavam parcialmente crus, outras de tal maneira queimados que eram impossível utilizá-los. Como era um processo utilizado em grande escala, preocupava bastante a todos, pois se o Sistema falhava em grande medida, as perdas ocasionadas eram igualmente grandes. Eram milhares os que se alimentavam dessa carne assada e também eram milhares os que se ocupavam dessa tarefa. Por tanto, o Sistema não devia falhar. Mas, curiosamente, à medida em que se produzia mais, mais parecia falhar e maiores perdas causava.

Em razão das deficiências aumentavam as queixas. Já havia um clamor geral sobre a necessidade de se reformar a fundo o Sistema. Tanto que todos os anos realizavam-se congressos, seminários, conferências, encontros, para se achar a solução. Mas parece que não conseguiam melhorar o mecanismo porque, no ano seguinte, voltavam a se repetir os congressos os seminários, as conferências e os encontros. E assim, sempre.

As causas do fracasso do Sistema, segundo os especialistas, deviam atribuir-se ou à indisciplina dos porcos, que não permaneciam onde deviam, ou à natureza inconstante do fogo, tão difícil de controlar, ou às árvores excessivamente verdes, ou à umidade da terra, ou ao Serviço Meteorológico que não acertava com a localização, o horário e quantidade de chuvas, ou a ...
As causas eram, como se vê, difíceis de determinar, porque, na verdade, o Sistema para assar porcos era muito complexo. Havia-se montado uma grande estrutura, uma grande máquina com inúmeros departamentos e ... havia-se institucionalizado. Havia indivíduos dedicados a pôr fogo, os “ignifier” das zonas norte, oeste, etc.; incendiador noturno ou diurno, com especialização matinal ou vespertina; incendiador de verão e de inverno (havia discussões sobre o outono e primavera), havia especialistas em vento: os anemotécnicos. Havia um Diretor Geral de Assamento e Alimentação Assada, um Diretor de Técnicas Ígneas (com seu Conselho Geral de Assessores), um Administrador Geral de Florestamento Incendiável, uma Comissão Nacional de Treinamento Profissional em Porcologia, um Instituto Superior de Cultura e Técnicas Alimentares ( Isceta), e o Bódrio (Bureau Orientador de Reformas Ígneo – Operativas). O Bódrio era tão grande que tinha um Inspetor de Reformas para cada grupo de 7.000 porcos aproximadamente.
E era precisamente o Bódrio que patrocinava anualmente os tais congressos, seminários conferência e encontros. Mas estes só serviam para aumentar a burocracia do Bódrio.

Fora planejada e estava em pleno desenvolvimento a formação de novos bosques, seguindo as últimas indicações tecnológicas, pois estes se situavam em regiões escolhidas segundo uma determinada orientação, onde os ventos não sopravam por mais de três horas seguidas, onde era reduzida a porcentagens de umidade relativa do ar, etc..

Havia milhares de pessoas trabalhando na preparação dessas florestas que logo deviam ser incendiadas. Enquanto isso, especialistas na Europa e nos Estados Unidos fiscalizavam a importação de melhores madeiras, árvores, toras e sementes. Outros, por sua vez, estudavam a maneira mais veloz e mais potente de fazer fogo. Havia, também, os que se dedicavam ao estudo de novas técnicas de como, por exemplo, fazer melhores armadilhas para pegar porcos. Havia, além disso, grandes instalações para manter os porcos antes do incêndio, mecanismos para deixá-los sair no momento certo e notáveis técnicos em alimentação suína.

Havia especialistas em construção de chiqueiros, professores de especialistas na construção de chiqueiros, universidades que preparavam professores de especialistas na construção de chiqueiros, pesquisadores que preparavam professores de especialistas na construção de chiqueiros e fundações que apoiavam os pesquisadores das universidades que preparavam professores de especialistas na construção de chiqueiros, etc.

As soluções que os congressos sugeriam eram, por exemplo, aplicar triangularmente o fogo na raiz quadrada de a-1, por velocidade de vento sul e soltar os porcos quinze minutos antes que o fogo médio dos bosques alcançasse 47 graus de temperatura. Outros diziam que era necessário instalar grandes ventiladores que serviriam para orientar a direção do fogo. E assim por diante. E, não é necessário dizer, pouquíssimos especialistas estavam de acordo entre si, e cada um tinha pesquisas e dados para provar suas afirmações.

Um dia, um “ignifier” categoria S-0/D-M/V-LL, ou seja, um incendiador de bosques, especialista sudoeste, diurno matinal, licenciado em verão chuvoso, chamado João Bom-Senso, disse que o problema era muito fácil de resolver. Tudo consistia, segundo ele, em que em primeiro lugar se matasse o porco escolhido, que ele fosse limpo e cortado adequadamente, posto em uma grelha ou armação sobre brasas até que, por efeito do calor e não da chama, ele ficasse pronto.

- Matar? Perguntou indignado o Administrador de Florestas.

- Como vamos fazer as pessoas matarem? Quem mata é o fogo, nós nunca!

Quando soube do acontecimento, o Diretor Geral de Assamento mandou chamar João. Perguntou a ele, que coisas estranhas andava dizendo por aí. Depois que o ouviu, falou a João:

- O que você diz está certo, mas apenas em teoria. Não vai funcionar na prática. Vejamos, o que você faz com os anemotécnicos, em caso de se adotar o que você sugere?

- Não sei, respondeu João.

- Onde você coloca os incendiadores das diversas especialidades?

- Não sei.

- E os especialistas em sementes, em madeiras? E os projetistas de chiqueiros de sete pisos, com suas novas máquinas limpadoras e as perfumadoras automáticas?

- Não sei.

- E os profissionais que ficaram se especializando no exterior durante anos e cuja formação tanto custou ao País? Vou pô-los a limpar porquinhos?

- Não sei.

- E aqueles que se especializaram durante anos na promoção de congressos, seminários e encontros, para a reforma e melhoramento do Sistema? Se sua solução resolve tudo, que faço com eles?

- Não sei.

- Você percebe agora que a sua não é a solução que precisamos? Você acha que se tudo fosse assim tão simples, nossos especialistas não a teriam encontrado antes? Vejamos. Quais são os autores em que você se baseou para fazer tais afirmações? Que autoridade está dando respaldo às suas afirmações? Você não pensa que eu posso dizer aos engenheiros anemotécnicos que a questão é usar brasinhas e não chamas, não é? O que faço com os bosques já preparados e prontos para serem queimados e que só possuem madeira para esse fim, pois suas árvores foram especialmente selecionadas porque não dão frutos e têm escassez de folhas? E selecionadas após anos de caríssimas pesquisas? Que faço, diga-me?

- Não sei.

Que faço com a Comissão Redatora de Programas de Assamento, com seus Departamentos de Classificação e Seleção de Porcos, Arquitetura Funcional de Chiqueiros, Estatísticas e Agrupamentos?

- Não sei.

- Diga-me, o engenheiro especialista em porcopirotecnia, Dr. J. C. de Figuração, não é uma extraordinária personalidade científica?

- Sim, parece que sim.

- O simples fato de possuirmos valiosos e extraordinários engenheiros em pirotecnia, indica que o sistema é bom. E o que faço com especialistas tão valiosos?

- Não sei.

- Viu? O que você deve trazer como solução, é como preparar melhores anemotécnicos, como conseguir mais rapidamente incendiadores de oeste ( que é a nossa maior dificuldade), como fazer chiqueiros de oito ou mais pisos em lugar de somente sete, como agora. HÁ QUE SE MELHORAR O QUE TEMOS. E NÃO MUDAR. Traga-me alguma proposta para que nossos estagiários na Europa custem menos, ou de como fazer um bom relatório para analisar profundamente o problema da reforma do Assamento. É disso que necessitamos. É disso que o País necessita. O que falta a você, Bom-Senso, é um pouco de sensatez. Diga-me, por exemplo, que faço com meu primo, o Presidente da Comissão para Altos Estudos e Aproveitamento Integral das Resíduos dos Ex-Bosques?

- Realmente estou perplexo, disse João, timidamente.

- Bem, agora você conhece o problema, não saia por aí dizendo que você o resolveria. Agora você vê que o problema é mais sério e não tão simples como você o imaginava. Quem está de fora sempre pensa: “eu resolveria tudo”. Mas é preciso estar dentro para conhecer as dificuldades. Entre nós, recomendo-lhe que não insista com essa idéia, pois poderia ter dificuldades com o seu emprego. Não por mim. Falo pelo seu bem. Eu o compreendo, entendo sua colocação, mas você sabe, pode encontrar um superior menos compreensivo e daí...

O pobre João Bom-Senso não disse nada. Sem se despedir, entre assustado e perplexo, com a cabeça rodando, saiu e nunca mais foi visto. Não se sabe para onde foi. É por isso que dizem que nessas propostas de Reforma do sistema falta bom-senso.

É claro que, numa visão superficial, parece que a fábula de Cirigliano retrata uma questão absurda. Mas imagine se o Dr. Bom-Senso fosse um pesquisador odontológico e se propusesse a pesquisar uma vacina anticárie? E se fosse um pesquisador da área de Psicologia e se dispusesse a criar um método que abreviasse as intermináveis terapias? Ou um obstetra com uma proposta de “despatologizar” o parto. Ou um jurista preocupado em acabar com o voto obrigatório. Ou se...

Não começa a parecer-lhe que a fábula dos porcos assados não é tão fabulosa assim?

Abaixo há algumas linhas em branco para você anotar algumas idéias que poderiam contribuir para o aprimoramento natural da área de conhecimento de sua atuação.

Propostas do Dr. Bom-Senso para a área do conhecimento:

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Seguramente até o final da leitura deste trabalho você se lembrará de algumas idéias que poderiam ser defendidas pelo Dr. Bom-Senso e sugeridas às instâncias coordenadoras de algumas áreas do saber humano oficial.


Você, leitor, deve ser especialista em alguma coisa. Se não for, seguramente estará desempregado ou sub-remunerado. A nova concepção a que nos propomos, não se destina a fazer com que você deixe de lado seu aprofundamento científico, seu aprimoramento tecnológico, nem, muito menos, que você deixe de ser especialista. Apenas tenta abrir-lhe perspectivas para uma visão mais ampla, abrangente e criativa e, sobretudo, libertadora dos proprietários da exclusividade do saber. Daqueles que fazem do seu conhecimento um sistema hermético, impenetrável, misterioso como um castelo mal-assombrado onde eles vagam como verdadeiras figuras fantasmagóricas, quase sempre supra-humanas.

Caso, entretanto, você não goste de analogias como a dessa pouco respeitosa fábula, pode encontrar na “douta ciência”, por exemplo, de Thomas Khun, que em “A estrutura das revoluções científicas”, mostra que se não houvesse homens com a
bertura intelectual, e princi


palmente mental, para buscar alternativas para a decadência do uso do conhecimento, até hoje o flogísto e o geocentrismo seriam aceitos como verdades intocáveis, pois um dia foram peças fundamentais no conhecimento tradicional.


(Texto de Gustavo Cirigliano com tradução livre de Antonio da Costa Neto)