sexta-feira, 19 de junho de 2015

CONSELHOS DE PUTA VELHA



CONSELHOS DE PUTA VELHA

Não se esforce demais. O lingerie de seda, o perfume importado e o jantarzinho a luz de velas com vinho caro é para quem merece. Algumas mulheres têm mania de pegar um ficante que encontrou há a uma semana na balada, levar pra casa e tratar como um rei. Tratamento vip é para namorado firme e marido, se merecerem. Porte-se como uma joia rara e como tal não se doe facilmente para o primeiro que aparecer, não importa o nível da sua carência, seja valiosa.
Pare de ser tão boazinha. Abrir mão do que gosta, mudar o jeito de ser, deixar de se divertir, só porque começou um relacionamento e está apaixonada? Homem gosta de mulher com vida própria, orbitar em volta dele é receita certa para o fracasso, ele pode momentaneamente demonstrar que gosta deste estilo, mas logo se cansa. No fim você perde o namorado e os amigos. Sem contar que ele não vai abrir mão de assistir futebol para ficar com você. Use o mesmo critério para lidar com ele e no fim ele estará te acompanhando em tudo, feliz da vida, afinal é muito bom estar ao lado de pessoas que tem vida.
Pare com os joguinhos. Os casais perdem a oportunidade de se conhecer de verdade e sem máscaras. Está manjado demais transar só no terceiro encontro, não responder a mensagem antes de 60 minutos, só atender o telefone no quinto toque, fazer ciúmes sem necessidade e fingir que não dá a mínima. Encontrar o equilíbrio entre ser disponível demais e ser inacessível está difícil. Ninguém mais demonstra interesse e tesão pelo outro de forma saudável. Nunca sabemos se o outro não liga no dia seguinte porque não está interessado ou porque está se fazendo de difícil para valorizar o passe. Ter tato para não perder a dignidade e saber a hora de bater em retirada é importante, mas um pouco de transparência e sinceridade não faz mal a ninguém. Se for fazer joguinho, seja inteligente, crie novos truques, pois alguns já estão batidos demais.
Jamais se rebaixe. Não importa qual foi a traição, a culpa é do seu parceiro e não da “vagabunda” que ele comeu, a não ser que ela tenha colocado um revolver na cabeça dele. Essa história de mulher bater na amante é ridícula. Nenhum homem é digno de escândalos e manifestações públicas de ciúmes, isso inclui as indiretas nas redes sociais. Mesmo que tiver chorando lágrimas de sangue, fique em cima do salto, ninguém precisa saber da sua condição miserável, não dê esse gostinho para as inimigas e para algumas amigas falsas e invejosas. Aprenda, para algumas pessoas só contamos as vitórias!
Seja você mesma. A performance do filme pornô de quinta categoria não precisa necessariamente ir para sua cama, nada mais patético que a mulherada que finge orgasmo e ainda quer contar vantagem “ pras amiga”. Sem contar que se a coisa for forçada demais o homem percebe. Já ouvi depoimentos de caras que simplesmente brocharam em situações assim. Nada contra quem gosta do estilo e faz porque realmente gosta e está com vontade, mas tudo que é falso e feito somente para tentar impressionar o outro pode gerar efeito contrário.
A diferença entre ser feminina e mulherzinha. Homem quer ser homem, o chefe da casa. Suba na cadeira e chame o gato pra matar a barata, peça-o para abrir a conserva de azeitona e trocar a resistência do chuveiro (essa é uma lição que ainda não aprendi). Quando o macho alfa terminar, não esqueça de agradecer e elogiar tanta virilidade Não importa se você é presidente de uma multinacional e ganha cinco vezes mais que ele, seu parceiro vai adorar uma mulher feminina que o valorize enquanto homem e que o faça sentir-se útil (isso se ele merecer). A mulherzinha olha a marca do carro, dá golpe dá barriga e é manipuladora, faz escândalo por qualquer coisa, quebra as finanças do parceiro, requer atenção total, mas é afetivamente mesquinha, só recebe. Mulherzinha, ai que preguiça! Para os leitores que levam tudo ao pé da letra, é claro que esse é um exemplo, existem infinitas possibilidades para valorizar um homem, e não podemos limitá-los apenas a matadores de baratas e abridores de conservas.
Escolha bem seu parceiro use a razão não só o coração. A mulherada lutou e luta tanto por igualdade, mas hoje tem jornada dupla e até tripla para dar conta da vida profissional, casa, filhos e marido. Queria saber onde está a igualdade nisso, pois enquanto a mulher se desdobra, muitos maridos estão no sofá assistindo tv ou no bar com os amigos. Quando for se relacionar com alguém, antes de se envolver loucamente em um amor de pica sem fim, preste muita atenção na sogra, veja como ela trata os filhos. Dá tudo na mão, recolhe os sapatos e meias sujas pela casa, faz o pratinho de comida com o feijão em cima, lava as cuecas, defende cada um até a morte mesmo que estejam errados? Se for esse o caso, AMIGA CORRAAAAA! Caso contrário, você será uma forte candidata a Amélia emancipada.
O borogodó – Magnetismo pessoal e amor próprio vale mais que um corpo sarado. A mulherada está caprichando tanto no treino, na lipoaspiração e no silicone, mas o número de fracassos amorosos não diminui. Outra ala se sente gorda demais e sem autoconfiança para atrair o sexo oposto, mas também não faz nada para mudar. Existem mulheres que aparentemente não possuem nada de especial, podem até ser “feias”, porém, por alguma razão os homens caem aos seus pés. Esse magnetismo em algumas mulheres vem de onde? O que elas têm é independência emocional, se apoiam sozinhas, se bastam, tem outras metas além de agarrar um homem, estudam, trabalham, viajam e são felizes sozinhas ou acompanhadas. Não vivem carentes chorando pelos cantos, não são cheias de mágoas, não pegaram ódio dos homens por conta de decepções do passado. Aconteça o que acontecer, essas mulheres estão sempre de cabeça erguida e tem uma vida que não se limita apenas em se arrumar para encontrar um macho.
Seja uma puta entre quatro paredes e o que quiser na sociedade. Afinal o que é ser uma dama na sociedade? A Amélia emancipada devotada à família, a esposa renegada que trabalha que nem camela para dividir com o marido as contas de casa? Tem algo mais irritante que estereótipos do que é ser uma boa mãe e esposa? E a quantidade de cobranças que recebemos quando não atendemos esse modelo? E essa mulher resignada e atarefada, consegue ser o mulherão que os homens adoram entre quatro paredes? Claro que não! Conheço casais que nunca conversaram sobre suas preferências e fantasias sexuais. Tudo bem que não é fácil manter o tesão a todo vapor 100% do tempo, mas quanto vale o seu relacionamento? Será que ele não merece um pouco mais de investimento? Nem é tão difícil assim satisfazer um homem, faça bem feito, faça com gosto, mostre que ele é desejado (se ele merecer) nem precisa se pendurar no lustre e saber todas as posições do kama sutra, basta tirar algumas horas para dedicar exclusivamente a ele, com amor, carinho e uma pitada de sacanagem, por que não? Por ele sim vale investir no jantarzinho a luz de velas, no lingerie de renda e no vinho caro.
Esse título foi inspirado por uma grande amiga, prostituta aposentada, que acumulou uma experiência de vida que poucas vezes vi igual. Na verdade, ela tem a idade da minha mãe e sempre me deu conselhos dizendo: – Ouve o conselho dessa puta velha! Por incrível que pareça, toda vez que não seguia os conselhos dela me dava mal. Esta mulher até hoje tem em suas mãos tudo que quer e um poder de atração de dar inveja a qualquer ninfeta de 20 anos, soube investir todo dinheiro que ganhou e tem uma vida mais que tranquila ao lado do grande e único amor de sua vida. E quando pensamos em puta, pensamos logo em promiscuidade e vender o corpo, mas tem muita puta por aí mais digna e honesta que certas mulheres tidas como “damas da sociedade”, mas que já se venderam mais que tudo e por muito pouco. Histórias assim são para quebrar os paradigmas e fazer repensar alguns valores, sem contar que chacoalham os puritanos, as feministas e críticos de plantão.

ISIS THOT

sexta-feira, 12 de junho de 2015

RETRATOS DA MINHA ANSIEDADE


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Não parece prazeiroso e a miséria parece inevitável.
Fabien Mérelle cria suas obras embasado em inseguranças e pesadelo. As imagens surreais geralmente o colocan como protagonista de cenas insólitas e aflitivas. A própria valorização de si como personagem das obras fica de lado. Costuma estar pelado, despedaçado, sendo atacado, lutando pela existência e suportando cargas complicadas nos ombros.
Mesmo que sejam autorretratos, as obras dialogam com aspectos que vão além disso. Qualquer um que tenha passado por situações de stress, ansiedade e desgosto tem a capacidade de se relacionar com estas imagens pesadamente simbólicas.

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domingo, 7 de junho de 2015

Sete Aprendizagens Importantes Sobre Mudanças Organizacionais

Sete Aprendizagens Importantes Sobre Mudanças Organizacionais

Por:
Antonio da Costa Neto

1 - Não adianta querer mudar sem mudar.
Tenho observado que as empresas querem, sinceramente, mudar. Elas já entenderam que estão condenadas a mudar, a fazer transformações profundas ou sucumbirão ao caos. Já perceberam que a profunda necessidade da verdadeira mudança. Gostariam, portanto, de mudar a sua dinâmica de funcionamento (para serem mais ágeis, mais adaptativas, responsivas, éticas, lucrativas, enfim, mais inovadoras, etc.). No entanto, quando se lhes diz que, para tanto, é necessário mudar o modo como se organizam, elas refluem. Ou seja, elas sabem que a sociedade (incluindo o mercado) está ficando cada vez mais  sistêmico, contingencial, holístico, em rede, e então querem adquirir e adotar novos programas para se adaptarem à nova realidade, às novas tendências. No entanto, pensam que para se adaptar melhor precisam mudar os softwares, as medidas técnicas mas não querem mexer no hardware, na filosofia, na ação, na mente das pessoas, enfim, na sua cultura e metas a atingir.
Ora, isso é impossível. Os novos softwares que as empresas gostariam de ter (para funcionar mais horizontalmente, em rede) não rodam bem na sua velha "máquina" (que está estruturada verticalmente, como uma pirâmide). A "máquina", no caso, é o conjunto de caminhos permitidos aos fluxos, quer dizer, à interação (ou comunicação) entre as pessoas que as integram. É preciso mudar, mas não só a ótica, mas, principalmente, a ideologia com que se operam, os processos de poder, o caráter da organicidade, a distribuição dos meios e recursos, o que dificulta o pleno bem-estar (para o bom funcionamento) de tudo que circunda o ato organizativo, em especial, e muito especialmente mesmo, as pessoas. Então esta primeira aprendizagem pode ser reescrita da seguinte maneira:
Não adianta querer mudar (a dinâmica de funcionamento) sem mudar (o padrão de organização para a personalização dos seus métodos e fórmulas). As ordens, normas e dogmas devem sim, satisfazer as pessoas e não, o contrário.

2 - Uma mudança só é possível do conhecido para o desconhecido.
Este foi um insight fantástico e potencialmente indispensável em tais processos, ou sejam, os de mudar. É mesmo incrível como ele – o insight – pôde ter percebido isso numa época na qual ainda não eram tão evidentes os sinais de transição para uma sociedade em rede, sistêmica e contingencial, tratando, ao mesmo tempo, o padrão e a personalidade, o todo e a parte, a comunidade e as pessoas – uma a uma. Eis o trecho inteiro: "Uma mudança só é possível do conhecido para o desconhecido, não do conhecido para o conhecido. Por favor, considerem isto comigo. Na mudança do conhecido para o conhecido, existe autoridade, existe uma perspectiva hierárquica: “Você não sabe, eu sei. Por isso adoro você, crio um sistema, vou atrás de um guru, sigo você porque você vai me dar o que eu quero, pois eu ensino você do meu jeito, a partir, portanto, do meu interesse. Você me dá, portanto, uma certeza de conduta que produzirá o resultado, o sucesso logicamente, beneficiando a mim”. Sucesso é o conhecido. Eu sei o que é ter sucesso. É isso que quero. Assim, vamos do conhecido para o conhecido, onde a autoridade deve existir – a autoridade da sanção, a autoridade do líder, o guru, a hierarquia, aquele que sabe e aquele que não sabe – e quem sabe deve me garantir o sucesso, o sucesso em meu esforço, “na mudança”, de modo que serei feliz, terei o que quero. Não é esse o motivo para a maioria de nós mudar? Por favor, observe seu próprio pensar, e você verá os caminhos de sua própria vida e conduta. Quando você olha para isto, isso é mudança? Mudança, revolução, é uma coisa do conhecido para o desconhecido, em que não existe autoridade, em que pode haver falha total. Mas se você está seguro de que conseguirá, terá sucesso, será feliz, terá vida eterna, então não há problema. Você irá ao encalço do bem conhecido curso de ação, ou seja, você mesmo sendo o centro das coisas”. Seria diminutivo acrescentar alguma coisa. Então esta segunda aprendizagem pode ser reescrita da seguinte maneira:
Uma mudança só é possível do conhecido para o desconhecido, não do conhecido para o conhecido. Isto, nunca.

3 - Inovação é sempre um resultado inesperado.
As empresas - funcionando na base do comando-e-controle - se acostumaram a projetar – e a cobrar dos seus colaboradores – os resultados que almejam alcançar. É o chamado resultado esperado. Isso funciona, de fato, quando se trata de reproduzir a mesma coisa: o mesmo processo, o mesmo modelo, o mesmo produto, o mesmo serviço, ainda que a sociedade já tenha sido transformada lá fora e espera por todas estes coisas de forma totalmente diferente. Mas não funciona quando se trata de inovação, ou seja, de uma mudança de verndade. Inovação/mudança é sempre um resultado inesperado (senão seria reprodução, repetição). Como dizia Heráclito de Éfeso: "Espere o inesperado, ou você não o encontrará". Se as empresas já podem saber (de antemão) o que vão obter, então não precisam fazer qualquer esforço adicional para inovar, para mudar nada. Foram feitas realmente para o retrocesso, o atraso, e este é o seu sucesso, o que acontece, via de regra com os sistemas educacionais, as escolas, mesmo as mais modernas: elas foram feitas para Ito. A questão é que elas não sabem. Quando se trata de inovação, e, especialmente, de mudança, ninguém sabe. Então esta terceira aprendizagem poderia ser reescrita da seguinte maneira:
Inovação, ou seja, mudança é sempre um resultado inesperado e assim é inútil tentar controlar processos de inovação verificando se foram alcançados os resultados esperados. Pois, quando se quer mudar, resultados esperados não existem. Mudar é desafiar para o novo.

 4 - Inovação copiada é reprodução, não inovação e, muito menos, mudança.
Parece tão óbvio que se dispensaria esta inquieta repetitória. Mas na prática não é assim. Quando as empresas pedem a alguém que lhes ajudem a implantar processos de inovação e recebem uma proposta, a primeira pergunta que fazem é a seguinte: "Mas onde isso já foi aplicado e deu certo?" Ora, a resposta óbvia a essa pergunta automática só pode ser a seguinte: "Aí não seria inovação e sim reprodução". Por outro lado, algo que "deu certo" em um lugar (e em um momento) tem poucas chances de "dar certo" em outro lugar (e em outro momento). As circunstâncias (espaço/temporais) são sempre peculiares. Poderíamos dizer: deu certo onde deu (em outro lugar não daria, como deu). Mas ainda há quem pergunte: "Mas se deu certo, por que não durou?" A resposta é novamente surpreendente: "Não durou justamente porque deu certo (no tempo em que deu, deu; em outro tempo não daria, como deu)". Para entender esses enigmas todos é necessário perceber que a inovação é expressão de um processo  que deve manter é uma trajetória de adaptações bem-sucedidas, quer dizer, de mudanças contínuas congruentes com as mudanças das circunstâncias e não um estado inicial cujos parâmetros são fixos. Sustentável é o que muda (inova) continuamente e não o que preserva a mesma estrutura e a mesma dinâmica. Assim, o que deve durar é a inovatividade (a capacidade sistêmica instalada de inovar tempestivamente) e não os resultados de uma ou outra inovação bem-sucedida (ou os processos específicos pelos quais elas foram obtidas). O resultado mais importante é sempre o surgimento de um novo processo, não a coisa concreta produzida. A mudança é sempre um novo processo que pode mudar as coisas produzidas, para que as coisas novas não fiquem velhas. Por tudo isso é inútil ficar coletando cases, êxitos, sucessos, exemplos a partir dos quais se possa fazer uma previsão ao menos semelhante. Porque não funciona. Então esta quarta aprendizagem poderia ser reescrita da seguinte maneira:

Inovação copiada é reprodução, não inovação. A inovação é sempre inédita e, portanto, é inútil tentar reproduzir os processos particulares pelos quais uma organização inovou com sucesso.
 5 - Nunca se trata de colocar uma coisa no lugar de outra.
Quando se fala de mudanças – em todos os sentidos – mas, em uma empresa, surge sempre a pergunta: "Mas como será então? O que colocaremos no lugar de...?" Ora, a única resposta que faz sentido para esta pergunta é desconcertante: "Não sabemos como será, será o que será. E não podemos colocar nada no lugar de... antes de ser o que será, porque senão não será o que será". Outro enigma que pode ser desvendado com as considerações seguintes. As mudanças capazes de aumentar as chances de sustentabilidade de uma empresa são sempre processos de transição organizacional. E quando falamos de transição não estamos tratando de destinos últimos e sim de trajetórias diversas de adaptação. Os resultados não podem ser conhecidos “a priori” e, assim, não temos nada (pré-concebido, pré-fabricado) para colocar no lugar de algum modelo, processo, produto ou serviço antigos. Todas as empresas estão vivendo, em alguma medida, um processo de transição (as que não estão já desapareceram em razão de déficit de adaptação). Quem está vivendo a transição, em geral, não percebe o sentido do movimento, mas apenas os problemas, as confusões e os efeitos colaterais do desafio de ter que mudar o seu padrão de adaptação a um mundo em franco processo de distribuição querendo manter, entretanto, o seu padrão de organização fortemente centralizado (é claro que é impossível manter o estado pretérito do padrão de organização quando se muda o padrão de adaptação: a homeostase de uma empresa exige simultaneidade da mudança do padrão de adaptação e do padrão de organização para uma nova visão personalística, única, diferenciada, só sua, inédita, e, por isso, haverá "choro e ranger de dentes" por parte de quem está experimentando diretamente os dilemas da mudança). A transição é narrativa de quem vê a onda; quer dizer, a continuidade (o fenômeno ondulatório, próprio de um meio contínuo) só é percebida pelo observador que observa tudo isso numa linha temporal mais longa. Quem está na onda - e não vê que é uma onda longa e nem mesmo vê que é uma onda - só percebe a arrebentação (quer dizer a descontinuidade, o fenômeno discreto) como choques sucessivos como é bem-vindo o exemplo das pedras ou com o solo (a onda arrebentando na praia). É por isso que as pessoas das empresas têm dificuldade de perceber a transição e, muitas vezes, acham que estão fazendo alguma coisa errada quando a frequência da onda aumenta (com o aumento da interatividade do meio) e aparecem também com mais frequência os problemas da inadaptação (em geral decorrentes do descompasso entre a mudança do padrão de adaptação e a mudança do padrão de organização que deixa de ser padrão e passa a ser personalístico, novo, não se tratando mais de um modelo, e, sim, de uma proposta. Então esta quinta aprendizagem poderia ser reescrita da seguinte maneira:

Nunca se trata de substituição, de colocar uma coisa no lugar de outra e sim de deixar que os novos processos que se acrescentam aos antigos gerem novas configurações emergentes.Não se trata de melhorar, aperfeiçoar, inovar simplesmente, mas de mudar, trocar, colocar coisas radicalmente novas no lugar das que não mais funcionem, mesmo que as melhoremos.
 6 - Uma boa dose de comportamento aleatório é necessária para a inovação, a mudança.
A questão é que não é possível ser criativo sem partir em novas direções e em sistemas dinâmicos complexos. Essas direções são aleatórias. O sistema - no caso, a rede de pessoas que compõem qualquer organização - deve ter a liberdade necessária para aprender. Não pode ser ensinada a não-errar; se o for, não aprenderá. Olhando de um ponto de vista tradicional pode-se dizer que muitos erros são cometidos em qualquer processo de inovação, porém é um esforço inútil (e contraproducente) tentar otimizar a gestão para evitar esses erros. Como diz o conhecido ditado: "Se você não está errando muito é sinal de que não está se esforçando o suficiente – ou não está fazendo nada, porque quem faz, erra". O que chamamos de erro, na verdade não é erro (como desvio de um alvo pré-estabelecido) e sim o modo como qualquer sistema pode aprender (o que é muito diferente - em certo sentido é até o oposto - de ser-ensinado). Aprender não é apreender o mundo e sim mudar com o mundo. Se o mundo vai mal, como podemos ensinar as pessoas a se adaptarem a ele? Este é, por exemplo, o maior, talvez o único erro dos sistemas educacionais que, pelo que parece, não mais funcionam. Mas mexer nisto é mexer em tudo. Portanto, é preferível se manter na “zona de conforto” e continuar reclamando, fazendo greves, paralisações. É como alguém que precisa de cavar um buraco mas que passa a vida atirando terra dentro dele. Depois, se assusta, briga e não entende porque seus propósitos não foram atingidos. O que significa que um sistema só é capaz de aprender se for capaz de se auto-organizar continuamente, integrando o novo, o imprevisto, a surpresa. O comportamento aleatório (não-planejado) é parte do bom processo de auto-organização. Deve, portanto, haver liberdade para as pessoas poderem abrir caminhos inéditos para os fluxos da sua convivência social, mesmo quando avaliamos que isso não levará a nada: nunca se pode saber como o comportamento coletivo será aleatoriamente modificado, mas já se pode saber que não haverá mudança de comportamento coletivo sem uma boa dose de aleatoriedade. As organizações precisam entender que quem é capaz disto não se enquadra a esquemas formais antigos, mas contesta, transgride, incomoda. E sem isto jamais vamos sair da estaca zero. A mudança da parte é que muda o todo, embora possa causar estranhamentos, esbarrões e outros estragos. É o preço que, necessariamente, havemos de pagar. E se o comportamento coletivo não for modificado pelo comportamento individual que pode até ser inoportuno não haverá aumento de inovatividade. Então esta sexta aprendizagem poderia ser reescrita da seguinte maneira:

Uma boa dose de comportamento aleatório é necessária para a inovação/mudança e não é possível ser criativo sem partir em novas direções tomadas sem um plano pré-definido.A transgressão faz parte, ela é necessária, é o remédio amargo que poderá levar ao alívio, à cura.
 7 - É estúpido tentar organizar a auto-organização
Deve-se explorar a ideia de que todos os sistemas são inerentemente auto-organizados e que, assim, nossos esforços de interferir nos processos para evitar o caos acabam impedindo a emersão de novos padrões minimamente aceitáveis de ordem. Essas tentativas são, pelos estudiosos da área qualificadas como estúpidas e fazem propostas de usarmos os momentos de caos - aceitando-os e surfando nos seus fluxos - para aumentar a nossa criatividade e a nossa produtividade. Os quatro princípios básicos para isto podem ser vistos como orientações para o “deixar-fluir necessário” à inovação desejada, são os seguintes: 1) A pessoa que vem é a pessoa certa. 2) Aconteceu a única coisa que poderia ter acontecido. 3) Toda vez que você iniciar é o momento certo.4) Quando uma coisa termina, termina.
Uma das grandes dificuldades das empresas é, justamente, “deixar-acontecer”. Possuídas pela pulsão de tudo comandar-e-controlar para produzir resultados esperados, bater metas, ensinar as pessoas como devem se comportar, programar tudo para que nada escape do que foi planejado, as empresas acabam obstruindo os fluxos que poderiam torná-las mais interativas, mais inovadoras, mais adaptáveis e, consequentemente, mais sustentáveis. O problema é que agindo assim elas têm mais dificuldades de iniciar a transição para um novo padrão de rede. Sim, a palavra correta é: iniciar! O importante na transição é iniciar, não terminar: "O fim é o começo, e o começo é o primeiro passo, e o primeiro passo é o único passo". É como pegar uma onda: depois a coisa vai sozinha... Ora, sistemas que se auto-organizam têm um padrão de rede (distribuída).  Tudo que é sustentável tem um padrão de rede. Nenhuma empresa fará uma transição "acabada" (e, portanto, claramente identificável para servir de exemplo ou modelo) para um padrão de rede na integralidade da sua estrutura e do seu funcionamento, mas... eis a questão: nenhuma empresa, de qualquer tamanho, poderá evitar a aplicação (ou melhor, a realização) de processos de rede no seu interior e no seu ecossistema, se quiser aumentar suas chances de evitar o risco sistêmico - um risco de colapso ou morte por baixa interatividade (que se revela como queda simultânea de inovatividade e produtividade, mesmo em situações de alto crescimento) - que ameaça todas organizações hierárquicas em um mundo cada vez mais em rede. Na medida em que descobrirem isso, as empresas implantarão processos de rede no seu ecossistema: não apenas para ganhar mais e sim para durar mais. Não há o que acrescentar à formulação desta sétima e última aprendizagem.
É estúpido tentar organizar a auto-organização e, neste sentido, um cuidado especial deve ser sempre tomado que é  o de atentar, criticamente, para o grande câncer que tomou conta de nossas organizações nos últimos tempos, especialmente, no cômputo humano e nas relações sociais aí definidas que é o falar em mudança para evitar a mudança. Tão eficiente quanto o lobo bravio vestido de um doce cordeiro é uma prática que evoca a cultura, a simpatia, a eficiência, a ética, a responsabilidade social e com as pessoas. Mas ao contrário, é o elo maligno, o devastador de todas as correntes, destruidor da vida e construídor do caos que se eterniza e que invade todos os segmentos de qualquer organicidade.





sexta-feira, 29 de maio de 2015

EXISTE SIM, AMOR NA RÚSSIA...


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A fotógrafa russa e mãe de dois filhos Elena Shumilov, capturou belos momentos de seus pequenos interagindo com vários animais em sua fazenda.
Ela consegue transportar o espectador para um mundo de conto de fadas, com suas fotos desses pequenos carinhas e seus companheiros peludos, emplumados e macios na bela paisagem rural.
“Quando estou fotografando prefiro usar a luz natural – dentro e fora dos lugares. Eu amo todas as condições de luz – a luz da rua, da vela, a neblina, a fumaça, chuva e neve – tudo o que dá uma profundidade visual e emocional à foto.”
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segunda-feira, 20 de abril de 2015

DEZ INESQUECÍVEIS POEMAS DE MIA COUTO


Dez inesquecíveis poemas de Mia Couto


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Por Nara Rúbia Ribeiro
Mia Couto é conhecido internacionalmente por suas extraordinárias histórias. Seus contos e seus romances são lidos em todos os continentes, em línguas, culturas e credos diversificados.
Valendo-se de uma linguagem marcadamente poética, essas histórias encantaram o mundo.
Como se não fosse o bastante, Mia é também autor de quatro livros de poesia: “Raiz de orvalho e outros poemas” (1999), “Idades, cidades, divindades” (2007), “Tradutor de Chuvas” (2011) e “Vagas e Lumes”, este publicado em 2014.
Selecionamos dez poemas dessas quatro obras de sorte a trazer a todos um indício valioso da genialidade poética desse escritor.

Mia Couto por Maria José Cabral

1 – O Amor, Meu Amor

Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.
Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.
E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.
E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.
Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.
Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.
Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.
E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.
E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.
Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.
No livro “Idades cidades divindades”

2 – Para Ti

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo
Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre
Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida
No livro “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”

3 – Destino

à ternura pouca
me vou acostumando
enquanto me adio
servente de danos e enganos
vou perdendo morada
na súbita lentidão
de um destino
que me vai sendo escasso
conheço a minha morte
seu lugar esquivo
seu acontecer disperso
agora
que mais
me poderei vencer?
No livro “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”

4 – Espiral

No oculto do ventre,
o feto se explica como o Homem:
em si mesmo enrolado
para caber no que ainda vai ser.
Corpo ansiando ser barco,
água sonhando dormir,
colo em si mesmo encontrado.
Na espiral do feto,
o novelo do afecto
ensaia o seu primeiro infinito.
No livro “Tradutor de Chuvas”

5 – Saudade

Que saudade
tenho de nascer.
Nostalgia
de esperar por um nome
como quem volta
à casa que nunca ninguém habitou.
Não precisas da vida, poeta.
Assim falava a avó.
Deus vive por nós, sentenciava.
E regressava às orações.
A casa voltava
ao ventre do silêncio
e dava vontade de nascer.
Que saudade
tenho de Deus.
No livro “Tradutor de Chuvas”

6 – Mudança de Idade

Para explicar
os excessos do meu irmão
a minha mãe dizia:
está na mudança de idade.
Na altura,
eu não tinha idade nenhuma
e o tempo era todo meu.
Despontavam borbulhas
no rosto do meu irmão,
eu morria de inveja
enquanto me perguntava:
em que idade a idade muda?
Que vida,
escondida de mim, vivia ele?
Em que adiantada estação
o tempo lhe vinha comer à mão?
Na espera de recompensa,
eu à lua pedia uma outra idade.
Respondiam-me batuques
mas vinham de longe,
de onde já não chega o luar.
Antes de dormirmos
a mãe vinha esticar os lençóis
que era um modo
de beijar o nosso sono.
Meu anjo, não durmas triste, pedia.
E eu não sabia
se era comigo que ela falava.
A tristeza, dizia,
é uma doença envergonhada.
Não aprendas a gostar dessa doença.
As suas palavras
soavam mais longe
que os tambores nocturnos.
O que invejas, falava a mãe, não é a idade.
É a vida
para além do sonho.
Idades mudaram-me,
calaram-se tambores,
na lua se anichou a materna voz.
E eu já nada reclamo.
Agora sei:
apenas o amor nos rouba o tempo.
E ainda hoje
estico os lençóis
antes de adormecer.
No livro “Tradutor de chuvas”

7 – Idade 

Mente o tempo:
a idade que tenho
só se mede por infinitos.
Pois eu não vivo por extenso.
Apenas fui a Vida
em relampejo do incenso.
Quando me acendi
foi nas abreviaturas do imenso.
Mia Couto
No livro “Vagas e lumes”

8 – Companheiros

quero
escrever-me de homens
quero
calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue depois do último caminho
e quando ficar sem mim
não terei escrito
senão por vós
irmãos de um sonho
por vós
que não sereis derrotados
deixo
a paciência dos rios
a idade dos livros
mas não lego
mapa nem bússola
porque andei sempre
sobre meus pés
e doeu-me
às vezes
viver
hei-de inventar
um verso que vos faça justiça
por ora
basta-me o arco-íris
em que vos sonho
basta-te saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço
companheiros

9 – Promessa de uma noite

cruzo as mãos
sobre as montanhas
um rio esvai-se
ao fogo do gesto
que inflamo
a lua eleva-se
na tua fronte
enquanto tacteias a pedra
até ser flor
No livro  “Raiz de orvalho e outros poema”

10 – O Espelho

Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.
Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.
A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.
No livro “Idades Cidades Divindades”

quarta-feira, 1 de abril de 2015

MENINOS BONITOS: UM MAIS QUE EXÓTICO PADRÃO DE BELEZA


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Com visão romântica e uma serenidade bucólica, o fotógrafo David Armstrong consegue mostrar garotos vestidos com roupas íntimas sem cair no obsceno. Sua casa no Brooklyn, em Nova York, serve como cenário e você vai perceber que David utiliza muito bem seus objetos de decoração como máscaras, espelhos dourados e coroas de flores.
Você pode estar aí pensando que o cara é mais um desses que levam menininhos para casa que servem de brinquedos sexuais para um velho babão (David tem 60 anos), mas segundo o artista nada acontece. “Não há nada [sexo] antes e não há algo depois. São retratos, não se trata de uma narrativa", diz em uma entrevista ao site HintMag.
A série de fotos foi feita para integrar o livro “615 Jefferson Avenue”.

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domingo, 4 de janeiro de 2015

INTELIGÊNCIA E SENSIBILIDADE NÃO SÁO PARCEIRAS DOS GRANDES DESTINOS. PELO CONTRÁRIO, A IGNORÂNCIA SABE MELHOR PUXAR A CARROÇA

NA SOLIDÃO, TRISTE E DESILUDIDO: A MORTE DOS GRANDES PENSADORES EM MEIA DÚZIA DE TRISTES FINS

“A solidão é o destino de todos os grandes espíritos”, diria Schopenhauer. Também a desilusão, a tristeza, o sofrimento. Muita inteligência e acurada visão de mundo não são, definitivamente, caronas para a felicidade. Certamente o contrário, a ignorância, tem mais facilidade em puxar a carroça.


Peter_Paul_Rubens_Prometeu acorrentado.jpg Peter Paul Rubens, Prometeu Acorrentado, 1610-11
Olhando para a história, são poucos os grandes pensadores que chegaram ao fim da vida ainda com esperanças, compartilhando felicidade entre os seus. Talvez Platão aos 80, ou Sócrates, resignado, sorvendo a cicuta. Talvez os filósofos cristãos esperando o paraíso. Kant aos 79, sem nem ligar para isso, na demência do Alzheimer. Mas são estes exceções. No oposto, são muitos os exemplos de suicídios, depressões, desilusões entre os grandes de todos os tempos: desde Heráclito, o obscuro, ermitão misantropo, Aristóteles banido de Atenas, Giordano Bruno nas chamas da fogueira, Maquiavel lambendo botas, Descartes fugindo de todos, Hobbes, o irmão gêmeo do medo, Schopenhauer na depressão, Cioran na amargura, Deleuze pulando pela janela...
Abaixo, meia dúzia de tristes e desiludidos fins de grandes pensadores:
Sigmund-freud-05.jpg Sigmund Freud (1856 – 1939)
Em 1938, Freud deixou Viena para refugiar-se em Londres, após a ocupação nazista da Áustria. Morreria no ano seguinte, aos 83, triste e desencantado, desiludido com a civilização, lutando a sua última guerra, carcomido pelo câncer. Freud deixou para trás os amigos, os filhos e os interlocutores. Foi para Londres com a mulher e a filha, Anna, com as quais compartilhou a solidão, quase sem falar, devido à doença que lhe desgraçou o palato, a laringe, a boca. O cachorro o abandonou devido ao mau cheiro do câncer, que lhe confundia o faro. A solidão só não foi absoluta porque Anna Freud, com um amor quase materno pelo pai – amor de Electra, com o perdão do mau uso da expressão –, ficou ao lado dele até o último suspiro, embriagado de morfina. As quatro irmãs seriam executadas em campos de concentração, embora ele não estivesse vivo para saber disso.
Nietzsche_03.JPG Friedrich Nietzsche (1844 – 1900)
A inteligência foi uma maldição para Nietzsche. Rejeitado desde a infância, cercado de beatas melancólicas, jovem taciturno e solitário, adulto fracassado, doente, incompreendido. Atormentado, pensou coisas “além do bem e do mal”, colocou a inteligência no papel, escreveu muito, aforismos, poemas filosóficos de causar aneurismas, publicou em vida, mas não foi lido. Ninguém entendeu, ninguém quis. Como seu Zaratustra isolou-se em si, na arrogância de seu super, além do homem. Esmagado por enxaquecas terríveis, perdendo a visão e a sanidade, pendulou de um lugar a outro procurando a paz no mundo, em diferentes paisagens bucólicas, sabendo que a guerra era interna. Enfim, triste, abandonado por todos e por si mesmo, encontrou-se na Itália, hóspede de um simples quarto com catre e cadeira, banheiro coletivo no corredor. Um dia, os pensamentos fincando como alfinetes, vislumbres como cortes de navalha, escutou um cavalo sendo açoitado na rua. Brados enraivecidos contra o indefeso animal, o chicote estalando, sangue e relinchos para todo lado. Os transeuntes ocupados sem perceber a cena, cada um preso em suas mesquinhas responsabilidades. Nietzsche rompeu à rua, em desespero atroz, rangendo os dentes na direção do açoite, rosnando blasfêmias contra o algoz. Era o fim do maior filósofo desde Kant: abraçado ao cavalo, chorando, chorando, chorando seu desespero. Enfim, desmaiou para nunca mais. Quando acordou era um nada, um catatônico Nietzsche sem frases inteligíveis, olhar parado, babando. Morreu uma década depois, sob cuidados da irmã, Elizabeth Förster-Nietzsche, aquela que não lhe compartilhou da inteligência e que, por falta dela, serviu para a terrível interpretação de Nietzsche pelo Nazismo.
Karl_Marx_09.jpg Karl Marx (1818 – 1883)
O jovem Marx se casou com uma moça de estirpe, aristocrata, Jenny von Westphalen, e com ela teve sete filhos. Deles a quase metade chegou à vida adulta, as três meninas, os outros morreram na tenra infância levados pela miséria. Fugindo da repressão a família Marx deixou a Alemanha, depois a França e a Bélgica, para enfim se instalar no Soho, em Londres. À época o bairro mais ralé, mais imundo e pobre, onde se podia pagar mais barato. Anos luz das galerias de arte, lojinhas de bibelôs e pubs encervejados que hoje dominam o Soho. Marx passou uma década afundado na miséria, afundando mais ainda a família no desespero porque se recusava a trabalhar em qualquer função que não fosse intelectual. Enfim, a herança dos Westphalen os alcançou e trouxe o sossego econômico da ironia: Marx que pregava o fim do direito à herança, foi socorrido pela parte que cabia à sua mulher. Mas a tranquilidade do dinheiro chegou tarde, acompanhada da doença que a definhou a olhos vistos. As filhas tomaram seus rumos, ficaram os velhos subversivos na companhia dos charutos de Karl e dos remédios de Jenny. Quando ela morreu, sobrou o velho barbudo, cercado de papéis e anotações, tomado de furúnculos, custando a respirar pelos problemas que o fumo entupiu nos pulmões, afundado na solidão e na paranoia, vendo inimigos brotando de todas as sombras. Quando seu cadáver foi encontrado, caído na mesa de trabalho, segurando a pena cheia de tinta, estava irreconhecível, seco, rachado, triste. Em nada lembrava o semblante revolucionário que ilustrou panfletos ao longo do século XX. Das três filhas que chegaram à vida adulta, duas se suicidaram após a morte do pai, do mesmo jeito, por injeções de veneno nas veias.
Foulcault.jpg Michel Foucault (1926 – 1984)
Foucault viveu duas vidas: a da superfície – de aparências, desde a juventude católica ao estrelato acadêmico – e a das profundezas – do submundo, desde o ódio ao pai aos guetos de drogas e inferninhos sadomasô. Na superfície, Michel Foucault foi brilhante, talvez o mais prodigioso pensador da filosofia contemporânea, publicou vários livros, tornou-se referência obrigatória para estudantes de filosofia, história, sociologia, política, psicologia e quaisquer outras ciências humanas. Bibliografia obrigatória em qualquer biblioteca de qualquer universidade do mundo. Um pensamento forte, organizado, profundo, arqueológico, incontornável. Contudo, foi a outra vida que lhe assombrou a existência. Escondido atrás da máscara, Foucault precisava se esgueirar pelas esquinas, pelas sombras do submundo para encontrar a si mesmo. Descendo as escadas, baixando os níveis, o pensador se transformava em outro, degenerado, usuário de drogas, faminto sexual em encontros casuais com estranhas criaturas da noite, ele mesmo uma delas. “Experiências-limite” entre o mais radical erotismo e o flerte com a morte, com o perigo do encontro com os estranhos, e mais assustador, consigo mesmo. Encontrou-se, divertiu-se, viveu os extremos, viu a si pelas gretas, entregou-se. Pegou o mal da época pela veia do desejo, definhou pela AIDS nos anos seguintes, atormentado pelas escolhas que lhe dividiram a vida e o pensamento.
max weber 6.jpg Max Weber (1864 – 1920)
A depressão acompanhou Weber por toda a vida. Teve pelo menos dois grandes colapsos: o primeiro, na virada do século XIX para o XX, o afastou da academia, do trabalho, de casa (rico quando tem depressão viaja); o segundo o levou a vida, precipitando em meses a pneumonia que lhe foi fatal. De família burguesa abastada, Max Weber foi intelectual por vocação, conforme ele mesmo descreveria em um dos seus clássicos: “A Ciência como Vocação”. Produziu muito, estudou demais, tudo, da religião à música. Escreveu, enfim, uma das maiores obras já publicadas, “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, na qual virou a sociologia ao avesso ao romper com o ranço marxista e contrariar, ao mesmo tempo, os cânones do positivismo francês. Também foi um homem público atuante, inclusive como conselheiro alemão no ultrajante Tratado de Versalhes, diante da derrota na Primeira Guerra, cargo de mãos e inteligência atadas, trauma que o atormentou de culpa até a morte. Na guerra tinha sido oficial em hospitais militares, vendo de perto o horror na forma de estropiados, desfigurados, mutilados e cadáveres; na derrota carregou o fardo de acompanhar a assinatura do tratado de rendição mais humilhante da história. Nunca se recuperou. Voltou às pesquisas, às conferências, às salas de aula, revisou e reeditou suas grandes obras, lutou mais um tempo, mas enfim, resignado, “crítico e resignado”, entregou os pontos. Teve o segundo colapso, afundou-se em depressão, não suportou a falta de sentido, o “desencanto do mundo”. Adoeceu, desiludido, entregue à pneumonia que lhe quebrou a rija crosta de aço.
Walter-Benjamin_09.jpg Walter Benjamin (1892 – 1940)
Vítima do pessimismo, da má sorte e da ignorância Nazista, Walter Benjamin foi um dos mais brilhantes e promissores filósofos da Escola de Frankfurt, considerado por muitos o melhor de todos por lá. Erudito, articulado, multifacetado, Benjamin era uma mistura de filósofo, escritor, crítico literário, ensaísta e poeta. Protótipo da mente refinada do início do século XX, colecionador de citações, apreciador de arte, tradutor de Baudelaire e Proust, flanêur nas passagens de Paris. Combatente feroz da modernidade e, contraditório, moderno por excelência, Benjamin carregava a veia romântica, melancólica, crítica, nas leituras que fazia de diversos temas, entre a história da arte e o cinema, na “era da reprodutibilidade técnica”. Fracassado no amor, abandonado em ilusões, muito aquém do sucesso que alcançaria após a morte, Benjamin ainda teve o azar de ser judeu na Alemanha Nazista. Fugiu primeiro para Paris, percorrendo os boulevards e as passagens, mas também o azar o seguiu de perto. Também Paris cairia ante os Alemães. Agarrando-se às últimas esperanças, partiu para os Pirineus, tentando alcançar a fronteira espanhola e, depois dela, a liberdade. Quando chegou, a aduana estava fechada para fugitivos judeus como ele. Pessimista, desiludido, em profunda tristeza, trancou-se num hotel-pulgueiro qualquer e aplicou uma dose cavalar de Morfina, num suicídio indolor. Ironia da má sorte que o perseguiu, no dia seguinte a fronteira foi aberta e todos passaram.