quarta-feira, 10 de agosto de 2011

POEMA EM LINHA RETA - Fernando Pessoa




Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil.
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho.
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo.
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas.
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante.
Que tenho sofrido enxovalhos e calado.
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda.
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel.
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes.
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras,
pedido emprestado sem pagar.
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
para fora da possibilidade do soco.
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
nunca teve um ato ridículo,
nunca sofreu enxovalho.
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
que confessasse não um pecado, mas uma infâmia.
Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!
Não, são todos o ideal, se os ouço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos.
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído.
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil?
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

F E L I C I D A D E - Beatriz dos Reis Carvalho


" - Olha o pinhão quentinho!
Está quentinho!
Olha o pinhão!"

Todos os dias,
à mesma hora da tarde
passa o moleque do pinhão.
Sua voz clara
é tinta de harmonia
na tarde madura.
A meninada da rua
corre em debandada para casa
em busca de uns trocados
para comprar pinhão...
Um dia, morreu a voz
e não se ouve mais o menino
oferecendo sonhos quentes.
- Você pensa que ele morreu?
- Não.
- Você pensa que a mãe dele morreu?
- Não.
- Como ele desapareceu?
- Porque não nasceu mais pinhão...
A felicidade vende pinhão
em nossa porta
e põe seus olhos bem nos nossos
pra dizer:
- Está quentinho!
E depois, como tinta de harmonia
da voz doce do moleque
vai-se embora devagar.
Vai perdendo-se
longe, longe,
e, carregadada de luar...

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

DENTRO DE MIM MORA UM ANJO... Cacaso & Suely Costa

Enquanto ouve, acompanhe a ilustração da música. É bem mais interessante.






QUEM ME VÊ ASSIM CANTANDO NÃO SABE NADA DE MIM

DENTRO DE MIM MORA UM ANJO

QUE TEM A BOCA PINTADA

QUE TEM AS ASAS PINTADAS

QUE TEM AS UNHAS PINTADAS

QUE PASSA HORAS A FIO NO ESPELHO DO TOUCADOR

DENTRO DE MIM MORA UM ANJO QUE ME SUFOCA DE AMOR

DENTRO DE MIM MORA UM ANJO MONTADO SOBRE UM CAVALO

E QUE ELE LHE SANGRA DE ESPORAS

ELE É MEU LADO DE DENTRO

EU SOU SEU LADO DE FORA

QUEM ME VÊ ASSIM CANTANDO NÃO SABE NADA DE MIM
]
DENTRO DE MIM MORA UM ANJO QUE ARRASTA AS SUAS MEDALHAS

E QUE BATUCA PANDEIRO

QUE ME PRENDEU EM SEUS LAÇOS

MAS QUE É MEU PRISIONEIRO

ACHO QUE É COLOMBINA


ACHO QUE É BAILARINA

ACHO QUE É BRASILEIRO...

QUEM ME VÊ ASSIM CANTANDO
NÃO SABE NADA DE MIM!...


(Concepção, ilustração e montagem: Antonio da Costa Neto)

quinta-feira, 28 de julho de 2011

BOA NOITE, MEU ANJO. DURMA BEM!




"Boa Noite, meu anjo. Durma bem!"

Saudação final do pai de Amy Winehouse, Mitch, feita no início da noite do dia 25 de julho de 2011. Ele se preparava para deixar o crematório londrino, onde, segundo as tradições judáicas, o seu corpo acabava de ser cremado.
Sem dúvida, um ato de amor que aqui repito.

Sonhe comigo e me aguarde para a eternidade.

Até breve!

quarta-feira, 13 de julho de 2011

SE EU QUISER FALAR COM DEUS - GILBERTO GIL










SE EU QUISER FALAR COM DEUS

Gilberto Gil

(1980)

Se eu quiser falar com Deus

Tenho que ficar a sós

Tenho que apagar a luz

Tenho que calar a voz

Tenho que encontrar a paz

Tenho que folgar os nós

Dos sapatos, da gravata

Dos desejos, dos receios

Tenho que esquecer a data

Tenho que perder a conta

Tenho que ter mãos vazias

Ter a alma e o corpo nus

Se eu quiser falar com Deus

Tenho que aceitar a dor

Tenho que comer o pão

Que o diabo amassou

Tenho que virar um cão

Tenho que lamber o chão

Dos palácios, dos castelos

Suntuosos do meu sonho

Tenho que me ver tristonho

Tenho que me achar medonho

E apesar de um mal tamanho

Alegrar meu coração

Se eu quiser falar com Deus

Tenho que me aventurar

Tenho subir aos céus

Sem cordas pra segurar

Tenho que dizer adeus

Dar as costas, caminhar

Decidido, pela estrada

Que ao findar vai dar em nada

Nada, nada, nada, nada

Nada, nada, nada, nada

Nada, nada, nada, nada

Do que eu pensava encontrar




segunda-feira, 4 de julho de 2011

"Nada pior do que ser hipocondríaco num país que não tem remédio."

(Luiz Fernando Veríssimo)